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sexta-feira, 13 de setembro de 2019

O Observador das Sombras



Pedro Penido


"Estranho.

Sempre julgamos a partir de primeiras sensações, primeiras impressões. E de igual maneira condenamos até mesmo nossos corações. Sempre donos de nossas verdades, em ermos de nossas mentes frias e nossa razão egoísta.

Apontamos lugares e os condenamos a serem ermos, inóspitos, macabros. E assim convivemos harmonicamente com os julgamentos que fazemos, as opções que analisamos e as decisões que tomamos. Criamos monstros longe de nós para evitar os espelhos que nos cercam. Assim podemos nos contentar com berços dourados e camas de reis.

Mas sabe-se pouco sobre os monstros trancafiados nas casas assombradas, nos pontilhões afastados, nas encruzilhadas do caminho, nos escuros porões e, até mesmo - acredite - no fundo de nossos corações. É prático concebê-los e deixá-los à deriva em nossa imensidão. É fácil e "necessário" darmos às sombras os restos que nossa luz produz.

Estou nas sombras, em lugar nenhum mais."



O Andarilho



Parte I: A Caminhada

Pedro Penido

Esperou tanto tempo por lágrimas que nunca vieram. Caminhou solitário pelas ruas, e tragou do tempo, bebeu do luar. Tornou-se resto do tempo, à margem de suas visões. Inevitável como a morte, esquecido como a vida. Envelheceu ali, solitário numa multidão, entre bons amigos do passado e reflexos distorcidos de suas mais estranhas e monstruosas ambições.

Trovejou no temporal e silenciou-se ao amanhecer. Emudeceu nas terras tocadas e marcadas pelo sol imperador. Ali, pouco a pouco, misturou-se às ruas que trilhou. Deixou partes de sua alma no caminho e absorveu do caminho o pouco que ele, por si só, poderia oferecer. Sempre alheio à burocracia da vida e ávido por novas sedes e fomes. Sempre com os receios da infância e os medos da velhice. Sempre obscurecido em suas lembranças, povoadas de tantos vagos nomes.

Seguiu a trilha que lhe restara. Seguiu em frente, até não poder andar mais. Chegou à costa e ali, ante o mar que se apresentava, saltou na última nau que ainda existia. Olhou para trás... fitou a grande muralha verde que se estendia ali. Não chorou ou sequer se comoveu. Ergueu uma taça com sangue novo, brindou, gargalhou, virou-se para o mar e desapareceu.


sexta-feira, 6 de setembro de 2019

O Perpétuo




Pedro Penido



De perpétuo

resta-nos

apenas

o sonho.



Quando pedimos

no silêncio

do travesseiro

as coisas

que nos faltam

todos os dias

em dias inteiros.



São pedidos todos

de perdidos tolos,

ludibriados pela ambição

de tocar o abstrato do mundo

sem manchar de versos as mãos.



O Tribunal




Pedro Penido



Das minhas memórias

os gritos do passado

ainda cravados no papel.



Pelas ruas a escória

dos ritos do pecado;

meras promessas no céu.



Nas carnes cruas

a História

dos mitos e reinados

nos cantos dum bordel.



E se há vida lá fora,

entre fracassos e glórias,

só nos resta viver o agora

sem sermos nossos carrascos,

juris, juizes, testemunhas ou réus.

Tragos e Doses





Pedro Penido

Dois cigarros
e um dia inteiro.

De manhã os pigarros,
à tarde os cinzeiros.

A podridão dos vícios,
sinceros e escarnados,
tornando-nos humanos pífios
vencidos e abandonados.

Dois tragos e algumas doses.
E logo mais sente-se o problema:
quando a ardência de um vira cirrose.
e a elegância do outro vira efizema

Ei-las! As sombras da morte...
Acompanhadas do escorrer do tempo
de quem brinca com a sorte
e voa, louco e sóbrio, com o vento.

Há quem queira sobreviver
em manhãs de sol num dia sereno.
E há quem queira se perder
em tragos e doses de veneno.



Das Cores da Minha Vida



Pedro Penido

Desde pequeno sempre atraiu-me a cor da escuridão. Mesmo, naquela época, morrendo de medo do escuro, atraía-me o mistério que a ausência traz. E cresci vestindo a cor do luto. Gargalhei e chorei em roupas negras como a noite. E vivi um mundo que somente a percepção longínqua e assustada das trevas poderia revelar.
Com o passar do tempo, na juventude forte, apaixonei-me perdidamente pelo ardor das chamas que o vermelho, escuro ou escarlate, trazia ao meu coração. Nesta época beijei com intensidade e volúpia, ardente e alucinado, num mar de sensações. Provei das dores do sentimento ferido e enganei-me, várias e várias vezes, sobre minhas mais convictas constatações.
E avancei cego e louco Tempo afora. Nas esquinas dos anos eu vendi minh'alma a troco de lampejos pueris dos mundos que tanto buscava em tantos outros olhares. Juntei as moedas que alguns jogavam e outros se esforçavam para arranjar. Construi um refúgio nas sombras que todo corpo sob o sol pudesse projetar.
Em preto e vermelho, como chamas rubras no manto da noite, tracei versos insanos, a ferro e fogo, sangue e lágrima, amor e paixão. Eram reflexos meus. E ainda são.
Mas passam-se os dias... envelhece-se na carne, nos versos reflexos e nos lamentos... Mas amadurece-se e prova-se daquele sabor que somente a fruta madura pode oferecer. Pode-se, agora, gargalhar da vida e tocá-la como o vento atiça a relva, como o sol urra ante as colinas e como a lua, silenciosa, encanta, atrai, seduz e beija o mar.
Sou instrumento e senhor da minha loucura, uma amante estranha que me acompanha onde quer que eu vá. E sobre tudo isso, o negro, o vermelho, os sabores e o mar só posso dizer: não pretendo parar de escrever... nem deixar de sonhar.


Vento e Horizonte



Pedro Penido

Jogou os braços pela janela
e deixou-se saborear pelo vento.

Rascunhou suas lembranças no espelho
em dor profunda, em trôpega desilusão.
Arrastou-se para o canto do quarto escuro
e ficou em silêncio até ouvir os gritos do trovão.

Havia lágrimas por todo o lugar
e marcas de batom e sangue no chão.
Não podia evitar, simplesmente evitar,
que seu passado mutilasse seu coração.

Jogou os braços pela janela
e deixou-se beijar pelo vento.
Conquistador de todas as eras
que a arrancou de seu sustento.

Tomou-a nos braços o vento
e levou-a cidade afora para longe,
onde tudo era apenas sentimento
e podia-se, finalmente, tocar o horizonte.

Vassalos do Tempo



Pedro Penido

Quem são os senhores do tempo? Nossos relógios escravizados em seu parâmetro matemático? Nossas fotografias, bastiões de grandes lembranças? Os sons e músicas daquelas boas sensações? Sabores e cheiros dos gostos da vida? Toques de lágrimas e lágrimas-recordações?

Quem são os senhores do tempo? Rostos do passado? Vozes guardadas no silêncio de nossas almas? Conselhos tomados e jamais postos em ação? Ou os absurdos que somos e revivemos em nosso coração?

Se há nostalgia, há sabor. Se há sabor há prazer. Se há poesia, há amor. Se há amor, então, finalmente, com ou sem o tempo e seus vassalos, pode-se viver.



Além do Céu



Pedro Penido

Era com papel e tinta
que escrevia sobre o céu
e os demônios de lá.

Lágrimas entre linhas
e palavras no olhar.

Como se tão pouco
precisasse,
mesmo que tão louco,
ser dito.

Suas impressões
num grito rouco
sobre o que não há no céu
e ainda há no espírito.


sábado, 15 de julho de 2017

Sorvo e Tormenta


Pedro Penido

Tomo-te nos braços
e trago do sorvo dos lábios teus.
Feito vento de tormenta
em nau de náufrago dissabor,
louco até o fim do mundo,
tão perto de ti, tão longe de deus.

Flâmula negra e flâmula escarlate
num baile de canhões e morte
um usa a esgrima, o outro a arte.

Olhos de falcão pela lâmina afora
em duelo de golpes de sorte
enquanto o desejo-tempestade aflora.

Tomo-te nos braços
e trago do sorvo da boca tua.
Feito vento de tormenta,
em mau e trôpego ardor,
escorre a lâmina na carne nua.