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sexta-feira, 8 de novembro de 2019

Rilke em Manhattan


  
 A poesia de Rilke tem como objeto não a perfeição, mas o inacessível


Os versos do poeta tcheco Rainer Maria Rilke (1875-1926), apesar do vigor, parecem, em geral, antigos e em desconexão com nosso tempo. Continuam a ser lidos — para tomar as palavras do crítico José Paulo Paes — como uma “luta com o anjo”. Seu contemporâneo, o romancista Robert Musil dizia que Rilke era “um homem mal adaptado aos tempos atuais”. Musil — como quase todos — o via como um prisioneiro do passado. Eu o vejo, ao contrário, como um profeta do futuro.

Podia andar, hoje mesmo, pelas ruas de Manhattan, que ainda assim o tempo lhe deveria algo. O tempo sim — com sua lentidão disfarçada de agitação — vem a reboque dos poemas de Rilke. Essa impressão se torna mais forte enquanto releio seus versos em “Rainer Maria Rilke (poemas)”, coletânea traduzida e apresentada por José Paulo Paes (Companhia das Letras).

É preciso chegar ao avesso da letra. A palavra não passa de uma cortina através da qual tentamos delinear a silhueta do real. Ler através: é o que nos pede a poesia de Rilke, e não a leitura rigorosa — “ao pé da letra” — feita pelos especialistas. Não ao pé, mas frente a frente: este é o desafio que ele nos propõe.

Escreveu seus poemas escondido em castelos antigos. Conservou a pose de aristocrata. Os bigodes nobres e o olhar perplexo parecem um grito de espanto. Seria Rilke, nos sugere Paes, a última alma do Império Austro-Húngaro. Lembra o crítico, ainda, que ele tinha uma confessa aversão “ao mundo da velocidade, da máquina e da produção” e que desprezava os artefatos modernos “vindos da América, coisas vazias, indiferentes”. Fala-se em Rilke e se pensa, imediatamente, em desamparo, angústia, desprezo pelo novo. Pensa-se em alguém retido nos mitos e na nostalgia. Tentamos envelhecer Rilke, envolvêlo em um manto antigo. Mas, enquanto o leio, eu o encontro vigoroso e feroz, como se — rapazote audacioso e cheio de si — circulasse por Manhattan com seus cadernos de notas, disposto a ler o que se esconde atrás daquelas torres de desperdício.

Rilke foi um cidadão do mundo. O próprio José Paulo Paes constata: “Havia em Rilke uma espécie de compulsão deambulatória que não o deixava esquentar lugar”. Eis o nosso contemporâneo. Sua metafísica é, talvez, uma física do invisível. O “Senhor” a quem se dirige é, mais, o Enigma que o futuro nos propõe. Rilke, leitor do futuro. Indisposto, sim, com seus tempos aristocráticos. Enquanto parecia fugir para trás, dava um salto à frente. Ainda hoje ele está à nossa frente.

O epitáfio que escolheu para seu túmulo sintetiza esse projeto existencial: “Rosa, ó pura contradição”. Está,
mas não está. Pertence, mas não pertence. Não podemos pisá-lo, como fazemos com um inseto que é sempre igual a si mesmo. Basta ler seus poemas. Escreve: “A minha vida eu a vivo em círculos crescentes/ sobre as coisas, alto no ar”. Nossa mente, rasa e cansada, logo evoca os anjos. Mas não é em círculo que trafegam os aviões de caça, as sondas interplanetárias e os satélites?

Rilke, com sua poesia, constata a existência de um Enigma preso no coração do mundo. A ciência deseja perfurá-lo. As religiões querem iluminá-lo. Rilke — como todo poeta — limita-se a dançar em torno dele. Como um menino que risca a paisagem urbana com seu skate, ele (com palavras) faz piruetas, gira, cambaleia. Cai — a cada verso  , uma pequena queda —, mas se ergue de novo.

Beija o Enigma, e sabe que só isso nos resta a fazer. Mas quantos têm a coragem de aceitar? “Giro às voltas de Deus”, ele diz, “e giro há milênios, tantos...” Quem será, porém, esse Deus? Qual será essa pergunta que o intriga e em que cujo lugar a palavra Deus aparece? Vê o antigo Deus monoteísta como um velho solitário, que precisa de sua ajuda. “Vivo sempre à escuta. Dá-me um sinal qualquer./ Estou bem perto de ti”, oferece-se. Sabe que seus sentidos estão exilados desse Deus inacessível. Melhor dizendo: desse Enigma.

Rilke tem consciência de que a ideia de Deus é só um manto com o qual envolvemos o indecifrável. Escreve ainda: “Obreiros somos — mestre, aprendizes, serventes —/ e te construímos, ó grande nave altaneira”.
Construímos — sim, nós, homens, fazemos isso! — a grande nave (grande pai) no colo de quem nos encolhemos. Mas o que fazemos, senão proteger a nós mesmos?

Cada um de nós, diz Rilke, luta para escapar de si. Mas isso é impossível, situação que ele define no verso atroz: “toda vida é vivida”. Tudo oque temos é o que vivemos e nada mais. Ele mesmo se pergunta: “Quem a vive? És tu, Deus, que vives a vida então?” Deus está no Silêncio, o poeta nos sugere. Está na ausência. A poesia de Rilke tem como objeto não a perfeição, mas o inacessível. Mas, em um ricochete, a pergunta lhe volta e o atravessa: o inacessível está aqui mesmo.

Rilke fala, todo o tempo, de seu desejo de suportar a sombra. Pois é assim nosso mundo: quanto mais ele se expande, quanto mais a técnica se acelera, mais as perguntas (sombrias, enigmáticas) se acumulam. O poeta é aquele que sai de si para, como em uma morte, retornar à natureza. Para falar como Clarice: para retornar à Coisa. Diante do anjo de pedra de Chartes, o poeta se interroga: “Que sabes, tu de pedra, de nosso ser?” A verdadeira pergunta, porém, ainda é mais complicada: o que nós mesmos sabemos?

A poesia de Rilke nos empurra de volta às perguntas mais essenciais. Em torno delas, dançamos. Está bem: como anjos, mas — como alerta Drummond — um tanto tortos. A ideia de vida, em nossos dias, se assemelha à cegueira, e talvez à morte. Diz Rilke: os vivos olham para fora, os mortos para dentro. Como a pantera no Jardin des Plantes, em Paris, que às vezes ergue as pupilas; mas não basta ver.

Rilke a enxerga presa em um círculo. Nele detida, “a cada volta urde/ como que uma dança de força; no centro/ delas, uma vontade maior se aturde”. É nesse centro que a vida lateja. Jamais o pegaremos. Por mais que atravessemos com nossa ciência o coração da pantera, ele sempre escapará. Sim, Rilke nos apresenta o insuportável. E o insuportável é o presente no qual, apesar de tudo, devemos inventar a felicidade.

 - José Castello

O Globo.02/06/2012

sábado, 15 de março de 2014

Conversa entre livros


Ao subir até minha biblioteca, algumas vezes tenho a impressão de ouvir um discretíssimo burburinho. Um murmúrio, um ruído secreto, como restos de palavras, ditas quase em silêncio, ou mesmo em silêncio. Como se eu flagrasse meus livros, na minha ausência, mesmo fechados e imóveis, dialogando entre si. Livros que conversam com outros livros, em um diálogo secreto que arrasta o leitor, que o envolve e o alimenta. Penso nessa estranha sensação enquanto leio duas narrativas infantis de Shel Silverstein que acabam de sair pela Cosac Naify: A Parte Que Falta e A Parte Que Falta Encontra o Grande O. Penso em um terceiro livro para crianças, Quando Meu Gato Era Pequeno, de Gilles Bachelet, lançado pela Estação Liberdade, uma narrativa que dialoga com as duas primeiras.

A primeira delas, A Parte Que Falta, narra a história de um círculo a quem falta uma parte — como uma torta redonda que teve uma fatia roubada. Silverstein conta a aventura deste círculo em busca de seu complemento. Ele sai à procura da outra parte em outra parte, não em si mesmo. Enquanto rola, canta uma canção: “Oh, busco a parte que falta em mim,/ a parte que falta em mim./ Ai-ai-iô, assim eu vou,/ em busca da parte que falta em mim”.
Como lhe falta uma outra parte, ele não consegue rolar muito rápido — e assim pode conversar com uma minhoca, ou sentir o aroma de uma flor, ou ainda brincar com um besouro. Um dia, acha que encontra a parte perdida — alguém que tem o formato da fatia de torta roubada. Ela reage: “Não sou a parte que te falta. Não sou parte de ninguém. Sou parte completa”. Segue em frente e encontra outras partes, mas elas, pequenas demais, ou grande demais, nunca nele se encaixam. “Certa vez, pareceu que tinha achado a parte perfeita, mas não a segurou forte o bastante, e a perdeu”. Outra vez, segurou com força demais, e a quebrou. Nada dá certo em sua busca.

Por fim, o círculo encontra uma parte que nele encaixa com perfeição. Mas agora que está completo passa a rolar com muita rapidez e não consegue mais cheirar uma flor, não pode sequer cantar. Entendeu que a fusão absoluta é, na verdade, uma prisão. “E, com cuidado, pôs a parte no chão e rolou devagar para longe”. A história continua no segundo livro, agora na perspectiva da parte que falta, e não mais do círculo. Também ela busca um encaixe, mas nenhum dos círculos que ela encontra lhe serve. Alguns deles tinham muitas partes faltando, outros tinham partes demais e nelas sufocavam. Até que um dia achou o círculo em que enfim se encaixava. Acontece que, depois disso, a parte começou a crescer e o encaixe se tornou asfixiante. Sabe que não pode recuar, que precisa continuar a crescer. Abandona, então, o círculo que, desolado, sai cantando: “Busco a parte/ que falta em mim/ uma que não/ cresça assim...”

Até que um dia a parte carente encontra o Grande O, um círculo perfeito. “Acho que você é aquele que eu esperava”, ela diz. “Mas não falta parte alguma em mim”, ele protesta. Desiludida, volta a ficar sozinha e decide não mais procurar a parte que lhe falta. Ao contrário: resolve aprender a rolar sozinha. No início é difícil, mas ela insiste e luta, até que consegue começar a quicar. Está rolando! A parte que falta aprende que o encaixe que lhe falta é com ela mesma. Que ela própria é o seu sentido e o seu destino, e não alguém que venha de fora. Só depois disso, ela consegue, de fato, se aproximar do Grande O. Quando descobre que mesmo uma parte é uma coisa inteira. E que a verdadeira aproximação só se dá entre seres inteiros.

Os dois livros me levam à leitura de Quando Meu Gato Era Pequeno, de Gilles Bachelet. A história simples de um homem que adota um gato e os novos desafios que isso lhe traz. Esta é a história que lemos: um homem adota um gato. Mas nas ilustrações do próprio Bachelet o gato não é um gato, é um elefante. Que se aninha em sua cestinha para dormir. Que toma seu leite com voracidade. Que arranha as poltronas e passa horas a dormir. Que gosta de dormir entre as pernas de seu dono e se entristece sempre que ele sai de casa. O choque entre palavra “gato” e a imagem do elefante produz no leitor um delicioso estranhamento. Algo parece fora do lugar — algo parece incompleto, como nas histórias de Silverstein. Algo parece estar faltando. Mas não: a divergência entre a narrativa e os desenhos é uma afirmação veemente da liberdade do autor, Gilles Bachelet. Em seu livro de ficção infantil, ele pode tudo. Não precisa seguir a lógica, ou o bom senso. Não precisa ser claro, ou coerente. É assim que chega a si — como o círculo e a parte de Silverstein, que se bastaram sozinhos, e só assim puderam chegar ao outro. Aceitando a diferença. Fazendo uso do incrível poder conferido pela liberdade.

Lembro aqui de meu sobrinho Eduardo, de nove anos, que recentemente me perguntou. “Por que existem perguntas que não têm respostas?” Tentei explicar que ele estava dando o primeiro passo num terreno muito estranho, mas muito belo: a filosofia. Não sei se chegou a entender o que eu quis dizer. “Onde ficam essas respostas que não encontram suas perguntas?”, ele insistiu em perguntar. Tentei lhe dizer que as perguntas sem resposta não precisam de respostas, e que as respostas sem perguntas não precisam de perguntas também. Em outras palavras: tentei lhe mostrar que no mundo as coisas nem sempre se encaixam, grande parte das vezes divergem. E que não existe o encaixe perfeito, ou a perfeição. Assim que reencontrá-lo vou lhe dar de presente os livros de Silverstein e de Bachelet. Não que neles meu sobrinho vá encontrar as respostas que procura e não acha. Mas entenderá, tenho certeza, a beleza das perguntas. Como, mesmo sem respostas, elas nos alimentam. Como elas nos fazem bem.


Talvez venha daí o burburinho que acredito ouvir cada vez que subo à minha biblioteca. Mesmo fechados, os livros falam ao mesmo tempo. Um não espera resposta do outro — todos têm algo a dizer e isso lhes basta. Ou pelo menos deveria bastar.

José G Castello.

Gazeta do Povo. 09/03/2014 

Escrita de libertação


 
A literatura como um exercício de libertação: eis como a pratica o escritor Bernardo Kucinski, de quem a Cosac Naify lança a coletânea de contos Você Vai Voltar pra Mim, além de relançar o premiado romance K.. Sua escrita é um exorcismo dos dolorosos anos da ditadura militar originada pelo golpe de 1964. Não é, porém — como se pode temer em um primeiro instante —, uma “literatura engajada”, ou panfletária. Kucinski não escreve panfletos, mas ficção da mais alta qualidade. Nela incluída improváveis histórias pessoais, pequenos sentimentos, dores secretas e toda a miudeza atroz de aflições que definem o humano.

É uma escrita objetiva, seca, substantiva, como observamos no conto “O Garoto de Liverpool”, história de um rapaz “magro, de rosto chupado e miúdo, do qual só se viam o nariz, a boca e parte dos olhos”, que vem para o Brasil fazer uma reportagem sobre os índios da Amazônia e a construção da Transamazônica e acaba preso, confundido com um guerrilheiro. Depois da tortura, é jogado em um buraco de quatro metros onde passa longos dias de horror. Só é salvo porque aparece um oficial que morou na Inglaterra, lhe dá ouvidos e consegue, assim, entendendo sua verdadeira história, libertá-lo. A história é feita não só de grandes atos, mas também de pequenos mal-entendidos. A ação do acaso — a chegada inesperada do militar — tem, tantas vezes, a mesma força que a mais terrível barbaridade.
Kucinski nos mostra, em seus relatos, os interiores da ditadura. Não só o grande sofrimento — repressão, brutalidade, torturas, ódio — mas as pequenas dores que quase ninguém viu. É o caso do conto “A Suspeita” no qual um grupo de amigos discute, tempos depois, sua responsabilidade ou não sobre a loucura de um homem considerado, por engano, um informante da repressão. Admitem o erro, carregam agora o peso de um homem ter enlouquecido por causa deles. Mas, para se salvarem, se apegam a uma explicação racional: “É como diz o filósofo: o homem e suas circunstâncias. O sorriso era do homem, o DNA da loucura também já estava nele e as circunstâncias foram da ditadura. E ponto final”. Kucinscki não passa a mão nas cabeças, tampouco nas consciências, daqueles que tiveram a coragem de se engajar na luta clandestina contra o regime ditatorial. Reconhece sua coragem e a grandeza de seu esforço, mas os vê, antes de tudo, como homens comuns, que cometem enganos e deslizes também.

O livro traz alguns retratos preciosos como em “Um Homem Muito Alto”, a história de um bravo militante que não precisou de delatores: sua própria altura incomum o denunciou. Pernalonga, King Kong, Golias — teve muitos apelidos, até passar a ser chamado de Jamanta, codinome dado pelos serviços secretos. Escreve Kucinski: “Antes mesmo de cair prisioneiro da repressão, tornou-se prisioneiro do próprio corpo”. No fim, ao sair para comprar cigarros, é preso em um subúrbio do Rio de Janeiro. Condenado a dezessete anos de cadeia, uma das penas mais longas para casos como o dele. “Uma pena tão descomunal quanto sua altura”, resume, sem se negar uma dose de humor.

Alguns contos, como “Terapia de Família”, passam apenas nas bordas da história política. Depois da Lei da Anistia, um pai anistiado é tratado como o centro da família, enquanto o filho passa seus dias trancado no quarto, em fuga do mundo. A família — esgotada — decide submeter-se a uma terapia familiar. Surge então o ressentimento do rapaz, abatido porque a mãe só dava atenção ao pai herói. Durante os seis anos de cadeia, embora enviasse cartas para a mulher e para a filha, só lhe destinou o silêncio. As sessões de terapia em família se revezam com sessões individuais. O rapaz diz que não procura emprego porque precisa “arrumar o quarto antes”. Mas, ao terapeuta, admite: “A arrumação do quarto é uma desculpa; eu passo as vinte e quatro horas do dia pensando em maneiras de destruir meu pai”. A terapia fracassa, o impasse afetivo — efeito secreto da ditadura — derrota a família.

Outras vezes não, como constatamos na leitura de “Pais e Filhos”. Quando soube que o filho Augusto é suspeito de ter participado de um atentado, o dr. Nicolau Junqueira, médico-cirurgião, fica possesso. Depois de muito buscá-lo, encontra o filho escondido na casa de uma tia. O pai é um defensor intransigente do regime militar. Um dia, o rapaz é intimado a entrar para o comando da organização clandestina a que pertence. Prefere fugir para o Chile. Só um ano depois, através da mãe, entrega ao pai seu endereço em Santiago. Os pais viajam para visitá-lo. O encontro é tenso, parece desastroso, até que o doutor convida o rapaz para uma caminhada a dois pela cidade. O fecho do conto é especialmente forte: “Já na rua, o velho médico colocou o braço em torno do ombro do filho, e assim caminharam, lado a lado, abraçados, por muitos e muitos quarteirões”. Sem trocar uma única palavra. O afeto mais profundo e difícil, muitas vezes, não encontra palavras que a ele correspondam. Só se diz em silêncio. Sentimentos paradoxais, como a ironia, o desconcerto, o amor e o humor, Kucinski nos mostra, também fazem parte da história da ditadura militar.


O estilo intimista — embora escrito em um tenso realismo — dá o tom também, como seus leitores já sabem, do premiado romance K., que agora ressurge em nova edição. Inspirado no desaparecimento, 40 anos atrás, da irmã de Kucinski, Ana Rosa, e de seu marido Wilson, o romance guarda um forte caráter autobiográfico que, no entanto, não o encarcera no mero testemunho. Há uma recriação corajosa da história pessoal, o que reafirma a posição da literatura como lugar não só de transformação, mas de libertação. Embora sua identificação com as vítimas da ditadura seja indisfarçável, Kucinski faz, todo o tempo, um esforço (bem-sucedido) para ampliar seu olhar, colocando-os assim em seu devido tempo e circunstâncias, arrancando-os da simples mitologia política e devolvendo-os ao terreno do humano. O que pode parecer que os apequena, na verdade os engrandece. A História, mesmo a mais heroica, é feita por homens frágeis e cheios de contradições e isso só reafirma o valor de sua luta.

José Castello.
Gazeta do Povo. 23/02/2014

Poesia e alegria



Uma poesia que dança. Uma poesia que coloca o jogo divertido das palavras acima do protocolo dos significados. Uma poesia nômade, ambulante, que passeia por vários mundos. Eis a poesia de Luis Turiba, de quem leio Qtais (7 Letras). Antes de tudo, o império dos sons, como em “Ser Minério É Coisa Sério”, poema em homenagem a Minas e aos mineiros. Antes de qualquer coisa, a busca do novo: “Caminhar é pisar chão/ sem pisá-lo de antemão”. O poeta é um caminhante – é uma espécie de ambulante que avança apoiado em seu cajado. Um poeta libertário, cujo cajado (a língua?) dele também se desvia. “Meu cajado é libertário/ temos quase a mesma altura/ caminhando em paralelo/ olhando o mundo às avessas”.

Avançam os dois, “plugados à lei do impulso”, em uma grande aventura zen. Vão aos tropeções, mas deles, em vez de tirar dores, tiram lições. O poeta caminha contra a lógica: “A lógica dos lógicos já não me interessa/ (...)/ Meu tempo está no vento peso q não pesa”. Avança sem uma bússola, parece um sonâmbulo, Turiba nos faz ver. “Sou cego e calado e escrevo ensimesmado”, define-se. Ainda assim, cultiva uma intensa luz interior. Diz a si mesmo: “Não apague a luz interna e intensifique-se”. Sem direção, resta-lhe a própria força para construir seu caminho: “levo-me leve em voos sem lei/ meu fio terra é madeira de fibra/ sou andarilho”. Carrega um cajado “alado e desconfiado” e assim privilegia a leveza, os voos e os grandes saltos. “Um fariseu distraído/ afável & aviolado”.
Muitas vezes ligamos a poesia ao peso, à densidade, ao sofrimento – mas é contra essas relações difíceis que Luis Turiba escreve. É um poeta que escreve, antes de tudo, para se divertir. A poesia como brincadeira, como dança sem método e sem partitura, como improviso. Assim Turiba brinca enquanto faz poesia, e nós, seus leitores, nos deliciamos. Vai buscar seus materiais nos cantos mais remotos – como em “O Que É o Sol?”, segundo ele escrito “a partir de um poema oral búlgaro do século 5”. Verdade? Mentira? E isso importa? Interessa sim a distância que o poeta toma para desenrolar seus versos. Para erguer-se em seu tapete voador. Faz uma poesia que voa, mas que é também uma poesia andante, que rasteja, que cheira o chão e suas brechas. Seja como for, escreve uma poesia que canta. Importante definir o que faz? Não parece. “Ainda não aprendi teu nome/ Mas já sei (quase) tudo sobre”, ele diz, descortinando uma resposta.

Busca um verso “arrítmico”, aos soluços, aos impulsos. “Quisera fazer um verso/ com a sublime arritmia do amor/ um verso míssil/ neurastênico e febril/ ar do dia anterior à criação do universo”. Destino dos poetas, não só de Turiba: estar às voltas com as origens. “Um verso de trivela/ transverso e subversivo”, prossegue em seu sonho. “Um verso de fogo e batom/ histórico, histérico e erudito”. Origem (fogo) e beleza (batom) se misturam para anunciar uma estratégia que o traz de muito longe e leva para mais distante ainda. Matéria da poesia: o tempo, que nas mãos de Turiba se converte em um material maleável e perigosamente desdobrável.

Uma poesia na qual as identidades se misturam e é assim que se aproximam, como está dito: “quem manda em mim/ sou ela”. Poesia da mistura, mas também da confluência e do diálogo feliz entre as palavras. Nos versos elas encontram seu lugar de honra, encontram provavelmente seu berço. Por exemplo, quando Turiba brinca assim: “caramba/ carambolas/ sou de jambo/ não me amora”. Uma escrita contra o senso, uma escrita de contrassensos: “agnóstico/ benzo-me ao olhar o Cristo Redentor”. Exatamente como somos, seres de contradição e de desmentidos, seres instáveis, de pequenas demências, dos quais a poesia é a língua mais exemplar.

Há nela um gosto não só pelos sons, mas pela desafinação. O poeta relata: “Mas cuíca também falha/ Em plena Sapucaí/ Quebra a vara, rompe o couro/ Desarma o circo e o estilo”. A desafinação como uma nova maneira de os sons se encontrarem e se desencontrarem. Como uma outra arritmia, que perde o prumo, mas não deixa de avançar. O poeta, precavido, multiplica seus instrumentos. “Por isso, digo em sigilo:/ Tenho duas cuícas/ Florença e Nikita”. Iguais, mas diferentes – e é dessa diferença que vem a desafinação inevitável e original. “Enquanto Florença aflora/ Nikita quica/ E assim floreiam o mundo/ Desafinadas as cuícas”. Também a desarmonia tem seu valor. Também o desajuste é promotor de beleza, o poeta nos leva a ver. O mundo não é uma orquestra afinada e impecável; ao contrário, é um grande sopro de desencontros, e muita beleza sai disso.

Um poeta, portanto, que desconfia das excessivas habilidades. E que privilegia as diferenças. Por exemplo, a estranheza que ele encontra nas girafas. “ouvi dizer que elas dormem/ dez minutos a cada hora/ também pudera, natureza mátria/ com aqueles pescoços quilométricos/ (que um dia hei de beijá-los)/ um cochilo faz descansá-los”. Girafas: exceções em um mundo de exceções, e eis aí a origem da poesia. Nesses desencontros, nesses desalinhamentos. Em um poema como “Língua à Brasileira”, Turiba evoca Caetano Veloso, José Saramago, Guimarães Rosa, os irmãos Campos, tornando difícil que o leitor vislumbre uma ascendência nítida para sua poética. Poeta da mistura, Turiba louva seus vários caminhos, que volta a percorrer como um ermitão em busca do próprio nascimento.


Aprecia o indecifrável, o vago, aquilo que causa medo – tudo que os poetas de gabinete veriam como obstáculo e atrito, ele enxerga como impulso e leveza. Sabe que “dos signos, a linguagem é a mais subversiva”. Por isso não se interessa em organizar o desorganizado, ou em hierarquizar o que não tem posição fixa. Não: Turiba é um poeta em que a alegria de escrever (viver) serve de combustível primeiro. Escreve “por escrever”, e por isso é tão dono de sua escrita, ainda que ela lhe fuja a cada verso, ainda que lhe dê rasteiras e subverta sua própria palavra. As palavras se impõem, e Luis Turiba sabe ouvi-las. Vê Exu (perigo, mas energia) “até nas lesmas/ do mago Manoel de Barros”. Exu, anjo das manhas, em torno de quem o poeta se contorce para escrever.

José G Castello
Gazeta do Povo.09/02/2014

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

A precisão da febre





   
    Leio O Pelo Negro do Medo (Record), romance de Sérgio Abranches. No capítulo quinto, defronto-me com uma advertência ameaçadora de Jorge Luis Borges. “O Universo desta noite tem a vastidão do olvido e a precisão da febre”. Esqueço-me do olvido – o próprio esquecimento – e me detenho na febre. Nós a medimos com os termômetros, que dela nos fornecem um registro preciso, depois avaliado pelos médicos com grande fé. Mas a febre é uma armadilha que sinaliza, através do mesmo número, males distintos. A febre nos diz, com repulsiva precisão, que algo acontece – mas não diz o que acontece. Não lhe dá um nome. Trata-se, portanto, de uma precisão imprecisa que, se nos alerta, também nos aflige.

Não só pelos delírios que, nos estágios mais fortes, ela chega a provocar, sempre achei que a febre, pela fluidez e imprecisão, se assemelha aos fantasmas. Vinicius de Moraes – que preferia observar o lado doce das coisas – afirmava, ao contrário, apreciar as febres, porque elas nos permitem “não fazer nada”. Além disso, dizia o poeta, o calor da febre não deixa de ser uma experiência inebriante, quase sensual. Vinicius foi uma exceção, já que costumamos encarar a febre com repugnância. Ela nos diz algo – afirma em alto e bom som, grita – sem que, no entanto, o nomeie.
      
A mesma atmosfera de imprecisa precisão envolve o romance de Sérgio Abranches, sociólogo renomado que se desdobra (e, de certa forma, se desmente) como escritor. Seu romance é escrito em estilo febril. Ele nos faz avançar, passo a passo, algemados – como sombras – aos protagonistas. É, ainda, um romance limítrofe, a meio caminho entre a ficção e o ensaio. Nele, o pensamento é tão importante quanto a ação. Já na “apresentação”, Abranches nos fala de seu interesse por Guimarães Rosa e por Thomas Mann, escritores que atravessaram as vidas de seu bisavô e de seu pai. Autores de grandes livros que guardam o poder de gerar perturbadores pensamentos. Nunca duvidei disso: a literatura é uma máquina de pensar. Ainda mais poderosa – embora mais imprecisa – do que as reflexões dos “grandes pensadores”.

Além de ficcionista, Sérgio Abranches é, também, um leitor voraz. Suas leituras – de Schopenhauer, de Drummond, de Cruz e Sousa, de Hemingway – contaminam o livro. O Pelo Negro do Medo narra a visita de um casal, Lucas e Vera, à cidade histórica de Paraty. Muito pouco acontece, mas, nesse muito pouco, o medo (febre poderosa) se infiltra. O casal não visita uma cidade, visita sentimentos. Paraty não passa de um depósito de lembranças e de sensações.

Enquanto avançam pela cidade escura, entre casarões vazios e fantasmas, os dois se deixam embriagar pela atmosfera irreal que, no entanto, produz emoções e reações reais. A viagem – e a literatura é, em si, uma viagem – os envolve em um complexo feixe de pensamentos, que transformam o relato, muitas vezes, em uma meditação. Pensamentos, porém, não são portas de entrada; tampouco portas de saída. Assemelham-se, mais, a um vazamento que goteja na noite, alargando-a. Às vezes, eles a iluminam. Outras, eles a obscurecem. Não existem garantias.

São dois personagens em trânsito, que não conhecem a origem de sua aventura, e nem alimentam ilusões a respeito de seu destino. Essa condição passageira, não só dos pensamentos, mas da própria existência, imita a situação dos viajantes que, em trânsito em gares ou aeroportos, se agarram a mapas e guias, na esperança de uma rota. Situação que se expressa em uma citação de Guimarães Rosa: “Digo: o real não está na saída nem na chegada, ele se dispõe para a gente é no meio da travessia”. As longas pausas de Lucas e seus pensamentos compulsivos não iluminam seu caminho. Talvez, até, o tornem mais obscuro. Ainda assim, elas alimentam a caminhada. O pensamento é um combustível que, se queima e arde, também faz andar.

Relata Lucas: “Jamais olhar para trás. Seguimos. Seguíamos. Sempre em frente”. Assim avançam: na esperança inútil de um destino. Constata, porém, Vera: “São momentos de nosso cotidiano que só se tornam significativos depois, quando não há mais remédio”. Quando a “solução” enfim aparece, já não soluciona mais nada. Melhor se acostumar – como fazem – a um mundo silencioso, que só nos diz o que lhe interessa. Ainda antes de chegarem à cidade, cruzaram com um velho, que lhes perguntou: “Para onde vão?” “Paraty”, Lucas responde. “Não é bom”, diz o velho, sem explicar sua resposta. Reproduz-se, em sua voz, a presença do termômetro, que fornece um número inexorável sem, contudo, revelar o que ele esconde.

Também a respeito de Vera, um inquieto Lucas alimenta muitas dúvidas. Quem, afinal, ela é? Sim, é uma compositora de prestígio, “que retira música da sua própria derrota diante do desconhecido”, ele pensa. É, ainda, uma mulher tomada por “um medo ancestral” que, em Paraty, se derrama pelas ruas como uma peste. Por causa do mesmo medo, Lucas pensa sem parar. Vera, igualmente, desconhece seu companheiro: “De Lucas sei bem ou quase nada. (...) Lucas nunca foi um”. Não existe um anzol que fisgue uma pessoa. Cogita o narrador: “Vera e Lucas se encontraram (...) para encontrar a resposta definitiva a uma pergunta que não conheciam”. O problema não está na resposta – a que, de fato, nunca chegamos –, mas na pergunta. É da pergunta não formulada que o medo, como uma sombra, escorre.

Versos preciosos surgem para ajudar o narrador: “Mas a poesia desse momento inunda minha vida inteira” (Drummond). Poesia – beleza obscura – que se manifesta na figura de um cão negro, sempre a cruzar o caminho dos dois. Cães passarão por eles, em sucessivas ondas, como fantasmas. Pobres cães, a vadiar pelas ruas de Paraty, sem destino eles também, sem nada desejar. Animais comuns, que Vera e Lucas logo investem do papel de perseguidores. “Somos nós que estamos criando essa perseguição”, Lucas a adverte. Não adianta. Perseguidos por pensamentos que não dominam, eles não fazem apenas uma visita a Paraty. Visitam, ao mesmo tempo, uma antiga cidade interior, construída de velhos temores e assombrada por sentimentos a que não correspondem nome algum.


 José Castello
fonte . Gazeta do Povo