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sábado, 23 de maio de 2015

REENTRÂNCIAS

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A vida por meus olhos passa
Sem que eu perceba exatamente;
Sou a vidraça que se embaça
E a nada vê tão claramente.
.
E ainda assim não sei notá-la
Ou distinguir a intenção
Da mesma imagem que se cala
Quando me escapa da visão.
.
Somente sei reconhecê-la
Até onde posso arguir;
Se o céu existe numa estrela
Eu fiz-me dela ao existir.
.

O.T.Velho

segunda-feira, 23 de maio de 2011

UMA IMAGEM

Para meu amigo Castelo Hanssen



É só uma paisagem no meio,

Do fio d'água, sem luz,

Que ouso pensar que a creio,

E nada além a produz.



Eu a vejo esquivo e torto,

E numa tal similitude,

Que confundo o vivo e o morto,

Porque tudo a repercute.



Somente não sei precisar,

Se na imagem concebida,

Algo existe além de olhar,

Esse nada que é a vida.



O.T.Velho
ID


Eu sou a somatória apenas,

Duma conta arredondada,

Em resultantes tão pequenas,

Que sequer foi anotada.



A irretratável ambivalência

Cujos lados tão iguais,

Fez avanços que a ciencia,

Os consideraria banais.



E nesta súmula duvidosa

Cuja íntegra não lerei,

Quiçá reste a coisa honrosa

De saber que nada sei.



O.T.Velho

LIMÍTROFES

O espelho não reflete,

Aquilo que julgo ver,

Ele apenas se repete,

Noutro modo de me crer.



Em sua forma atenuada,

O que ele desconhece,

É que a imagem transformada,

Nunca é o que parece.



E o reflexo duplicado,

Mostra coisas que não sei,

Pois sou apenas projetado,

De uma idéia que criei.



O.T.Velho

BIOMBOS E MARIONETES

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O tempo é o eterno paralelo

Na hora perdida que se trunca,

E é cada orifício deste elo

Que leva as horas para o nunca.

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Jamais devolve, não há volta,

É como a chuva de granizo

Que fere as tardes, se revolta

Só pra dizer que foi preciso.

.

Então me ocorre o pensamento

Porque não para de chover?

Pois se o granizo fere o vento

O tempo agora é pra esquecer.

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O.T.Velho

PARADISUM

I

Meu violão sangra um fá,

Inconsistente e banal,

Assim ele diz-me o que há,

E assim eu sofro igual.



Tange em compasso um ré,

Se perde nas dores do dó,

É como um beato sem fé,

Suas cordas fizeram um nó.



A custo um sol ele lança,

Na pretensa curva do mi,

E quando o lá o alcança,

Ele se esquece do si.



II

Ah violão por que choras

Que dor te faz magodo

Será acaso a das horas

De quando és dedilhado?



Ou só a mesma presença

Daquele que te dedilha

Compôs em ti a sentença

E dor igual compartilha



Ou será um acaso, amigo,

E teu destino é somente

Viver a dor sem castigo:

Tocar o que outro sente.



O.T.Velho

ART NOUVEAU

A vida é como uma tela

Pano branco, sem pintura,

Não se pode pintar nela,

Pois a tinta não segura.



Falta cor, falta pincel,

Falta mesmo é um pintor,

Que desenhe sem papel,

E seja ele mesmo a cor.



E que assim se muiltiplique,

Nas cores que ele sinta,

Pra que a tela branca fique,

Toda pintada sem tinta.



O.T.Velho

TRÔPEGO

Se o silêncio não é tudo,

Falta-me saber o quê

Me faz por dentro tão mudo,

Que de fora não se vê.



É como tinta que descora

Na lembrança que arrefece,

Da ausência lá de fora,

Que comigo se parece.



Isto posto de repente,

Sem que nada o provoque

Faz-me eu ser simplesmente

Como algo que se troque.



O.T.Velho

AMÁLGAMA

O meu corpo experimenta

Na discrepância nua

Que a idade fragmenta

A vida que pensa sua



Os anos levam a dor

E um peso sem medida

Ao fortuito portador

Da tese que chamam vida



Não fosse tola a crendice

De que a vida é sempre bela

Eu não seria velhice

Ou não estaria nela



O.T.Velho

ARQUÉTIPO

É tão simples e tão cara,

A singularidade do momento,

Que transforma em jóia rara,

O mais tépido ornamento.



É a magia orquestrada,

Ressaltando do pincel,

Que em cada pincelada,

Forja a vida no papel.



A criação é a árdua luta,

Da mão na massa argilosa,

Que torna mesmo ainda bruta,

A pedra rude em preciosa.



O.T.Velho

http://velhopoema.blogspot.com/

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

RÉQUIEM

E meu poema tornou-se sangue

Tornou-se vinho, fel, paixão...

Foi água presa, aurora e mangue,

Mas não nasceu da inspiração.

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E o meu poema teve as dores

De um texto pobre declamado,

Teve desilusões e teve amores,

Porém não fora inspirado.

.

E o meu poema teve alegrias,

Foi tão pequeno e infinito

Com pretensões tolas, tardias,

E só morreu por ser escrito.

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O.T.Velho

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

TREJEITOS E GESTOS

E o meu poema fez-se velho

Surgiu, um dia, amarrotado

Me fez lembrar um evangelho

Que tinha algo anotado.

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E o meu poema fez-se carne

De condição inconsistente

Já não podia mais deixar-me

Era meu corpo ali presente.

.

E o meu poema fez-se tudo

Numa sequencia interminável

Parou um dia, fez-se mudo

E assim tornou-se inacabável.

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O.T.Velho

MINHAS PRECATÓRIAS

Eu não sou o que pareço,

Sou o lugar onde me ponho

Mas eu dele só conheço

Que faz parte de um sonho.



A outra parte em mim é algo

Que suporta minha crença

Tem trejeitos de um fidalgo

Nada diz, não dorme ou pensa.

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Uma tem em seus enganos

Os que a outra cometeu

Pois fizeram os mesmos planos

Pra não serem como eu.

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O.T.Velho

OLHOS DA COR DO MAR

Não tira teus olhos dos meus

Pois desta mescla esparsa

Resulta em ver-me nos teus

O que nos meus se disfarça.

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Pois um olhar tanto exclama

E quando fala de si

É como o brilho ou a chama

Do meu olhar visto em ti.

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É assim que os olhos se vêem

Numa intenção de dizer

Que toda a visão que contém

Vem de um outro os ver.

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O.T.Velho

REENTRÂNCIAS

A vida por meus olhos passa

Sem que eu perceba exatamente;

Sou a vidraça que se embaça

E a nada vê tão claramente.

.

E ainda assim não sei notá-la

Ou distinguir a intenção

Da mesma imagem que se cala

Quando me escapa da visão.

.

Somente sei reconhecê-la

Até onde posso arguir;

Se o céu existe numa estrela

Eu fiz-me dela ao existir.

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O.T.Velho

NA ESTRADA PRA CURIAPEBA

O pneu velho na estrada

que sabe ele de ser?

Não teve a vida começada,

E bem pouco a pode ter.

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Nada foi do que não acha,

Se perdeu no segmento,

Com seu corpo de borracha

Na estrada em movimento.

.

Se mais nada lhe ocorreu,

Não importa ter morrido,

Foi somente um pneu,

No bem pouco a ser sabido.

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O.T.Velho

AS TARDES DA RUA XV

Eu não conheço um dia calmo,

Tudo que sei ou que conheço,

Fica à distância de um palmo

Da simetria que obedeço.

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Também não tenho a inspiração

Que justifique o mero ato

De me enredar na produção

Deste rabisco ou relato.

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Pois nada penso que entabule,

Na idéia tola e associada,

Algum escrito que se anule

Na dissertação mal começada.

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O.T.Velho

http://velhopoema.blogspot.com/

fonte :Conservatório Íntimo

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

ESQUÁLIDO

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Há coisas que só acontecem
Porque foram esquecidas
Nos instantes que parecem
Não estar em nossas vidas.
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São detalhes que a gente
Simplesmente não os via,
Ou de os ver eternamente
Se esqueceu do que sabia.
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Porém quando tudo passa,
Quando a vida anoitece,
É que então se vê a graça
Numa coisa que acontece,
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O.T.Velho