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terça-feira, 10 de dezembro de 2019

FÉRIAS




agora terei tempo de me esconder e chorar sozinho no meu canto
terei tempo de ouvir aqueles pássaros, saborear aquela letra
cochilarei enquanto sentir cheiro de café
terei tempo de reclamar do tempo.

Tonho França

PAUSA




uma tristeza, uma quietude
um ensimesmamento
sem efeito
pausa
sem causa.


Tonho França

Fatalidade


Era aficionada por livros. Destino traçado: seria uma intelectual. No entanto, foi encontrada morta sobre um livro. A indigestão matou a traça.

Tonho França

segunda-feira, 28 de outubro de 2019

Esculturas



611 esculturas de barro
611 espasmos no barro
611 sonhos no barro
611 homens no barro
611 mulheres no barro
611 putas no barro
611 padres no barro
611 crianças no barro

João, Maria, Joana, Francisca,Pedro, Beatriz,a beata infeliz,filho da Zeca doceira, Zezé da padaria, aquela morena que desfilava as ancas fartas e os seios de meia lua nas esquinas...seu zé do cavaquinho...

o João, joão de barro
a Maria, maria de barro
os santos, também são de barro
são todos de barro
mortos na lama
são todos agora, lama
611 esculturas de barro
Esculturas
Escuras
611
Sepulturas...

Tonho França


terça-feira, 8 de outubro de 2019

Vaso de cristal







Herança de família

A única peça de arte – arrogante e centenária

Enfeita minha sala.

contemplo a transparência antiga e estática do cristal

:

atiro-o contra a parede

os pedaços libertos reluzem faces conhecidas no tapete

algumas, como se vivas, pontiagudas

136 vezes dançam meu pulso

e bordam em mim, com pele e sangue

o nome de minha avó.



Tonho França



terça-feira, 21 de maio de 2013

Bárbara




Veio em meio ao vento frio de maio
Ou entre à outras tantas correspondências ainda por abrir
Fez-se assim, sem saber, surreal - odara
Era Bárbara, dos olhos de além mar
Da pele clara
Bordada em desenhos e símbolos coloridos
Tinha a beleza das romãs
Do canto das saíras
Era bárbara,
Lábios de cacau
Seios rijos e cochas fartas
Caminhava nua entre os versos e partituras
Dançava e ria, como se feliz
Como se eterna menina
Da pele clara
Odara
Era assim,
Era Bárbara,
Bárbara, enfim.

Tonho França©

sexta-feira, 26 de abril de 2013

Loucura





Tenho nos olhos sete luas e os cincos oceanos e em meus poros pousam todos os ventos e vozes. Meu coração é tecido em rosa e mármore e levo comigo amores mais antigos que o tempo. Sou íntimo da morte, demônios e deuses. Cultivo anjos nas palmas das minhas mãos. Escrevo o destino de todas as histórias e colho nas bocas das moças todos os sonhos, assim me alimento e pinto as manhãs. Me reinvento em todas as auroras, ainda com o peso de ter nos olhos sete luas, a saudade dos cincos oceanos e nunca ter sentido a presença de deus.

Tonho França₢

segunda-feira, 21 de maio de 2012

Sobre Ventos e Ausências

Violetas claras abraçam os alpendres das janelas

réstias de um sol tímida dançam cores à cal das paredes

só o vento canto entre molduras de telas antigas e mobílias

... o relógio repousa

o tempo repousa

a ausência em sua plenitude dança no piso de tábuas longas

o mundo repousa

só o vento canta

só o vento

canta



Tonho França

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Noites sem estrelas...(tempo sem deuses ou anjos)

O tempo hoje é feito de aço

forjado a fogo-ferro-fundido

Lágrimas de lamas e lavas - fuligens

Os olhos da noite repousam na esfinge

A sentença – equação dos destinos



Enquanto os colibris beijam flores de plástico



Os sonhos partiram nos refrões, solos das últimas canções

Os mares se foram e com eles seus cais e seus faróis.

E os homens perdidos, em silente ruído: Rogai por nós.



A um céu ausente, de deuses dormentes, em antigos esconderijos



E sete vezes por sete luas sete vozes cavalgaram o tempo a sós

e os homens perdidos, rasgam-se em gritos: Rogai por nós.



A um céu artificial, dormente, de deuses ausentes - flácidos!

E os colibris ainda beijam as flores de plástico.



Tonho França