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sexta-feira, 18 de agosto de 2017

fotograma


o cais conta as gotas do oceano
e as impossibilita
som estéreo no fim do dia
o humor emancipou-se
na derrapagem da curva fria
a operação algébrica zerou
a quilometragem das ruas
feito gatos perambulando
onde a seda sabe mais
o antônimo de mãos dadas
não cabe numa foto
e transborda todo copo
Sergio Villa Matta




domingo, 16 de julho de 2017

domingo


meio triste meio alegre o domingo segue como todos os domingos:
um certo gosto de sei lá
um certo fastio de tudo
uma mansidão até infame
o sol e o céu azul e a preguiça
e a preguiça meu deus,
ai q preguiça
( ia dizer tédio mas não é tédio, nem esse salamaleque de spleen)
e talvez nem seja preguiça: é apenas a tarde de domingo
esse sentimento sei lá de q: mornidão.


 Sérgio Villa Matta




sábado, 17 de junho de 2017

panfleto e dispersão onírica
no me gusta la realidade e
mucho menos suas entranhas
pertenezco ao país dos sonhos e não
das maravilhas
sou letra e fogo
seta e sendero
sou um caminho perdido num labirinto deserto
sou a última forma lírica estendida como roupa
no varal
sou o sol q desce e aperta a mão a mulher q canta uma
ária matutina
sou o mendigo na calçada e seu cão
apenas o cão sentado em delírio febril
sonhando películas de buñuel
um olho e uma mão
o girassol no bolso de van gogh
uma orelhão perdido num bar sem sentido
as horas aportando no caos
telefones fechando-se mutuamente
e uma palavra
uma palavra incendiária feito uma nuvem e seus cabelos:
sou um sonho q sonha-se a si mesmo
na vertigem do dia

 Sérgio Villa Matta

não me interessa
a poesia não me interessa
quero ir ao seu enterro e cuspir na sua cara ordinária
de vil zombeteira das ações humanas
sou uma lança
uma valsa
um soco inglês
um menino malcriado quebrando janelas
um fuzilamento na praça central
a poesia q se exploda
q se foda
q morda o próprio rabo
motor rangendo os dentes aos semáforos
sou turbilhão e fúria
punhal e sangue
sou apenas um homem maltrapilho
q caminha pela estrada
sem q haja nenhuma estrada
sou apenas a lágrima e o sim
o amor e o perdão
a poesia é tudo o q não fui
não pude ser
sou apenas um sujeito desinteressante num sábado à tarde
como sempre fui
e leio poemas q me fazem soluçar
q me estraçalham e me fazem chorar
e grito e mordo meus próprios braços
e voo e voo livremente feito um pássaro
um cavalo ou uma zebra


 Sérgio Villa Matta

sexta-feira, 21 de abril de 2017

previsão de mim

Sérgio Villa Matta



não alegre, nem triste: nublado
chove a cântaros a oeste de minha alma
mas, molho o rosto e escorro-me como
um passarinho de asas azuis e pequenas fagulhas incandescentes.
o dia é nítido como uma borrasca austral
e o silêncio é névoa benfazeja do relógio tic tac

da sala interior de mim.

domingo, 9 de abril de 2017



lado esquerdo
o lado esquerdo absorve os últimos goles
e cai no meio da sala
no meio da festa
no meio da multidão
cai o lado esquerdo
sozinho
tão sozinho

q ninguém o vê

Sérgio Villa Matta

tempo



o tempo insiste em passar
e a cada hora envelhecemos mais e mais aqui sentados
sobre nossas bem comportadas opiniões de jardim de infância
sobre nossas vidas vazias e sem sentido
sobre a solidão de meninos q perderam-se da manada
somos como esses bonecos infláveis de postos de gasolina
levados pela corrente dos ventos pela rotina dos dias q se perdem
vazios e gastos e sem sentido e levam junto
consigo o tempo q teimamos em não perceber passar
enquanto morremos sem saber q tínhamos q viver


 Sérgio Villa Matta






meu coração é tua usina de degredos
escorre o chorume de tuas lágrimas
me diz
agora a sério
Sério
o q vc sentiu dessa experiência q fizemos
Estou enojada de mim
q te propus agora
Saia de perto de mim
das coisas q te pedi
Somos nocivos um a outro
isso q vc tá sentindo agora
é a poesia
a literatura em si mesma
é com esses sentimentos
q se faz boa poesia
isso é sublime
os anjos vibram com nós
Suas lágrimas de lama
isso é um texto
sim, a lama
o caos, a queda
Minhas lágrimas de chorume
isso é lindo, né
c percebe
é poesia!
poesia pura!
Foda-se a poesia
as pessoas não sabem q poesia é pra doer
Foda-se
é pra fuder a gente
nós sabemos
nesse instante eu sei
e vc tbm sabe
isso é a beleza
lembra da frase do Rimbaud?
Eu me sinto uma mulher conivente com assassinatos
um dia sentei a beleza no meu colo e a achei amarga....
Uma Perséfone cúmplice de Hades
as flores do mal
o absinto da escória
e a escória somos nós!
eu e vc!
o par iluminado de lúcifer!
Sim. Agora me deixe
ave amém
evoé
Estou enojada de mim
Enojada
a noite tá iluminada e dançamos
Boa noite
eu estou feliz
radiante
Sai de perto de mim
como Piva
Por favor
Sai de perto de mim
sentiu a beleza disso tudo?
isso é a poesia!
Sou um animal
isso é deus!
o pau de deus a cara sangrenta do destino!
somos vc e eu a luz
a pura luz !
a beleza!
quero fazer um poema
Sai de perto de mim, sou uma puta que da o cu na calçada e chupa a pica de qualquer um
e vou fazer um poema
Sai de perto de mim
sobre isso
vou fazer um poema
pra provar q sou divino!
meu nome:
JSC
JSC
percebes?
eu mesmo
filho de José e Maria
José o pintor de pareder
e Maria a empregada doméstia
eu sou JSC
e a hora é agora
um tiro apenas
e acaricio o revólver
q engulo
agora mesmo
neste instante
na minha boca
o revólver
o cano dele
na minha boca
tem gosto de aço
e um instante apenas
e tudo é agora
é a beleza plena
isso é o instante sagrado
em q disparo
a bala
aperto o gatilho
e 1,
2....

3.....

Sérgio Villa Matta

sexta-feira, 7 de abril de 2017

tempo



o tempo insiste em passar
e a cada hora envelhecemos mais e mais aqui sentados
sobre nossas bem comportadas opiniões de jardim de infância
sobre nossas vidas vazias e sem sentido
sobre a solidão de meninos q perderam-se da manada
somos como esses bonecos infláveis de postos de gasolina
levados pela corrente dos ventos pela rotina dos dias q se perdem
vazios e gastos e sem sentido e levam junto
consigo o tempo q teimamos em não perceber passar
enquanto morremos sem saber q tínhamos q viver


 Sérgio Villa Matta




quinta-feira, 2 de março de 2017

Resquícios

os corpos
afogados do amor
o mar um coração de veludo
azul
tua pele envolve outros poemas
como a maçã sobre a mesa
pensando na construção de um teorema

elétrico

Sérgio Villa Matta

Dança

a dança uma artimanha do corpo:
o balé
o tato
o contato
o corpo do copo
dissolvendo-se
aéreo no espaço
a valsa
o negro o branco
beijo
escondido
a música
a música
o silêncio
o infinito
rugindo
rugindo
estrelas acesas

em mim

Sérgio Villa Matta

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

 Apenas o fim
há os q não riem
os q choram
os q fazem drama
os q compartilham a dor
os q veem filmes sozinhos na sala escura
os q bebem até cair
os q conversam com cães e gatos
os q matam
os q se matam
os q não se importam
os q ignoram
os q escrevem
os q leem
os q comem em demasia
há por fim os plenamente feridos
do fim

Sérgio Villa Matta 

sábado, 28 de janeiro de 2017

Há um cão raivoso na porta do boteco
ele quase nada fala e pouco sorri
rosna seu osso aos nossos ossos metafísicos
e bebe pouca cerveja como pablo picasso
ele não conversa com ninguém
e dá tacadas magistrais na mesa de sinuca
e sabe mais sobre a vida do q os bebedores deste boteco
este cão raivoso cérbero extraviado na calçada
não vende fiado e do pouco q fala nos ensina
q o silêncio é quase um nirvana embriagado

Sérgio Villa Matta

quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

Estudo do método


I
escrever é suar o verbo
II
todo poema é uma inspiração q transpira
III
ler e reler: reler e reler: escrever
IV
não há receitas: isto não é um bolo
V
labuta: lavrar os campos da palavra
VI
todo escritor é antes de tudo um leitor. o vice-versa não é verdadeiro
VII
alimentar-se de dicionários e experiências reais ou imaginárias
VIII
a tradição existe para ser traída. mas, antes deve-se conhecê-la
IX
botar palavras numa linha e ver se está bom
X

o leitor sempre entende o q ele quer entender

Sérgio Villa Matta

Silêncios

horas verdes assentam-se sobre o trapézio
girafas circulares discorrem sobre foucault
olhares triangulares se desdizem
como beija flores cinzentos
uma música abandonada ressoa
magneticamente em dias
lúcidos e abissais.
IX0999
ao redor tudo é silêncio. trovões. ouço agora trovões. é como um
êxtase em sentido cego. esgarçam-se como gaivotas afogadas.
antes:
jogo xadrez no caos dentro de um quadro de di chirico.
beijos geométricos se
desfazem como as areias vermelhas.
o movimento é um diálogo oblíquo.
MMXXII
o telefone está tocando. está tocando
desesperadamente há três dias.
o som vem de dentro de uma maçã sonâmbula.
(Silêncio escuro)
agora:
as palavras criam confusões.
a neutralidade do silêncio.
a verdade do silêncio.

(tudo é turvo. e nunca mais)

Sérgio Villa Matta

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

Comendo um pastel de carne numa feira livre de domingo
e se tudo falhar vc poderia ir vender
bananas na feira
mas quem tem paciência de ir a feira e comprar bananas
todo mundo sabe q as pessoas andam pela feira sobretudo em busca de pastéis
o pastel é o grande queridinho de toda e qualquer feira livre
por mais q hajam legumes e hortaliças
e quem sabe até possíveis e inumeráveis bugigangas eletrônicas
o pastel é o rei da feira
e vc q apenas escreve poemas e lê alguns outros tbm
não poderia competir com isso
e tampouco fazer os seus incontáveis poemas tão bons e saborosos
como um pastel de carne junto a um caldo de garapa
num feira livre de domingo.

Sérgio Villa Matta


Como quem escreve um último verso sobre a mesa de bilhar dentro de um bar lotado
bebendo mais um gole da sétima cerveja
vc cumprimenta os jogadores de bilhar do mesmo modo q
pessoa saúda whitman num dos seus poemas
vc sabe q cervejas são boas companheiras
e vc fica com o seu copo levantado no ar esperando a tacada final
como se esperasse a definição de um verso q te habita
mas q pelo efeito do álcool ainda não se definiu completamente
e aguarda como vc a sublime tacada final onde a bola 7 deslizará
limpamente pelo carpete verde da mesa de bilhar e diante de olhares incrédulos encontrará a caçapa do fundo
e então todos irão rir e dizer alguns bons palavrões
ao hábil jogador q definiu com maestria esta tacada final
e vc deixará seu copo suspenso no ar até q num átimo
o levará de encontro a boca e beberá triunfalmente o gole final

desta cerveja como quem escreve um último verso sobre uma mesa de bilhar dentro de um bar lotado.

Sérgio Villa Matta

domingo, 8 de janeiro de 2017

Sérgio Villa Matta

Só é bom se sangrar
como carne no açougue
ele me disse isso:
só é bom se sangrar.
literatura só é boa se sangrar, entende.
o troço tem que doer.
tem q te fazer chegar até as vísceras
tem q te fazer estragos no corpo
tem q te dar cicatrizes.
eu praticava isso todos os dias
um mantra recitado ao avesso
uma tatuagem em brasa.
socos e pontapés regados a vodca
e vômitos ao ar livre.
escrever é colocar a dor na ponta da palavra
é perfurar a pele com a tesoura.
só é bom se sangrar, lembre-se disso
ele me disse
mais ou menos como comer carne crua
e ainda viva.
deve-se comer a alma com farofa, meu amor
toda palavra é um tapa, um soco, uma porrada.





sábado, 7 de janeiro de 2017


Poema verdade
Isto não é a realidade.
e nem um poema
me disse a dona verdade e riu.

excomungada!

Sérgio Villa Matta

sábado, 24 de dezembro de 2016

Sérgio Villa Matta

Para um menino
jesus é um cara legal e merece uma boa festa
nós é q corrompemos isso tudo.
ele andava por aí arregimentando uns pescadores
e dizendo coisas insanas aos humanos tipo:
"amai uns aos outros"
e transformava água em vinho pra festar continuar
não parem a festa! ele dizia
e multiplicava os peixes
e caminhava sobre as águas
e conversava de boa com todo mundo
e tinha ódio a golpistas e aos donos do mundo
jesus é mesmo um cara legal
em sua profunda humanidade
verbo encarnado: menino