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terça-feira, 17 de março de 2020

POESIA VERSUS PROSA


 by Marcelo Sandmann
para Cristovão Tezza

Um bom poema é feito
tiro de misericórdia.

O poeta não tortura seu leitor
como faz o prosador,
linhas
e dias a fio.

É pá-buf!

O corpo caído:
o pingo na testa.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

ASPIRADOR DE PÓ


para Luciana Martins
Hoje resolvi
fazer a faxina da casa.
Não por falta de asseio
(nem por falta de assunto),
que a moça que pagamos para isso
é mestra
em seu ofício.
Não sou propriamente um sedentário,
mas arrastar a
cama, le-
vantar o colchão e
insinuar
o
cano do aspirador em
cada canti-
nho
não é para diletantes.
Tampouco esfregar a calçada
cujas lajotas,
imprudentemente brancas,
insistem em ficar sujas.
(Na rua principal aqui do bairro,
as duas padarias fecharam
e, no lugar,
surgiram uma franquia de telefonia celular
e a terceira farmácia,
ou drugstore,
para ser conceitualmente preciso.)
Você vai me perguntar
o que é que a estrofe acima
tem a ver
com tudo isso.
E eu vou dizer que não sei.
Não é fácil deixar o poema
bem limpinho.

 Marcelo Sandmann

A fio, 7Letras, 2014 (Lançado em Curitiba ontem, na livraria Cultura.)

sexta-feira, 14 de março de 2014

11 Croquis p/ Gesto & Desejo



1.

Se a mão esboça
a curva de um anca,

o tempo em dispersão
subitamente estanca

e o espaço precipita-se
constrito e necessário.


Marcelo Sandmann
Fragmento inicial de "11 Croquis p/ Gesto & Desejo", lá do meu "Criptógrafo Amador":

domingo, 2 de março de 2014

POESIA VERSUS PROSA



para Cristovão Tezza

Um bom poema é feito
tiro de misericórdia.

O poeta não tortura seu leitor
como faz o prosador,
linhas
e dias a fio.

É pá-buf!

O corpo caído:

o pingo na testa.

Marcelo Sandmann

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

SADOMASOQUISMO À LA CARTE



Beijarei teus lábios
com requintes de crueldade.
Afagarei tua pele macia
com todo o ódio que há no mundo.
Pousarei minhas coxas sobre as tuas
como um edifício que desabasse.

Mas, se preferires:

Morderei teus lábios
com extrema delicadeza.
Rasgarei tua pele macia
com a ternura que não há no mundo.
Pisarei em tuas coxas
como um santo que levitasse.

* Marcelo Sandmann

domingo, 26 de janeiro de 2014


"O verso morreu."
Mas quem foi mesmo o poeta-médico-crítico-legista que assinou tal atestado de óbito?
Processá-lo-emos.

Má fé? Falso testemunho? Vai lá saber!!!

Marcelo Sandmann

domingo, 5 de janeiro de 2014

ALELUIA, IRMÃOS! ALELUIA!


(SILÊNCIO, QUE O POETA TRABALHA)

Estou criando um segundo queixo.
(É foda envelhecer!)
Sobre a mesa,
uma resma de papéis.
Mordo outra vez a gengiva.
O café
dormita na térmica.
Aponto o lápis a estilete.
É claro que a ponta
quebra.
Levanto a camisa,
afago a barriga.
Cutuco o umbigo
com a ponta cega:
“Mundo mundo vasto mundo,
se eu me chamasse Cunigundo...”
Enfio o nariz debaixo
do braço: “É no débito
ou no crédito?”
A propósito, tem um gambá
morando aqui no teto. (É sério!)
Ele raspa o forro com a pata,
eu coço, solidário,
o cotovelo.
Alguém, na casa ao lado,
se esgoela:
“Aleluia, irmãos!
Aleluia!"

* Marcelo Sandmann

sábado, 28 de dezembro de 2013

GORDURA LOCALIZADA

Da "Lira dos Cinquenta e Um Aninhos":

GORDURA LOCALIZADA

Enfim, o sobrepeso!

Receitou-me a dieta da lua
e uns abomináveis
abdominais.

(À lua,
sei uivar como um lobo.)

O heroísmo nosso de cada dia:
sonhar horizontes
numa
esteira rolante.

“Meus avós rasgaram
mouros,
cruzaram mares...”

Mas você corre, Marcelo!
(Marcelo,
para onde?)

Marcelo Sandmann

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Marcelo Sandmann

Sugiro que metamorfoseemos expressões cristalizadas em outras, como exercício de descristalização: por exemplo, ao invés de "colcha de retalhos", "concha de recados".

sábado, 26 de outubro de 2013

PRESTIDIGITAÇÕES (I)



Nada nesta mão,
nada nesta outra.

Agora um gesto rápido
(movimento insidioso do braço).

E extraio, entre os dedos,
do espaço abstrato,

um pássaro, que se desata,
ascende e se desbarata:

magnífica elisão
de todo este cenário!

("Criptógrafo Amador" -

Curitiba: Medusa, 2006)
Marcelo Sandmann

PRESTIDIGITAÇÕES (III)



Partamos do pressuposto
de que as plumas que caem
sobre o tablado
(lâminas luminosas
de silêncio concentrado)
são os fragmentos impossíveis
de uma metáfora irrecusável.

Partamos do pressuposto
de que um novo gesto lépido e enigmático
(costura musical
invisível no espaço)
logrará remendá-la,
propondo de novo o pássaro,
posto que agora empalhado.

Partamos do pressuposto.

("Criptógrafo Amador -

Curitiba: Medusa, 2006)

Marcelo Sandmann

sábado, 8 de junho de 2013

SÁ-CARNEIRO AO MOLHO PARDO



Quando eu morrer, soltem as feras
Por entre as praças apinhadas:
Onças, leões, lobas danadas,
Ogros, dragões, e as mais quimeras.

Rojem os anjos pelos becos,
Atem seus pés a para-choques
E brindem, com sangue 'on the rocks',
Às bruxas soltas, de olhos secos.

Cedam assento aos extremistas
Nos gabinetes, nos comícios.
Que jatos varram edifícios,
E o sol se vá de nossas vistas.

Quando eu morrer, puxem a rolha
Que veda o ralo do universo.
Escoem tudo. E no reverso,
Pintem um Deus novinho em folha.

(Marcelo Sandmann, de "Na Franja dos Dias")


sábado, 5 de janeiro de 2013

sábado, 6 de agosto de 2011

3 Postais

ali

naquele trecho da calçada
agora à noite
alguns se deitam, cobrem-se
com sacos de estopa

e dissimulam
piras
funerárias.

Marcelo Sandmann

Poética Negativa

Não quero a palavra enrijecida :
pedra circunspecta
impermeável a vida .

Não quero a palavra mutilada ;
autópsia incisiva ,
vísceras reviradas.

Não quero a palavra intransponível:
ponte que pende
no vão do invisível

Não quero a palavra imaculada:
área rarefeita
avesso a ser contada.

Marcelo Sandmann
Lírico Renitente

terça-feira, 2 de agosto de 2011

Aurea mediocritas. 2

Deve haver um ponto médio
onde o fazer de quem escreve

não custe a dor de quem o lê

(Mas se for dor
o que ele escreve,
que nossa dor haja prazer. )

Marcelo Sandmann
Na palma da mão,
nenhuma escrita
de caligrafia elíptica.

Na palma da mão,
nenhum resquício
de mistério e sacrifício.

Na palma da mão,
somente as certezas da pele: nada
na palma da mão.

Marcelo Sandmann

sábado, 13 de novembro de 2010

Voltar a cantar

voltar a cantar o que é claro
com um verso muito claro.

Voltar a falar do que é simples
como quem se sabe simples.

Voltar a rimar a palavra
consoante outra palavra.

Voltar a medir uma estima
com o metro de outra estima.

Voltar a dizer com a boca
o que quer a tua boca.

Voltar a saber de ouvido
o que soa em todo ouvido.

Voltar a sentir o de sempre
porque nada é para sempre.

Voltar a viver o que vive
porque belo é quanto vive.

marcelo Sandmann

Quem entrega o corpo

Quem entrega o corpo à sorte
sabe sorver a inquietude,
sabe que nada é muito forte,
favo de vício ou virtude.

Quem entrega o corpo à arte
sabe o sabor de um martírio,
sabe que a alma nunca parte,
sempre aqui o seu retiro.

Quem entrega o corpo à vida
sabe beber da beleza,
sabe a reza comovida
nun rosário de incerteza.

Quem entrega o corpo à morte
sabe seguir o seu signo,
sabe que nada impede o corte,
último único desígnio.

Marcelo Sandmann