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segunda-feira, 4 de fevereiro de 2019

Apartheid das boas intenções


Que ideia infeliz esta
de dar cor à transparência
da lágrima

por falar em fábulas
o ovo quando é posto
dói a todas as avestruzes
mas não é por isso
que empavesam penas à cabeça
até porque
como poderiam dessa forma
reagir perante o perigo

ou por outra
se é realmente a liberdade
que almejam então que
escrevam para a Helen Keller
depois de usarem a catana
para lhe cortarem as falanges
em vez de se virarem
contra quem despojado
chama o coração à vida
perdendo tempo a rasgar um céu
onde todo o animal tem entrada

Marina Tadeu

domingo, 1 de janeiro de 2017

Cristalina


lembro como eras em português
breve adiada e de renúncia
imersa no Silêncio do teu sopro
num espaço claro onde o ar
imóvel aguarda
pelo anjo estrangulador


 Marina Tadeu


sábado, 15 de agosto de 2015

O esfolado e a tecedeiramari

Marina Tadeu

o esfolado a pingar
despistava os mais berrantes exibicionistas
cantando ópera correndo
fazendo da estrada
a cauda do seu sangue
perseguido pela matilha
queria por casacos no prego
mas onde estava era onde ia
tinha sentido as costas da mão
de Deus à nascença a abrir-lhe
um parêntesis para o corpo
que não fechou e a pele caiu
desde então de nervos desenfreados
à flor da carne que lhe sobra o pânico
da fome naqueles olhos
que abusando de seu próprio sono iluminam
como se lhe quisessem fazer mal
mas não fulminam
devoram apenas
e depois arrojam-nos para fora como um osso
insaciável aqui já
presente no meu casco
onde a casca de dão grossa
encarquilha imobilizada o barco
(nos despojos lassos da Marina, pudera)
ei-lo na alba encarniçado
resgatando do meu leito a pele
a arder tal como era
o esfolado no meu viço
remexendo entre agulhas
e uma palha com a ponta de seu punhal
encontra fanado meu fanado
e talvez sem dar por isso
transborda na borda do meu bordado
dá-se à estampa desobrigado
deixando-me presa ao fio
do tear de Clonos
enredando nada

a não ser o frio

domingo, 22 de fevereiro de 2015

Marina Tadeu



Mais um dia ganho. Dei hoje com a palavra palonço.
Queridos vóis únicos juntos com piada
xerôdios, desmiolados,
palonços, burgessos, saloios
e deseducados grossos extraviados
do clube subtil & alturas ao tom ingénuo
pretensioso pedinte pedante piroso
de linhagem a pedir endireita
e um grama de coragem que se gramem
queridos úncios com piada em Portugal
que tratam o escuro por tu & Deus minúsculo
trovejando baixezas senhorias
até por causa da reverbe
fedendo vossas bocas desnaturadas
a peixes por torpedeiro fendidos
queridos mastronços a meio mastro
de neurose a render pouco quero saber
que velhinha cria osso em vossas carnes inchadas
de gratuita petulância em delírio normal
como a loicura
mas muito concentradinhos no vinagre
quando se trata de farfalhar
contra quem cala e vive
essa coisa do círculo
fino até que grosso enfarta
anda muito à volta
reboleira ao chispe
mas não atonta
aliás já nem se nota

apareceu a conta

sábado, 20 de setembro de 2014

Parasitiana

Marina Tadeu

Não sei conjugar
mas suspeito
que no princípio era depois
de tempo o corpúsculo
derivado de uma incerteza
parecida com um homúnculo
tão apaixonada pelo dizer
(falava uma infinitude de línguas em múltiplos de sete)
que se esqueceu de ganhar músculo
de fomer, coder, tocar trompete
ou até braguesa
tendo-se extinguido na resina
de um âmbar de gelatina

que lhe sugava a impureza.