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sábado, 13 de setembro de 2014

DESRAIZ



Não sei com que traços se detalham estes sonhos indecididos onde as veias são como linhas que agulhas bordam na distância de um quarto lunar sorrisos inauditos de primavera. 
Deixo-me cair na brutalidade resoluta que a terra à sombra morde quando é possuída pela fertilidade da lava. Porque me dás vontade de perfurar cidades de frente, abrir o sol e mastigá-lo no peito, desatar granadas de estrelas que estoirem com a hipocrisia dos passeios de Domingo no segregar de constelações a dardejar novas palavras. Porque estou ávida de presentes futuros, de te lamber os olhos, os dedos um a um até crescerem raízes da tua dor nos meus cabelos, desgastar as unhas a arranhar o hemisfério oculto do teu corpo que cospe grinaldas e se esquece de dizer “sim”. 
Passos dispersos alargam a impotência da minha garganta de árvore, extravio o tormento pelos esgotos da carne sideral, mas estes pés não se movem, sempre as raízes, sempre o medo, e tu não queres saber. Rasgo-me uma avenida excruciante até à boca, vindima masoquista em campo gotejando gárgulas de frio sobre a tua ausência. Maldito maldito, repito na fala da vulva, estremecendo oásis de quase no regurgitamento de um longe renegado. 
Deste vulcão sem esfíncter convoco o silêncio pela pele repuxada do desespero. Apalpo as vértebras do meu leito, devolvo as cinzas, revolvo revólveres girandolares nas cúpulas de um desejo incomum de torturar os degraus da noite até todos os fantasmas me azularem com despertares a abertura das mãos.

Elsa O.

Náusea



Mordem-se gargantas de sal na criança vadia que comeu o nome. Àquela hora, as flores esticam-se em bicos de pássaro em busca das vozes que rasgam os olhos na diagonal. Inquieta, a água densa baloiça precipícios no corpo. Os filhos da náusea aproximam-se, trovejando lágrimas nos portos vermelhos do submar, e a solidão levanta, em quarto crescente, as noites brancas. As pestanas gotejam esferas distantes e gordas que não vêm na enciclopédia, corpos impossíveis a latejar despojos de nuvem no vazio, corpos que são buracos a expandir-se do avesso. Sabes, às vezes é como se tivesse orgãos meus no teu corpo, e tu o sangue caído no meu… e as lâmpadas rastejassem mandíbulas pela música até ao aturdir das pistas deixadas pelos caminhos, das cordas cansadas na escarpa húmida da vida. Ah amor, espera... Espera para ouvir o piar do sol no som felino das teclas, e então estourar a pique esse balão profundo de vísceras onde mora o vácuo.
Elsa Oliveira

NESSE NATAL, em CHARLEVILLE

Elsa Oliveira


" La seule chose insupportable, c’est que rien n’est supportable. "
Arthur Rimbaud

As memórias que um dia sonhei minhas vão atravessando e diluindo as eras, estendendo-se como cordas onde secam, lentamente, os infinitos de outrora.

Ratazanas enormes parecem levar casas lá dentro. Penduradas nas árvores, bolas vermelhas com olhos muito azuis no centro, penduradas nos passeios, velhas afiando as unhas de talhar o fruto cortam a carne com as facas da paciência.
O vinho quente do norte da europa, uma feira branca e os arcos coloridos abrindo em gomos uma praça muito elegante. Será que já esqueceste o cheiro da canela? Por entre ruas cor de rosa mastigo, de mão dada, o torpor alado do maquinismo do passo, e os gatos magros fogem para trás de máscaras ostentadas por inúmeras placas misteriosas. Então vejo a ponte a aproximar-se e corro com o moinho ao longe para o seu braço solene. Inclino-me sobre o rio a tentar comer aquela luz que há nos olhos dos pássaros a morrer, um frio terrível e liso a ensandecer o corpo. A neve ensarilhada nos cabelos revoltos toca o colo das águas. Tenho-te a cercar-me todas as fronteiras, a ti, que não sabes, dedico esse mundo dorido de branco e de verde. Com uma ferida escarlate na órbita, a lucidez é tanta que entontece os sentidos. É estúpido ir ver campas, mas eu vou na mesma, como todos os outros. Chego à lápide com a noite. Si vous plait, laissez moi entrer, je pars aujourd'hui. Com amigos que julgo eternos sento-me em cima das costas do banco, como que a calcar a morte, e tudo me é estranho na sua familiar aparição. Então, toda a exaustão se aproxima e observa a noite interna das vísceras mais sensíveis, uma imensa bigorna caindo sobre o mundo, oh terrível e sublime ópera humana, o tombar de todos os proletários do abismo, o eterno decapitar da Intensidade.


1.
Abre a boca pássaro cego
qualquer pensamento é uma pérola
engole-o todo
e afunda-te no rio.

2.
Gostei de ir contigo beber cerveja em cima da árvore.
Dessa vez caí, e depois fodemos no descampado.
As tuas calças descidas e a minha cara contra a grade metálica.
Onde está. O limite que torna doloroso o prazer.
Ou o contrário. Pergunto.
Quero que me desenhes um coração pequeno no braço.
Dizes: quero comer-te.
Mordes e às vezes deixas marcas sobre a pele dos meus ombros.
Penso: quero desenhar todos os animais da Terra.
Enquanto caminhamos recolho todas as penas que encontro.
As penas transbordam os meus bolsos e as gavetas do meu quarto.
Um gato esconde-se debaixo de um carro.
Outro gato salta de um contentor de lixo e corre.
Toco a tua mão.
Quero ser o centro de cada estação.
Uma árvore de calendário.
A penugem das raposas.

3.
Tentei voltar ao repouso donde a vida
me separou.
Tentei.
Mas aqui o coração existe, aqui a terra beija,
aqui os animais.

Elsa Oliveira

O LOUCO



ilumina-me. pirata desenfreado do luar. alegre esfumada figura que sobrevoa o puzzle das linhas do horizonte. de um azul terno morrem os poetas, com o ventre a rebentar de cometas e uma lua branca sempre a fugir pelas pernas de tanto extenuar o sangue. mas a luz convexa da pauta acende-se nos neurónios lupanares do louco, navegante do etéreo e do olho interno que dói. os corvos serpenteiam borboletas de chuva sobre a tua cabeça, mas tu não sentes, porque tens um chapéu feito do amanhã da aranha dos sonhos, e não vês, porque as gotas são espelhos ancestrais a luzir os segredos da vida, e no ar há um xadrez por inventar, e no silêncio trilhos de espadas que dançam no esgar dos que deixaste para trás. agora segues pela beleza até entonteceres a hipocrisia biliosa do mundo, de casaco rasgado e a alma rota de estrelas até ao fundo do caleidoscópio. oh louco. se és louco, ilumina-me... ilumina-me... ilumina-me.

Elsa Oliveira

INFUSÃO

Elsa Oliveira


orquídeas mergulham no breu esverdeado do meu sonho. o verde líquido das suas folhas deambula névoas na pura respiração do segredo. esfumam-se as pétalas terríveis e ternas, diluem-se os doces dedos de leite, penetrando o sopro aquoso do lago. suspensos nadas negros de ternura nos escombros oníricos do ser mais puro.

oblíquos impossíveis, folhas lâmina rasgando suave e inequivocamente o ar do poema. escondem-se raras auroras guardadas na espera a que o papel obriga. querem voar, como os pássaros penumbrosos e soberbos no dorso da manhã. mas os sonhos são desenhos a tinta da china sobre uma folha de nevoeiro.

as folhas cortam a luz e o real, ladeiam com amores aguçados as gotas lânguidas do medo. os sonhos devem tocar-se com dedais. brumas cantam o silêncio de tempos imemoriais, lugares perdidos do etéreo e do assombro.

onde me posso perder? dá-me o teu ombro-esfera de brisa e de sombra, a pérola do teu sussuro. o repouso da lua é aqui, entre o mínimo e o imenso, ninho da onda suspensa, reino do deslumbre na tua constelação de inefáveis.


está tudo quieto. escuta. vê com os olhos nus e a alma aberta a nobreza do mundo. sente as suas mais subtis flutuações, o devir da quietude. o real absorve-te as pupilas no seu caudal de aguarela - todo o ser é infuso.

Elsa Oliveira....Portugal