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quarta-feira, 9 de outubro de 2019

teia



teia

então fui diluindo a loucura
ao compreender que a nascente
de tudo era um caos

urbano e diurno

aprendi a velejar pelas calçadas
como uma sombra entre sombras

sem inventar rastros
ousei vestir os sapatos da morte
e revelar-me ao círculo visceral
da existência

nem fui o
insano ou o decrépito humano

apenas despi a coragem e vivi
sem pele a lapidação da alma

perdi o que
não era essência

e agora
pleno de mim
não sei nem sou

Lau Siqueira       

(do livro Texto Sentido, Ed. Bagaço-PE, 2007. LS)


quinta-feira, 2 de março de 2017

PORRA DE LIRISMO


Lau Siqueira
estou farto do lirismo sem medidas
do lirismo que desprende as palavras
do céu da boca e depois cala
estou farto do lirismo sem compostagem
poluindo a história da velha mudernagem
e buscando uma bofetada funk
estou farto desse lirismo bombado que
balança entre a academia e o espelho
sem uma cerveja com quibe no paulista
estou farto do lirismo comprado no cartão
em cinco vezes sem entrada numa livraria
de shopping - concreto mas sem poesia
abaixo o poeta turista
e o lirismo que passeia pelo mundo para
escrever versos que não saem do quintal
quero o lirismo dos hálitos informais e dos
colossais abismos de uma tradição punk
que vai de patativa e augusto à tzara
quero o lirismo dos outros
dos poetas que ainda não li e dos poetas
que nunca escreveram um único poema
não quero saber de lirismo sem degustação

caralho

quinta-feira, 15 de outubro de 2015

Resistência



o que me sustenta
sobre a carne e osso
é não ter aprendido a desistir

viver é voar
até sumir

(Livro Arbítrio, Lau Siqueira, Casa Verde, 2015)


domingo, 10 de agosto de 2014

ESCALA


Às vezes, quando estou de um jeito
que nem mais a tristeza incomoda
penso que minh'alma é uma escada
Então vou subindo, palavra por
palavra... Separando as sílabas
conforme a capacidade de
armazenagem dos meus bolsos.
Até que a poesia acena para mim
de alguma janela
E depois some como o voo que fica
na memória
tamanha a beleza do pássaro.

Lau Siqueira, in: Texto Sentido

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

POETA INTERINO


todo dia substituo um
cidadão de jeans san
dálias e cabelos gris
por um martelo e prego
sílabas no
branco da folha branca

cada pan cada
uma plêiade de memória
e lixo

todo dia
revelo o bêbado ocioso
que nada
nada
nada

e sempre é um rosto e
um nome ensacado em
minha pele

Lau Siqueira

(do livro Texto Sentido, Editora Bagaço, 2007, Recife-PE - musicado por Patricia Moreyra )

segunda-feira, 4 de março de 2013

O ÓBVIO RELATIVO


senhora liberdade
preciso dizer-lhe com todas
as letras que a minha presença
é um perigo para essas palavras
arremessadas pela perfídia 
e pela moral do excesso

estou em transe no eterno
recomeço onde conjugo o rilke
da leitura com um faustão que
invade pelos ouvidos 

é domingo
e a liberdade é uma porta
com trinco

Lau Siqueira
 

domingo, 17 de fevereiro de 2013

SECRETUDE



Lau Siqueira


tem secredo
que eu sinto

tem segredo
que nunca mais
eu minto

tem segredo
extinto

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013



O que mais me chama a atenção em Schopenhauer é a identificação da Alemanha do século XIX com os dias atuais. Sempre contundente em suas críticas, esse pensador continua cada vez mais atual. "A arte de escrever" virou tipo uma sombra que me acompanha por vários lugares. Reler bons livros é melhor que dedicar-se ao purgatório compulsório de certas literaturas.
Lau Siqueira

TERÇA GORDA





esses abismos colossais
e suas insensatas perdas

atitudes milimétricas
de tantas milhas de milhos
e favas contrárias

nossos submundos de iluminadas
sombras em tecelagem de nuvens

tatuagem dos dias ancestrais
samba de moda no meio da ciranda
tudo roda de maculelê...

(bah, tchê!)

tão íntegro quanto súbito

evocação do infinito

o breve silêncio
antes do grito
 
Lau Siqueira

sábado, 5 de janeiro de 2013



amor platônico
amava vinho tinto
e bebia biotônico.
 
Lau Siqueira

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012



tese
..
.
o sólido flutua

impoluta
a lua trafega iluminada
pelo invisível
s o l

o silêncio é
um relógio martelando
o tempo

Lau Siqueira

(poema do meu quarto livro, Texto Sentido, Recife, 2007, Editora Bagaço)