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quinta-feira, 28 de novembro de 2019

agora um pássaro sobrevoa a cidade - é noite
e as penas não devem ser azuis
vasto o campo de morangos e rosas
onde
caminhei num tempo                             longe
faminto busca os caracóis do dia
                            [simbiótica autofagia ]
bichos que devoram
noites- dias
a vida sabe ser crua - mas se mantém
e os bichos
saciados a (se) suportam


nydia bonneti

revista Gilda

quinta-feira, 2 de novembro de 2017


bem do meu lado fingem
dormir
personagens
da última página
do último livro
que li:- um truque

para que não os esqueça

Nydia Bonetti    

segunda-feira, 10 de abril de 2017


pequena, minha aldeia
nela cabe uma casa
com quintal
onde mora um cão
e crescem flores
nas frestas
que se abrem no chão
— meu canteiro —
onde pássaros pousam
e caracóis azuis

rastejam — uma festa

Nydia Bonetti

sábado, 19 de novembro de 2016

Marilia Kubota

Em Diário da Vertigem, Marilia Kubota parece transitar entre o sentir do tempo que passa veloz como um trem desenfreado e o tempo estático das fotografias, os olhos como flashes, na observação do instante suspenso num espaço sem gravidade, onde também trafegam as memórias. Tem a cidade como lugar e observatório. As ruas e sua gente são pautas onde inscreve os poemas. Passeia entre casas e edifícios e talvez imagine espelhos que refletem pessoas, que na verdade são – uma pessoa (a poeta?) que celebra – e canta – a vida e seus mistérios. Nota-se claramente que na voz de Marília ecoam ressonâncias de tradições filosóficas orientais, prevalecendo no livro uma visão de viajante: breve, mas atenta, transitória, mas marcante, sutil e vertiginosa, como são as viagens empreendidas via intelecto/coração.

Nydia Bonetti, poeta, autora do livro de poemas Sumi-ê (Patuá, 2014), integra o Projeto Instante Estante, curadoria de Sandra Santos, Castelinho Edições e a Coleção Poesia Viva, do Centro Cultural São Paulo, publicada em 2012, e as coletâneas QASAÊD ILA FALASTIN (Poemas para a Palestina), Selo ZUNAI, Antologia Digital Vinagre - Uma antologia dos poetas neobarrocos. Desvio para o vermelho (Treze poetas brasileiros contemporâneos).


domingo, 19 de junho de 2016

na casa
passeiam fantasmas
em busca de espelhos
de não se ver"

(Nydia Bonetti)‎

sábado, 8 de agosto de 2015

Nydia Bonetti

perdoa pai, te julguei tão fraco
hoje carrego meus fracassos

tão maiores que os teus

Nydia Bonetti

pai, o que sentia
ao percorrer caminhos
que hoje são meus?
insondáveis
todos os caminhos
Nydia Bonetti

envelhecer como meu pai.na sua
solidão de lua
seu silêncio de pedra
e a placidez de um lago que seca

sob o sol de outros tempos

sábado, 25 de julho de 2015

Nydia Bonetti

Fosse flor — o verso
arrancava-lhe as pétalas.
Pássaro fosse
— as penas.
É verso só.
Arranco-lhe a pele apenas

e deixo sangrar.

domingo, 5 de julho de 2015


Sol preguiçoso
na janela do dia--
já é inverno.


Nydia Bonetti

poetas que se atiraram da vida
pela janela
num mar
de águas azuis ou sangue
overdose de tudo
cantos breves imensos
partituras inacabadas
pena:velhos poetas me fascinam
com seus olhos de espanto
e ternura incontida

Nydia Bonetti
Nydia Bonetti

a dor molda o poeta feito um oleiro
e o barro se contorce
entre silêncios, palavras e espantos
vaso de terra
que ao sopro mínimo de vento
canta:- nervos expostos
flor da pele

domingo, 1 de março de 2015

árvore do cerrado. cresceu comigo
rude e exótica. mas era minha
eu fui embora. ela não quis
ela não tinha pés. eu não tinha raiz

Nydia Bonetti

quarta-feira, 8 de outubro de 2014



Disseca o poeta - e a poesia.
Arranca as vísceras
das palavras.
Debulha letras.
Depois as embalsama
como fez com o passarinho
na aula de ciências
num tempo já distante
e depois chorou.
Há coisas que definitivamente

preferia não ter aprendido.

Nydia Bonetti

·
Amoras rubras pendem para o rio. Águas vermelhas.
Os lírios brancos imploram pelas águas.
Levam perfumes.
Os pés de paina floresceram de noite.
O rio nem sabe.
E nós crianças, pés pequenos nas águas que já passaram.
Também passaram nuvens, borboletas.
Tudo tão breve.
Passou o tempo de comer amoras
de colher os lírios.
Passou o tempo de soprar as painas,caçar borboletas.
Passou o tempo de olhar as nuvens,
de brincar nas águas.

Passou o tempo. E o rio nem sabe.

Nydia Bonetti

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

OFFICINA


sinto saudades da oficina de pedra do meu pai
do atelier de barro do meu avô
da roda d'água que movia a serra que parecia
cantar
do fole, de atiçar o fogo de forjar ponteiras
do pó, que encobriria tudo e corroeria pulmões
do chorume da terra e do ruído áspero
do metal contra a pedra
rostos e corpos que surgiam do barro que parecia
chorar
da erva doce que nascia no mato entre cascalhos
e flores
e lá no fundo o rio
vagaroso e barrento - primeira lição de poesia


nydia bonetti 

domingo, 10 de agosto de 2014



como pão ázimo
. . . . .conto as horas no ábaco
sou como baixo-relevo
a minha bússola não me orienta
cabalas não me interpretam
um olho ciclope me olha
o meu debrum soltou a trama
[um drible no destino]
lua de marfim, noites de ébano
o fauno toca sua flauta
garimpo em velhas minas

. . .rudimentos de novas gemas

Nydia Bonetti

domingo, 29 de junho de 2014


arrancar dos olhos a poeira do tempo
que nos impede
de enxergar a vida com mais clareza
sem temer os assombros
dilacerar a carne. arregalar os olhos
riscar a pele com espinhos
e desenhar

a flor

Nydia Bonetti

quinta-feira, 5 de junho de 2014

Nydia Bonetti
talvez seja mesmo culpa
dos meus pés
pequenos
essa minha constante
falta de equilíbrio

domingo, 19 de janeiro de 2014


Então lhe perguntaram
mais uma vez

— o que é poesia?

Tentativa infecunda
de traduzir a música


do mundo — Talvez.

Nydia Bonetti