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quinta-feira, 4 de junho de 2015

O homem-bomba.


Casé morreu comigo
na avenida rio branco
às seis e meia da tarde
num dia que o sol parecia
cortar nossa pele.

Casé era um amigo meu do colegial que eu tinha reencontrado há alguns dias. Ele engolia literatura no segundo ano e parecia ser uma dessas pessoas sóbrias que citam Baudelaire num debate político e são cheias de ironia e sarcasmo embutidos. Nunca falei direito com ele. Passei anos sem vê-lo e agora ele era como um desconhecido pra mim. Ele tinha se convertido ao islã; antes disso ficou internado nove meses numa clínica de tratamento para dependentes químicos. Acho que tinha tido uma vida difícil antes disso, mas ainda não sei o quê ele foi antes disso.
O ônibus lotado e o peso da tarde cobria o céu da cidade. As pessoas estavam cansadas naquele dia mais do que em qualquer outro.
Eu disse à Casé sobre minhas dores e sobre como eu odiava meu emprego e sobre as contas atrasadas. O dia era ridículo. Porquê mesmo estávamos ali? O sol derretia as esculturas mortas e silenciosas que eram aqueles pobres humanos cansados presos dentro de grandes ônibus.
- Eu não gosto de sentar, fico de pé porquê daí consigo enxergar todo mundo. Observar é a minha sina, ver como cada um se move em direção do abismo; ver como as pessoas se matam, se deixam morrer. Se enfiam debaixo de vagões inteiros e elas morrem entre os trilhos. - dizia Casé - Observe, as pessoas são divididas em duas categorias: as que olham pela janela do ônibus para ver o que há fora e as que tentam enxergar o reflexo de dentro no vidro. Mas a vida é ridícula para todos, Marcos, todos estão com seus celulares e com suas coisas que levam nas mãos. As mãos nunca estão vazias, nunca. E são poucos os que observam como eu, os únicos que observam estão com fones de ouvido, veja como é ridículo usar um fone de ouvido, se guardar dentro da sua própria morte. Devem estar ouvindo audiolivros de auto-ajuda com esses olhos de piedade.
- A vida é uma coisa pequena uns dias e em outros dias ela parece ser gigante. Mas sempre é perturbador estar vivo entre lírios e serpentes. É preciso se agarrar na morte, ao menos - dizia Casé. E eu ouvia com atenção aquele cara como se fosse o meu próprio pai. Porquê ele era louco e isso me atraía. Porquê ele dizia o que eu sempre quis dizer. Porquê ele era de escorpião e eu era um rapaz inocente incapaz de entender profundamente astrologia.
Algumas pessoas se queixam de morrer por alguma coisa que acreditam, Casé disse que morreria e que não faria diferença nenhuma levar meia dúzia de gente com ele.. naquele dia a vida era pequena demais e nas cidades desabavam penhascos.
M.f.

sábado, 23 de agosto de 2014

Tenho levado porradas do vento


Quando saio de casa pra fumar
E tenho levado porradas da chuva
Quando caiem do céu pingos de mar
Mas as porradas do teu olhar
Nunca mais ousarei levar
Tenho pisado nos cacos,
E tenho cortado meus pés;
Tenho sangrado poesia
E digo mais uma vez:
Tenho levado porradas à toa..
Tenho sido menino como nunca fui
E tenho acordado no meio da noite
Para fumar e tomar algumas..
Não há quem seja poeta
E consiga levar uma vida sã.
Tenho levado porradas de mim mesmo;
Tampouco deixei de sorrir,
Tampouco deixei de chorar:
Mas porradas do seu olhar,
Jamais ousarei levar.

M.f.

quinta-feira, 21 de agosto de 2014

Não posso falar dos barcos
Que somem no colo do mundo
E que pescam peixes e saudade.
Não posso falar dos que não amei
Pois não os conheci inteiramente
E nem os tive em mim por pura paixão.
Não posso falar das nuvens
Pois elas caminham demais
E nunca são as mesmas que foram de manhã...

Eu sou um pequeno moleque inseguro
Que guarda todos com muito cuidado
Dentro de sí..
Talvez essa seja minha meninice.
E quando vejo os barcos partirem
Vejo também que não posso falar sobre eles..

Eu sou um menino com olhos de bicho
Nascendo de novo a cada paixão
E a cada poesia...
MF


domingo, 10 de agosto de 2014

Como estar em si mesmo
E mesmo assim estar em outrem?
Amar a verdade dos mais fracos
Mesmo que seja de puro erro
Os olhos dos que estão aquém.
Pois há amor, há amparo,
Há algo de divino na arte de ser amigo
E, simultaneamente, ser paterno.
Desde o mais infame arranhão
Até o mais ameno ato de carinho:
Estar em si e mesmo assim estar em outrem.
Não temo ao mais escuro e grave:
A nota alta que soa em meus ouvidos;
Pois estão à ameigar os meus pés
As tuas mãos de protesto, de luta, de suor.
Como amar e cuidar com tanta disposição?
Tens o pêndulo do perdão esvaindo amor
Sobre meus cabelos. E choras, como menino..
Pois ainda que pai, é humano.
Pai é aquele, é aquela, são aqueles..
Buscam o amor indefinido além do obvio
À qualquer custa..
Eles estão em si mesmos
E, constantemente, em mim.

M.f.

Tereza.


Tereza, teu prato em cima da mesa:
Ainda cheio de arroz, feijão e tristeza.
Não comestes nada desde manhã;
Pra que isso, Tereza? Pra que tanta incerteza?
Teu mundo virou de cabeça,
E não teves pra onde fugir.
Teu vestido comprido,
Tuas jóias de recordação,
Teu cheiro no guarda roupa,
Tua áspera solidão,
Teu jeito de sentar no sofá;
- O tédio da classe média.
Não irá almoçar, a pobre Tereza,
Nem tocou no arroz amarelo com feijão preto.
Tem fome de vida, de sexo, de música,
De pés no chão, de chuva, de sol, mas não de comida.
E os disparos do domingo com calibre 38
Na cabeça de Tereza que não come.
Tem nojo de si própria, a pobre Tereza.
Ela tem nojo da voz do Faustão, do tédio humano,
Das moscas civis, do chão sujo,
Das bitucas de cigarro... pobre Tereza de classe média.
Comerás a janta, Tereza?

M.f

quarta-feira, 28 de maio de 2014

Minha gota d'água salgada
Escorrendo pela areia;
Querendo chegar no mar
Onde as ondas se espalham.
Gota de água doce
Que tua boca me dá
Na noite que há de cessar:
Hoje, meus dentes mordem sua carne
E minhas mãos repousam em seus seios.
- Mas só hoje, meu amor.
Os olhos que se olham
E fazem brilhar os faróis
Fincados nas ilhas que afundam no mar.
A coruja no pé da canoa
Que olha o mundo mas não voa;
Coruja de pena com olhos de louça
Voou tanto que quebrou suas asas.
Mas depois de tantos risos e beijos
A pele branca do dia
Há de tocar o mar, há de tocar o céu;
O meu sorriso há de amarelar,
O velho há de passar pela praia
Com sua pipa amarrada na bicicleta,
O vento há de derrubar as velas.
Mas um rio cairá na horizontalidade do mar
E gaivotas transitarão no céu que pinga, pinga, pinga..

M.f
Deita aqui no chão de terra
Nem que seja pra sujar a roupa
Óia la no céu de Santa Cruz
Os bicho avoando e as nuvens se formando
Quanto sabiá na palma da mão
Da folha de bananeira
Flor de jacarandá boia lá no rio
Pra cair na cachoeira.
Pega a caminhonete e vamos lá pro mato
Colher soja e napier pra mode os boi comê

M.f

sexta-feira, 16 de maio de 2014


''Não quero ter-te na palma das mãos
Pois, como areia, você escorreria por entre os dedos;
- E escorre.
Te amo calado. Te amo no escuro.''
Um céu repleto de girassóis nus,
De nuvens que morrem amanhã,
Que dançam hoje; um dia tão azul quanto eu.
Nós, ainda que humanos, imortais.
Eu dizia ao mar coisas desinteressantes,
E ele me ouvia com atenção; novo amigo.
O meu amor é um ruído desafinado
De um lindo canário num quarto escuro;
Amo suas penas amarelas claras,
Amo sua insensatez, sua indiferença;
Amo seu canto desafinado mais que tudo;
Ainda que não posso tocar sua face, amo.
Amo há alguns dias; amo de porre, amo nos céus.
E como dizia Drummond, eu te amo porque te amo.
Mas te amarei só até amanhã,
Tudo morre, ao menos uma vez.

Matheus Forcinetti


quinta-feira, 1 de maio de 2014

Moça lua


Onde encontrar o poeta das incertezas?
No coração de quem o compreende;
Numa praia onde a areia é pesada
Como a água salgada que nos faz esquecer.
Praia de nossas insanidades
Deserta como nossas almas;
O sussurro que nasce do mar
Ecoa em nosso vazio mútuo.
Teus ouvidos sabem ouvir meu silêncio,
Pois seu coração compreende o meu.
Nós esculpimos a mesma solidão;
A escultura de nossas almas loucas e vazias.
Eu, com os pés amassando a areia,
Na praia deserta, de coisas incertas;
Sonho acordado com sereia,
Com o amor da moça lua.

M.f.

segunda-feira, 21 de abril de 2014

Almoço em família

A mosca que entra pela janela Meio-dia, hora de almoço Indesejada pelos cegos E amada pelos mudos Distrai as crianças e os velhos A inquietação e o tempo em espera Para que tudo isso se torne algo mais A velha reza dos lúcidos abastados: ''Pão nosso de cada dia, nos dai agora..'' E meus ouvidos, loucos para ouvir Miles Davis, Não suportavam o oráculo Povo branco comendo carneiro Não ousavam comer a própria carne Era feio demais E mosca não era comida benzida Era suja demais Carlos segurou o arroto, Maria segurou o espirro, Juliana segura os talheres, E nenhum suspiro de alívio O câncer se disseminou pelos amores Todos os olhares vieram do Paraguai Choravam de misericórdia E riam da televisão E a mosca? Era deus E ninguém sabia M.f.

terça-feira, 1 de abril de 2014

Conformados


Já estamos acostumados
Com o piso encerado
Com as paredes pintadas
Com o grito ensurdecedor
Das cigarras urbanas
Nos é normal o rangido de dentes
A contração dos nervos
A desilusão dos olhos
A secura da mão insegura
Que já não afaga mais
Apenas faz o sinal da cruz
É irrelevante o sol
Assim como este poema
Tanto quando o dissipar da fumaça e da chuva
Tanto quanto uma folha de amora
Que enaltece a natureza
E de leve, aflora
Estamos todos acostumados
Com um mundo enfastiado
Cujo suspiro de alívio
É oprimido e encarcerado

M.f.

segunda-feira, 31 de março de 2014

O teatro de um bêbado



Eu, apenas eu
Pisando na areia úmida e fria
Meus olhos secos e empedrados
Mostravam a chama que nem mesmo ardia

O sol posto nos postes
Exalava soberania
Me era calmo e substancial
Como o tempo que rasgava meus risos
E minhas filosofias

Eu era o espetáculo de uma platéia insignificante e imprópria
De insetos e cães vira-latas
Meu ódio e minha melancolia
Escavavam um buraco em meu próprio olho
Que feito de ego e pedra, resistia

A água que vinha do céu
E o céu que deitava no mar:
O erotismo da natureza
Que como um quadro torto e belo
Fazia arder-me os versos,
Meus cascos, meu drama,
Minha comédia, meu terror.

Minha bipolaridade enferma
Que me dá azia
Minha vida incerta e naufragada
Minha peça de teatro torta
De riso, de choro
Sem roteiro e utopia


Matheus.Forcinetti.