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segunda-feira, 28 de março de 2016

Aquele momento em que
A Ia aparece aqui em casa e
São Paulo e Curitiba formam
Uma terceira cidade sem nome.
Ali onde brincamos de escrever nossos nomes
Nas árvores que acabaram de nascer:
Meu amor, somos os novos bregas dessa
Terra de ninguém.
Caímos de sono
No quintal das nossas risadas.
Dormimos decretando cores
À jovem população sem rosto.
Ah, qual cachorro irá lamber
Nossa cara quando o sol surgir
Vazio no horizonte?
A cidade sem nome
Só costuma receber você e vocês.
Todos nós gritamos "feliz ano novo"
Quando beijamos a boca da multidão
Olhando com os nossos olhos
Ouvindo com os nossos
Tímpanos
Pensando o que pensamos
Na semana que vem.

Alexandre França

segunda-feira, 21 de março de 2016

Há uma ilusão acerca da palavra amigo. Não temos amigos no mesmo sentido em que falamos dos livros da nossa biblioteca. Não os acessamos quando queremos. Às vezes, forçamos uma convivência com um outro que nos diminui. Que sutilmente nos bota um espelho distorcido na frente para ficar ali (ele, o outro - ou mesmo você), resguardado atrás da impressão horripilante acerca do que achamos da identidade que nos determina. E esse resguardo é a posição mais confortável e triste da nossa esburacada humanidade. Mas em outras vezes, insistimos naquilo que permanece vazio dentro da lacuna que nos separa e criamos uma espécie de máquina onde duas cabeças desenham sem querer um mundo novo. Ai não há mais espelho: é um cara à cara sem imagem, um beijo sem face, abraço de retinas - a narrativa, TODA narrativa, sem nenhum autor.

 Alexandre França

domingo, 29 de novembro de 2015

Há brechas


Poros por onde respira o mundo em nós
E ele suspira toda vez que escuta "quem?"
(a cada suspiro, cigarros são
acesos, garrafas tomadas -
antidepressivos sono e solidão
e etc, etc, etc...)
Há gênios, como, sei lá, Ovídio
Que ultrapassam essa asma
Tediosa.
Pois é essa a posologia
Para os olhos humanos:
Cagar para certas pessoas é
Em muitos casos
Voltar para a realidade

De todos.

Alexandre França

sexta-feira, 20 de novembro de 2015


amor é um sentimento que remete ao
impossível
como chover dentro do escritório
é claro, os colegas avisam:
algo pegou fogo
acionando o dispositivo
anti incêndio.
mas o amor insiste:
o que importa a chuva e os dispositivos todos
quando beijamos de olhos

fechados?

Alexandre França

domingo, 1 de novembro de 2015


vivemos na grande máquina do mal entendimento.
nunca, em nenhuma época, um campo de virtualidades foi tão exposto
nas soldas entre as relações como meio de se interferir e tapar qualquer zona escura que possa existir entre um diálogo e outro.
nossa sociedade impõe que a palavra não pare de falar.
o verbo da nossa época dorme de boca aberta.
devemos encarar esse fenômeno
como um outro esgotamento de linguagem
o esgotamento da decisão e do próprio ato da fala.
reinventar novas formas de silêncio
será a tarefa das próximas gerações.

Alexandre França

domingo, 13 de setembro de 2015


e eu com as varetas da espinha
batendo no tambor da pele os arrepios.
não há música nisso, mas
produção de calor.

o silêncio é uma coberta invisível.

Alexandre França

sábado, 20 de junho de 2015


Deixem a linguagem se sujar
Porra!
Para que depois nós
(Não eles)
Possamos dizer:
Isso serve, isso não serve
Isso definitivamente
É sujeira.
Não deixem o brinquedo na caixa.
Não criem uma geração de colecionadores.
Os que dominam sistemas acordam
Imaginando você idolatrando
Um brinquedo que nunca
Poderá ser utilizado.
Vamos lá, criançada!
RASGEM o pacote do

Presente da linguagem!

Alexandre França

quinta-feira, 18 de junho de 2015

sim, o negativo é infinito.
por exemplo -
você está sem ideias para escrever uma peça?
comece pensando em uma empresa
qualquer empresa falando para seus
funcionários - "a (...) é uma grande família"
qual o macete?
é que esta frase já nasceu profanada,
ou seja, sabemos que trata-se de um
grande absurdo comparar uma empresa
com uma família de verdade
(reunião de pessoas que se relacionam por laços afetivos),
nosso sistema já naturalizou
a forma como ouvimos "a (...)
é uma grande família" -
os anticorpos da nossa memória
já não encaram mais a crítica a
essa estrutura como crítica -
não adoecemos por isso.
portanto, a questão não é mais dizer
"olhem que absurdo isso"
ou "que foda viver assim"
(este tipo de crítica já foi
absorvida pelo mesmo sistema
que vende camisetas, séries animadas
e cria memes na internet sobre -
o que pode ser muito divertido)
a questão é instalar um novo vírus
para devolver a família real
uma forma nova de sentir dor.
para que fique insuportável
ouvir a frase "a (...) é uma grande família"
para que a autonomia de reconfigurar
pelo menos o software da estrutura
"a (...) é uma grande família"
retorne ao sujeito
simplesmente.
isso se consegue desarmando estruturas com
outras.
isso NÃO se consegue reiterando as mesmas formas de
criticar.
embora a gente ame o Tom Jobim, por exemplo
sabemos que tocar bossa nova no boteco
só irá criar mais morosidade cultural,
(e os donos de bares temáticos, inclusive,
AMAM esse tipo de situação)
não estou falando em esquecer o legado
de um grande compositor
MAS
mostrar uma multiplicação de tons jobins,
melhor
um tom jobim gigante colonizando SP
com acordes de bossa nova, essa réplica
banhando a av. paulista de uísque
elevadores tocando "garota de ipanema"
em ritmo de luto, numa tonalidade menor
tudo dentro de uma estrutura crível, fora
do esquadro fantástico...
CARALHO!

(É disso que trata minhas duas últimas peças que pretendo encenar com a Amanda Mantovani e o Bruno Ribeiro)


Alexandre França 

sábado, 16 de maio de 2015

Sim "pouco importam os meios
Mas a singularidade da queda"
A quase morte que se abraça
Na ponte invisível da queda pois
Da queda guardamos outra queda
E nela seremos sempre outro
em outra queda.
Mesmo televisionada nossa queda
a morte morre diferentemente em
Cada tela de toda
Queda.
Mesmo um outdoor
Anunciando nossa morte
É toda ficha que cai
No momento
De outra
Queda.
E mesmo o sangue que escorre
Dos jornais jamais se rende ao clichê
De não espirrar na cara do outro
Pois o outro é queda
O outro é a meta
Da queda.
Não há escada para queda
O outro inclusive
Nada segura
Em nossa
Subida.
A queda é toda escada
Que se quebra.


Alexandre  França 

sábado, 9 de maio de 2015

Alexandre França


Sigo explodindo cabeças
Ou seja, estourando rolos
De plástico bolha
Cortando as unhas dos pés
Levando a sério o boa noite
Do último noticiário.
No lugar onde transportamos e
Somos transportados onde
Trocamos cabeças para estoura-las
A tarde com as pálpebras
O transporte público da mente
O único espelho que me faz
Esquecer da imagem.
A ciência fabrica as dores
E os suores nestas horas
Há uma fábrica moldando
As bolhas que iremos
Estourar
Deus retalha diariamente
Seu próprio

Rosto.

sábado, 11 de abril de 2015

e entra a noite com sua música que
não faz rir e nem chorar
frutificando gomos em cascas
maduras e sem gosto
o movimento lento do movimento lento
entre a luz e a escuridão cansadas
de se cumprimentarem.
feliz por saber:
o que emociona é justamente esta
terra absoluta
sem braços para abraçar
ou pernas para fugir
de ninguém.


Alexandre França

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Alexandre França

O que nos dá a impressão de alma é o movimento
e a singularidade de sua continuação.
não importa se ele vem de uma inteligência artificial
ou de corpos injetados de sangue.
portanto dane-se o que se passa na cabeça de quem dança, por exemplo,
temos apenas a superfície ao alcance das mãos.
(a bailarina pode estar pensando na morte da bezerra e dançando
a sagração da primavera - tanto melhor para a bailarina, dependendo do caso:
isto poderá tornar o seu trabalho ainda mais leve e despoluído)
Valery estava certo "o mais profundo é a pele"
e o som da palavra "alma" é, sem dúvida,

mais belo do que os seus muitos significados.

sábado, 6 de dezembro de 2014

Alexandre França

as trevas e seus dedos
fazendo cócegas
nos lugares públicos
do solitário
quem poderá pichar o muro da escuridão
com a brasa escura do passado?
as trevas me penetram
seus tentáculos se misturam
a toda sombra a toda sombra
quem poderia dizer
"ele ama a noite e seus orvalhos"
quando aqui sou violado?
por onde se esconde a fumaça do cigarro?
de onde essa risada essa tosse essa risada
cheirando a chuva a chuva chuva chuva?
quem nos observa caídos
rezando a reza sem luz
dos esquecidos
quem amará esse homem
parecidíssimo comigo
com um rasgo fundo no rosto

e um olhar opaco?

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

O som das teclas à revelia
Do som dos homens batendo
Canecas em cadeias cheias
De mofo
Escrever como quem foge de alcatraz.
De resto
Um pensamento cheio de merda
Dizendo "dorme, dorme, dorme..."

Alexandre França 

quinta-feira, 9 de outubro de 2014

  
Unhas agarram minhas pálpebras
Da minha luta contra o dia
Só rugas riscam o canto
Do meu rosto.
Decidir quando dormir e
Dormir
Esse é o princípio da liberdade
O céu com seus incontáveis olhos

Abertos à noite.

Alexandre França

quarta-feira, 8 de outubro de 2014


Estou aqui para lhe dizer
Ela vai tirar sua visão com a ponta dos dedos
E acariciar seu medo enquanto o faz.
Sua língua é o manto cinza a cobrir a lua
Sua saliva é a chuva respingando um sangue transparente
Como faz o orvalho da manhã para acalmar as plantas.
Ela vai calar sua voz arrancando suas cordas vocais.
(Seu instrumento é feito de cordas vocais
Caladas)
E ressoa viva sua presença no vento
Que soa em silêncio as notas musicais.
Então ela se deita, nos beija a testa
E penetra nos buracos vazados dos nossos olhos;
Novamente nosso medo é acarinhado por tal gesto
O mecanismo do amanhecer é refeito alí dentro
Num momento de comunhão com a morte.
Quando morremos

amanhece em outra dimensão.

Alexandre França

sábado, 20 de setembro de 2014


Quantos rostos cabem dentro do seu?
Os buracos negros de todos os olhos
Num só sol - na pele brilhante dos
Seus olhos e a explosão de anos atrás
Soldando luas em suas córneas
A face da multidão tem o sorriso
De tudo o que mora aí dentro
Na superfície de qual planeta
O contorno dos seus olhos
Me bota para sonhar?
Onde me reconheço

Nas dunas de areia do seu pensamento?

Alexandre França

sábado, 13 de setembro de 2014

MENSTRUAÇÃO



há árvores a fecundar olhos azuis de ser espanto. olhos que rebentam nos ramos das árvores, que furam os troncos com uma luz antiga de âmbar. sim, tenho árvores nos olhos, os seus ramos espetados na matéria do mundo trazem-me visões de um orgão perfurado, uma teia ondulatória a fermentar tesouros de outras eras. nos ossos o mármore estilhaçado, e no sangue, no sangue um coagular musical de inomináveis. depois chego a casa e o céu abre as pernas. o céu é uma mulher prenhe de estrelas, um sangue quente de astros. mais um filho que não terei... as nuvens passam pela janela e misturam-se na bruma das minhas lágrimas invisíveis: um sonho encontrou o rio atrás do esquecimento. então ouço os meus ouvidos: são os cascos do medo, incansáveis, a navegar o Saturno silêncio.
suspiro... há gomos vermelhos de flôr espalhados pelo mundo. há pétalas a ferver nessas águas silenciosas que viajam por debaixo das cidades. há incenso, e absurdo, e estrelas brancas na garganta e, sobretudo, há aquela névoa densa e incolor que me oculta o teu rosto.
depois, os meus olhos deitam-se, e é só o gesto lânguido do sono.


Alexandre França

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Fichas caem feito pastilhas


Fichas caem feito pastilhas
Tornando leitoso o líquido da mente.
Nunca foi sobre memória
Memória não - ato, disparo, depredação
Tingir a cara sem fundo de fantasmas
Dos pôsteres, livros, revistas
Pichar o muro da idolatria
Com a fúria da fala dos que estão vivos.
Nunca foi sobre memória
Mas sobre quinquilharia
Agora entendo
O funcionamento do meu templo.
Não é curso de mosaico da terceira idade
Mas antes ensinar as velhinhas
A construírem seus próprios
Pentagramas de brinquedo.


Alexandre França

quarta-feira, 27 de agosto de 2014



O teclado dorme
E os vizinhos agradecem
Caíram os dedos
Desta colheita de silêncio
E o que pode ser dito
Balança na boca de uma
Nervosa mastigação
Falar entre dentes
É o fruto proibido
Da árvore sanguínea
Da raiva legítima
Da falta de educação.
E nada como ir embora
Sem falar absolutamente
Nada.
Calar nunca foi tão doce

Quanto nesta estação.

Alexandre França