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sábado, 16 de abril de 2016

O CERCO

Estamos todos cercados;
e o silêncio do sonho
é nossa arma sagrada:
as pistolas e as línguas de aço
dos inimigos brilham ao sol,
e eles gritam tanto
sobre as velhas colinas,
atrás das cegas estantes,
que sabemos de tudo;
e calados ficamos,
amamos e permanecemos.


Alberto da Cunha Melo

terça-feira, 8 de setembro de 2015

CANTO DOS EMIGRANTES

poema de Alberto da Cunha Melo


Com seus pássaros
ou a lembrança de seus pássaros
com seus filhos
ou a lembrança de seus filhos
com seu povo
ou a lembrança de seu povo
todos emigram

De uma quadra a outra
do tempo
de uma praia a outra
do atlântico
de uma serra a outra
das cordilheiras
todos emigram

Pra o corpo de Berenice
ou o coração de Wall Street
para o último templo
ou a primeira dose de tóxico
para dentro de si
ou para todos, para sempre

todos emigram.

sexta-feira, 3 de abril de 2015

Cantos de Contar

Moro tão longe, que as serpentes
morrem no meio do caminho.
Moro bem longe: quem me alcança
para sempre me alcançará.
Não há estradas coletivas
com seus vetores, suas setas
indicando o lugar perdido
onde meu sonho se instalou.
Há tão somente o mesmo túnel
de brasas que antes percorri,
e que à medida que avançava
foi-se fechando atrás de mim.
É preciso ser companheiro
do Tempo e mergulhar na Terra,
e segurar a minha mão
e não ter medo de perder.
Nada será fácil: as escadas
não serão o fim da viagem:
mas darão o duro direito
de, subindo-as, permanecermos.

Alberto da Cunha Melo


em “Cantos de Contar”. Recife: Paés, 2012, p. 30