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terça-feira, 24 de setembro de 2019

UM QUASE INVERNO




o outono só esquenta as vísceras enquanto dorme
só avia pecados em segredo e silêncio
enquanto ora, dissimulado, às folhas secas em escalpo de rosa
pelo espinho que murcha, mas ainda fere

o outono só aquece em olhos úmidos
seca-lhes paisagens sem lhes roubar a vida
como a impor a dor na sombra de uma translação
onde o frio flui impiedoso e ocre sobre cabeças e pés
inabaláveis ou frágeis

o outono só é quente em minha mente insana
que insisto balançar a um sol detrás de um muro
e tranco junto a sonhos findos e repaginados
quase adormecidos, imobilizados
pedaços de um passado a me planar impunes
prensados pássaros sem céu
sementes pálidas sem broto
luz que se aprisiona a espera do inverno tão próximo

não, meu outono não é quente, ele mente.

(Celso Mendes)


quinta-feira, 23 de agosto de 2018

CANSADO DE VOAR





tenho percorrido mundos que não me pertencem



já trafeguei escuros e luzes

a transfixar auras indivisíveis de meus demônios

por entre oníricos corpos celestes

seus totens e meus tabus



perdi-me em abismos

de onde nunca mais parti

planei por saídas que aprisionavam

rompi meus silêncios de aço

ousei sorrisos

sufoquei milhões de prantos



e agora sinto

o cansaço das asas que migraram

léguas e léguas

vida pós-vida



pois hoje eu não queria voar



hoje

eu só queria

pousar em teus olhos



e adormecer

(Celso Mendes)



http://sentedire.blogspot.com/2011/03/cansado-de-voar.html

sábado, 14 de outubro de 2017

ULTIMA RATIO



espreito o indefinido como quem morre outra vez
meus olhos carregam cinzas
seguem opacos, cansados
mas avistam a última barreira

um sussurro me confessa mistérios
demônios dançam libertos
tridentes na carne que sangra fustigam meus sonhos
que teimam existir

insisto
rasgo realidades com meu arpão de delírios
penetro o infinito como um bólido
abaixo do limiar, o desejo do verme me devora entranhas
mergulho-me

caminhos a escolher e um destino marcado
resta-me seguir e contar às estrelas

até a treva, seus derradeiros reflexos
haverão de me acompanhar

(Celso Mendes)


quarta-feira, 28 de maio de 2014

cada gota de sombra
faz a noite pousar
pele sobre pele
enquanto as palavras se aninham no silêncio
[o silêncio fixa sensações]

celsomendes