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segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

é delicado
não perguntar as horas
a um morto
é delicado
deixar as pedras
em paz
é delicado
olhar por dentro das palavras
antes de dizer o que elas dizem
é delicado
dar passagem às flores
e não perguntar aonde vão
e deixar a amizade do amor
decantar no fundo do corpo
por longos e demorados anos
é delicado escutar o tempo
e plantar lá dentro
no vazio do vento
o signo o selo o cisco
da delicadeza
e do silêncio

*

Carlos Moreira

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

era luz
na cidade
inteira
anoiteceu
mais cedo

em mim

Carlos Moreira

sábado, 28 de novembro de 2015

a resistência ao fácil:
a densidade do breve:
um dos raios de shiva
caiu de sua mão
não a velha ilusão
de ordenar o caos: não
a ditadura do sentido:
tudo é forma: e flui
essa luz antecipada
nada vê mas inventa:
o pássaro calcula
casa ar pedra semente
o estranho dom
de ampliar o vivido
nas dobras do tempo:
não caber no limite
(do barco na garrafa
alguém livre navega

além do vidro)
Carlos Moreira

segunda-feira, 28 de setembro de 2015


não há palavra dentro:
só a palavra dentro
tenta dizer-se inutilmente
um pouco além da pele
não há verbo que transcenda
ou que espere no princípio
alçar nem que seja sílaba
fora de seu círculo
de fora a fora: só assim
a palavra dentro se comprime
no espaço entre ser e ser
mesmo que ausente
só assim a palavra-ato
se conforma e se confirma:
nem dentro nem palavra:
só o fora onde tudo é líquido

Carlos Moreira

quarta-feira, 9 de setembro de 2015

o poema

Carlos Moreira

o poema
não tem
placa solar

é de escuro
muitas vezes
suas águas

ave noturna
meio treva
meio palavra

coisa rude
inesperada
bárbara

nem pé
nem cabeça
nem máquina

todo poema é sujo
e jorra (placenta)
do nada


*

terça-feira, 28 de julho de 2015

respiro a teu lado no elevador
enquanto tento disfarçar o fato
de que não passo de um minotauro
entre teu perfume e a gravidade
só parte do que sou é que respira
movente imóvel neste ar quadrado:
meu outro lado só espreita a presa
enquanto se prepara para o salto
que não virá: nós dois estamos presos
nesta armadilha vertical e burra
(não este elevador mas a cultura)
antifontana de qualquer desejo
a porta abre em teu andar agora

e para sempre eu nunca mais te vejo

Carlos Moreira

num tabuleiro tosco nascemos
mas é possível quebrar a fera
cuspir na cara da megera
tocar terror e fogo neste fosso
dizer ao júri: já era a tua hera
a tua fome de não ser
a tua espera virou verme
cancro carma quimera
já estamos em outro ponto
na estrela de outra esfera:
peças num tabuleiro uma merda
eis o cavalo comendo a rainha
enquanto o rei mata o bispo
e reza
*

Carlos Moreira


domingo, 26 de julho de 2015

 ·
entre nós
há deus e essa
pequena rata
na cozinha
que ataca os pães
o resto é mágoa
sem amor, amor
tudo seria mais
simples
talvez um resto
de festa
talvez nada

*

Carlos Moreira

sexta-feira, 3 de julho de 2015


acaso eu me fizer estorvo
em emaús, a estrada segue.
acaso caia a casa sobre nós
e toda a aldeia se incendeie
a estrada segue. acaso
a própria estrada vire nada
pó de poeira passada: segue.
é nosso este futuro, esta asa

nesta pedra: voa, febre.

Carlos Moreira

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

Carlos Moreira

movo-me
cautelosamente
em agosto
estou na jaula
dos tigres
do lado de fora
as virgens
do apocalipse
as orquestras
do caos
o esplendor
nos olhos
de um cego
em agosto
não há espaço
para erros
em setembro
talvez
por enquanto
movo-me
cautelosamente
na jaula
dos tigres

*

domingo, 22 de junho de 2014


sou mal
você sabe:
te fiz sangrar
disse coisas
obscenas e absurdas
pra queimar a tua pele
não alimento lobos
por pura falta deles
e sei que
homens e mulheres
somos débeis
todos



Carlos Moreira

tenho dedos apontados
em todas as direções
no espelho frutificam
meus pecados
sou um homem só
e triste como deve ser
um homem
chegarei longe
na estrada de mim mesmo
mas a que distância
estarei da tua fronteira



.Carlos Moreira

sexta-feira, 6 de junho de 2014

Carlos Moreira

o tempo não merece
um único verso
e amar não é urgente
pronto: passou
a vida inteira
de uma vez
e teus olhos cegos
não mudaram de cor
há mortos no porão
mas você mora
em edifício
não restará nem fóssil
do teu princípio
de melancolia e tédio
o tempo
esse canalha
não merece um verso


sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014


o rio vazou
durante a madrugada

entre ele e eu
agora tudo é água

sua asa cinza
contra minha palavra

são dois cadáveres
ao pé da escada

Carlos Moreira

sábado, 11 de janeiro de 2014

domingo, 8 de dezembro de 2013

você
era de vidro
e sopro

eu
bruta pedra
primitiva

fomos feitos
pelo avesso
um pro outro

eu, a morte
você: vida


Carlos Moreira

segunda-feira, 25 de março de 2013




tenho
contra você
o meu amor

neste ponto
do infinito

as vírgulas
que engulo
em largos goles

a cicatriz
de algumas
noites ácidas

as afiadas presas
contra o sol
quase dezembro

tenho contra você
esteja onde for

a parte mais impura
e simples
do meu ser

o tal
maldito
amor

 Carlos Moreira