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domingo, 20 de agosto de 2017

Quinto Ato


Lembras quando me vistes morrer?
Mão estendida, palma crua,
vida nua,
presa na janela
por um lençol
amarrado,
nó sobre nó.
Então trouxestes vinho
e manchastes o lençol,
como que para tirar
da morte o gosto seco,
o sangue morno
e ainda assim calar,
roubar daquilo que gemia
a voz torpe,
da autopiedade.
Morri torcida entre fibras
urdidas num dia sem sol.
Morri,
regada a vinho barato
rindo de ti que permanecias.
Pensavas que a morte era eterna,
que o fim sossega o pranto
naquele silêncio branco.
Aquele,
do doce de espuma,
da bruma na lua,
da cama
na primeira luz da manhã.
Morri no escuro,
no entanto vivo,
aqui, bem abaixo de ti.
Vejo teu rosto ao vento
cravado pelo tempo,
rasgado,
dilacerado.
Aqui te espero chegar,
mesa posta,
castiçais vermelhos,
taças de cristal.
Beberemos teu vinho,
sorrindo
das armadilhas
no imenso quintal.
Taniamares


quinta-feira, 2 de março de 2017

As Néias


não tem graça
a rua dos bobos
o número zero
às vezes a vida
é só
casa
de papel
no papel
rabiscos
sem teto
paredes
sem rede
casa sem colo
sem bolo
mas casa
tijolo
vão-se os dedos
ficam 100 anos
100 planos
anéis de fumaça
plantados em frente
à praça
tania amares