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quarta-feira, 28 de maio de 2014

espalho o delírio de ouro até que nada respire
suspensa na pequena morte
no ato imaginário do que não se realiza, você
debaixo do olho, um homem inflama a retina
a esfinge pergunta: “o beijo bifurca a língua da serpente?”
na ponta dos pés atravesso o deserto no enquanto sonho

(Célia Musilli)

sábado, 30 de novembro de 2013

Coração de mulher é sobrevivente de guerra. Enfrenta o perigo e esgarça como tecido fino, não é à prova de nada, derrete, mas deflagra sempre uma bandeira de paz.
Como não vivo sem paixão, a fada dos mosaicos ensinou-me a colar caquinhos. Assim, trago no peito uma obra de arte ou, em outras palavras, um coração vermelho, maduro, cheio de lembranças, climas, paisagens, cortes, suturas, quinas, saudades e que permanece quase, quase inteiro.


(Célia Musilli, fragmento de "Fala Coração" in Todas as Mulheres em Mim/ 2010)

sábado, 16 de março de 2013

MANHÃ





Deixar a casca do sono onde estive recolhida. Mundos internos, o escuro se desfaz num meteoro breve.

À direita, um sol dourado como um poema do Oriente, templo budista, toque de mestre, a conversão dos alquimistas. À esquerda, a estrela da manhã, aquela que finge que chega, mas desaparece.

Neste dia sob os auspícios de Vênus em oposição à Marte, há chances de guerra fria entre as mulheres e o deus que luta, até ferir de morte, o verbo rasgado em tiras retilíneas.

Eu, que sou desmedida como as coisas do absurdo, descumpro as regras da batalha dos planetas. Meus impulsos são irregulares, os humores disformes. Ainda me deslumbro com o lótus, a tranquilidade me toma por pura compaixão.

No Ocidente, Vênus fura o céu e se deita com Marte sem palavras. No horizonte, guerrilhas explodem como o sexo, cuja fúria é fluido.

Vivo sob o signo da paz e do escândalo.

Silêncio é sândalo.

(Célia Musilli)

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

ON THE ROAD





Recomeçar é bom .
Ando com vontade de sacudir a poeira das experiências adquiridas e ganhar territórios novos. Esse desprendimento demanda liberdade, uma senhora regida pelo desapego. Então, corto os laços de cetim e também as cordas. Quero seguir o fluxo da vida como um rio. Soltando a âncora porque chegou a hora, deixando velhos portos onde guardo realizações como troféus da existência. Sempre há caminhos novos. As mudanças vêm bater na minha praia. Devo aproveitar seu balanço para me lançar ao mar. Navegar é preciso. E navegar é uma batalha interior que depende de vontade própria. Exige vencer os desafios dos sete mares: o mar do comodismo, do apego, da resistência a mudanças, do equívoco da segurança, do fantasma das perdas, do rompimento dos padrões, do medo do desconhecido. Na minha bagagem acumulei um excesso de responsabilidades que não me pertencem. Estou querendo viajar por minha conta e risco. Até o fim da estrada com direito a paradas prazerosas para contar estrelas e contar histórias. Não quero deixar o melhor de mim para amanhã.

( Célia Musilli, In Todas as Mulheres em Mim, 2010)

O texto é o silêncio



Se soubessem o quanto gosto das palavras, das sílabas, dos murmúrios. Se soubessem o quanto gosto de ter pensamentos. Minha melhor amiga, eu mesma. Minha pior inimiga, eu mesma.
O pensamento me leva a muitas frações do ser, transito da dor à delícia com facilidade. Quando me resta o silêncio, dedico-me a contar estrelas e esta vastidão de mundo faz com que meus pensamentos se abram como paraquedas. Salto onde bem entendo e vou criando minha aventura. Intimamente, sou uma mulher “on the road.”

Célia Musilli

(fragmento de "O texto é o silêncio"/ Todas as Mulheres em Mim/ Kan Editora/Atrito Art Editorial/ 2010)

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

FLAGRANTES





Gosto de sentir a felicidade máxima em tempo mínimo. Gosto de sentir o vento quando atravesso a rua e minha saia se levanta como se eu tivesse asas. Bailarina do acaso, danço na calçada, num pequeno espaço, num quadrilátero, ouvindo a música do vento.

Gosto de sentir o perfume das árvores, onde flores se penduram, como estrelas brancas. Outro dia, uma folha caiu no meu decote, andei assim maravilhada com aquele presente, a dádiva, o broche, andei como uma Eva vespertina, cruzei a cidade com a minha fantasia.

Gosto da companhia do acaso e de pensar que os tempos não se repetem, os momentos não se repetem, a vida não se repete porque sua dinâmica é mágica, acontece até mesmo em segundos e, no entanto, a memória existe pela eternidade, subvertendo o início e o fim.

Gosto de me despir das folhas e comer os frutos no tempo em que são me dados. Banquetes instantâneos em que flagro a felicidade num átimo, num lapso, num voo com os deuses inconstantes e, assim, de dentro para fora, me encho de fé.

(Célia Musilli em Todas as Mulheres em Mim/ Editora Kan e Atrito Art/2010)