Mostrando postagens com marcador mário bortolotto. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador mário bortolotto. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 1 de março de 2017

MEU AMIGO TEATRO



É uma vida estranha. Quando eu comecei a fazer teatro em Londrina, eu apenas queria ser um ator e me divertir. Eu era muito jovem e não tinha planos pro futuro. Até hoje eu não tenho. Mas naquela época tudo o que eu pensava a respeito de futuro era: "Como é que eu vou conseguir dinheiro pra comer um cachorro quente hoje?" Eu pautei a minha vida assim: "Vou fazer só o que eu gosto na minha vida e quando acabar, acabou". Eu não mudei nada. Continuo pensando assim. Enquanto não chegar o fim, vou fazendo. Mas eu já escrevia algumas coisinhas (poemas, contos, etc) e os meus amigos no grupo de Teatro descobriram e praticamente me obrigaram a escrever um texto de teatro. Eu escrevi e percebi que levava jeito. Já escrevi mais de 50 textos, ganhei uma porrada de prêmios e já fui encenado por uma pá de diretores diferentes. Nunca esperei por isso. Quando me mudei pra São Paulo, fiquei passando fome alguns anos, bebendo conhaque vagabundo na Amaral Gurgel e comendo hot-dog e churrasco grego, mas tava tudo certo também. Eu continuava vivendo do jeito que eu escolhi. Eu tava devendo a mó grana quando eu ganhei o Prêmio Shell em 2.000. Aí eu consegui pagar as minhas dívidas e o Prêmio deu uma visibilidade ao meu trabalho que fez com que outras pessoas se interessassem pelos meus textos. O Reinaldo Pinheiro levou para o cinema o meu "Nossa vida não vale um Chevrolet". Ficou bem ruim, mas com o dinheiro dos direitos, mais um pouco do que eu já vinha guardando e com a montagem da peça "à meia-noite um solo de sax na minha cabeça" com o Raul Cortez eu consegui comprar a minha kitchenette. Eu jamais imaginei que moraria em uma casa realmente minha, ainda mais só fazendo o que eu gosto e que eu escolhi fazer. E continuei trabalhando, já tendo um lugar que era meu pra eu deixar cair minha carcaça bêbada de madrugada. Aí depois veio o convite pra eu ir pra Paris ver a leitura do meu texto "Nossa vida não vale um chevrolet" em francês. Caralho, lá no Jardim do Sol, tentando conseguir algum dinheiro pra pagar o ônibus pra casa, eu jamais imaginei que um dia desceria no De Gaulle pra testemunhar uma leitura de um texto meu. Depois fui pro Uruguai assistir a leitura de "Hotel Lancaster". Sempre o teatro me levando. Eu viajei por grande parte do país graças ao teatro. Enfim, o que eu quero dizer com tudo isso é que o teatro sempre esteve absurdamente perto de mim, me salvando e me ferrando. Mas muito mais me salvando de algo que eu sequer pensei em me proteger algum dia, simplesmente pq eu nunca pensei em futuro. Então se algum jovem ator vem me perguntar se vale a pena, eu respondo: "não vale não, é roubada, vc vai se foder". Eu respondo isso pq se o cara tá perguntando isso, então ele não tem certeza, então é melhor sair fora logo. Não é lugar pra quem não tem certeza. Quer algo certo? Tá no lugar errado! Agora se ele perguntar se em algum dia eu me arrependi (mesmo nos momentos que eu tava passando fome, sem dinheiro, sem mulher, dormindo sozinho e sem lugar pra morar), eu vou responder sem titubear: "Jamais, Brother, jamais".


(Mário Bortolotto)

sexta-feira, 4 de novembro de 2016

How come my dog don´t bank


Eu vou levar o cachorro pra passear, eu falei pra ela. Eu nem tinha um cachorro. E ela pareceu não se importar com o que eu disse. Ela preferiu acreditar que eu tinha um cachorro e que eu tava levando ele pra passear. Foi nessa hora que eu pensei que eu sempre quis ter um cachorro. Eu lembro do meu amigo falando... é, eu tinha um amigo. Um daqueles amigos que as mulheres odeiam que você tenha como amigo. Um daqueles que sempre estão te ligando de madrugada e dizendo “vamos beber uma?”. Aí ela grita da sala: “É aquele filho da puta do seu amigo que quer beber outra, né?” E aí você diz num fiapo de voz: “Não é outra. Eu não bebi a primeira ainda”. Aí ela diz: “Foda-se. Manda esse seu amigo pro inferno. Ou manda ele arrumar uma mulher. Ou um outro amigo. Ou uma bosta de um cachorro... que beba com ele de preferencia pra ele parar de te ligar pra você beber outra”. Pois é, eu tinha um amigo. Ele desistiu de mim. Todos os meus amigos desistiram de mim. Eu devia mesmo ter um cachorro. Talvez o cachorro não desistisse de mim. Acho que é por isso que chamam de fidelidade canina. Bom, mas agora é tarde. Eu não tenho um cachorro. E nem amigos. Mas isso não importa muito pra ela. Eu dizer que eu vou levar o cachorro que nós não temos pra passear basta pra ela. O importante é que eu saia da presença dela. Por alguns minutos, ou algumas horas de preferencia. Eu devia aproveitar e ir beber com meus amigos. Mas como já disse, eu não tenho mais amigos. E se eu tivesse amigos ou um cachorro, eu poderia então beber com eles ou perguntar para o meu cachorro: “O que nós fizemos das merdas das nossas vidas?” Esse mesmo amigo. Esse que não é mais meu amigo e que desistiu de mim... que arrumou outro amigo ou então pelo menos descolou um cachorro pra beber com ele...bom, esse meu amigo quando ficou sabendo que eu ia casar, falou: “Descola um cachorro, meu amigo. E um sofá grande e confortável”. Eu perguntei por que. E ele disse: “O sofá é onde você vai passar a maior parte das suas noites e o cachorro é o único que vai te receber com amor quando chegar em casa”. Ele foi cruel. Ele tava certo. E eu tava certo em querer acreditar que ele tava errado. Afinal o que seria de nós, pobres desgraçados românticos se não nos sobrasse essa fé inabalável em miragens?

E eu levo o cachorro que não tenho pra passear. E eu ando com ele pela rua deserta do meu bairro de madrugada. E naquelas casas frias há homens e mulheres tristes e frustrados com suas vidas tristes e crianças que ainda não sabem que são tristes, mas não vai demorar para que descubram. Afinal as crianças crescem e entopem o mundo com suas presenças tristes de adultos sem esperança. E há os cachorros que irracionalmente buscam o afeto dessas pessoas tristes com seus olhos tristes de cachorros que imploram por amor e afeição. Os cachorros que uivam para a lua solitários como o homem que anda na rua conversando com seu cachorro imaginário.

(Mário Bortolotto)


domingo, 10 de abril de 2016

PQ ÀS VEZES É SÓ ISSO



Vc descobrir onde comprar castanhas de Belém do Pará ou açúcar mascavo do jeito que vc gosta. Ou descobrir um bar que vc tem prazer em sentar sozinho num fim de tarde e beber uma cerveja. Ou onde tem o melhor churrasco grego da cidade com a pimenta mais bagaceira e mais forte. Ou qual é o melhor horário pra vc ir no cinema sozinho e que vc pode sentar em uma poltrona sem ninguém por perto comentando o filme. A loja de discos que o cara te atende com um puta sorriso no rosto (pq evidentemente ele sabe que vc vai comprar muitos discos) e já começa a baixar da prateleira o que ele sabe que vc gosta (ou seja, todos aqueles discos de rock sulista de uns caras cabeludos e mal encarados ou aqueles de blues de uns negões desdentados). Ou a loja de gibís que o cara te atende te dizendo o que chegou no último mês. Ou simplesmente o fato de vc saber que no fim do ano depois de todo o trabalho que vc teve, há uma chance (por mais remota que seja) de vc simplesmente entrar em um avião e ir parar num lugar distante. Aquele lugar que vc simplesmente admirava em cartões postais ou revistas de turismo. Ou simplesmente fazer uma viagem de volta para dentro de si mesmo e entender satisfeito que vc jamais conseguiria trair tudo aquilo que vc leu, ouviu e viveu desesperadamente quando jovem. Pq ficar velho às vezes é só isso. Encontrar a sua pátria. Se manter leal. E sábio. Com aquela cara de estúpido que vai enganar meio mundo. E eu espero que engane mesmo. Eu acho que é bem melhor assim, principalmente se vc prefere não se explicar tanto.

Mario Bortolotto

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

O SOM QUE FAZ QUANDO O TACO CAI

Agora você anda triste
E sua tristeza tem um tom dramático
De mulheres do século passado
Você anda triste
Como um blues de Billie Holliday
Enquanto passa geléia importada na torrada
E passeia nos fins de tarde no seu carro blindado
E sua tristeza a impede de se sentir segura
Com tantos fotógrafos e colecionadores de escândalos
Agora você anda triste escolhendo roupas no shopping
E não gosta do que vê no espelho do provador
Daqui eu te vejo triste
Perdida numa festa que eu não quis entrar
Sua silhueta de diva lírica quase me enternece
Mas eu não pretendo perdoar suas boas intenções
E sei que sua tristeza não te impede de pensar
em viagens
a Tóquio & domingos de Páscoa
Mas eu sou um troglodita
Com uma herança maldita
Tomando chá em copos de whisky
E rezando pro dia amanhecer
Então não fica amargurada no transatlântico pra Atenas
Não se sinta autorizada a pensar em mim
Não fica triste, baby
é que antes de te conhecer
Eu já me esqueci de você

(Mário Bortolotto)

terça-feira, 22 de dezembro de 2015

Tem horas que a gente simplesmente pensa em mudar tudo. Recomeçar a vida do nada. Esquecer os livros que já leu, as mulheres que passaram pela vida, os amigos que nos ampararam, os barulhos que nos incomodaram na noite. Só não penso em esquecer os textos que escrevi. E quando releio os textos, lembro dos livros, das mulheres, dos amigos e de todos os barulhos noturnos. Eles continuam lá como fantasmas que mexem em nossos chinelos em cima da poltrona. E é isso que me impede. Os negócios que escrevi ao longo desses anos. A escrita me aprisiona. A escrita me aproxima e me afasta de Deus. A escrita me desperta e me nocauteia. Tenho tido várias decepções na vida, mas a escrita é a única que não me decepciona nunca. Ela sempre esteve a serviço de minhas explosões de alegria, de minhas obsessões, de minha submersão na tristeza mais profunda, nos meus rompantes de renascimento. A escrita é minha mais fiel amiga, namorada, companheira e minha inimiga mais leal. Posso perder tudo, mas não posso perder a capacidade de me emocionar e de escrever. O resto é essa vontade de olhar os carros passando pela estrada, um rock do Lynyrd Skynyrd na cabeça e a possibilidade de um novo poema. E me parece mais do que o suficiente.

(Mário Bortolotto)

sábado, 31 de outubro de 2015

NÃO É SÓ MAIS UMA NOITE NO INFERNO


Você prometeu que estaria aqui quando eu voltasse
me esperando com uma garrafa de Jack e sorvete de caramelo
Você estaria ouvindo Headcat e ia ser uma noite longa num motel de beira de estrada
A gente ia rir como nos bons tempos
com minhas piadas sem graça e meu senso de humor sem nenhum senso de oportunidade
e ficar morgando na banheira de hidro ouvindo uma trilha sonora do inferno
Você me prometeu uma vida
sem abutres voando sobre minha cama na beira do abismo
Você prometeu que haveria um Deus que cuidaria de mim
e fui estúpido e inocente o suficiente
pra acreditar em você
Agora quando eu olho pra essa parede vazia
apenas com o retrato da Sasha Grey na parede
é que eu entendo que o tempo todo você tava mentindo pra mim
Eu só precisava perder o medo de te perder
pra não ter mais medo de nada

(Mário Bortolotto)

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Há pessoas que eu amo

Há pessoas que eu amo
e a elas reservo meus melhores pensamentos
minhas vitórias silenciosas numa mesa de bilhar
as músicas dilacerantes que ouço sozinho deitado no chão da minha sala
o café da manhã que faço e bebo sozinho imaginando diálogos de uma peça que ainda vou escrever
minhas caminhadas sem rumo pelo centro da cidade
meu despertar tentando divisar algo no escuro do quarto
apenas a luz vermelha da tv que esqueci ligada
minhas fugas diárias
meu exílio voluntário
minhas distrações oportunas
o sorriso que aparece atrevido no meio do rosto quando nem acreditava mais que ainda podia contar com ele
a vontade de sair dançando pela sala sempre que ouço when the music stops
o intervalo que sucede o próximo fracasso
então eu simplesmente entro no ringue de cabeça baixa e com a certeza que o protetor está no lugar
vou cuspir algo mais que dentes nessa noite sem encrenca
há pessoas que eu amo por aí
mas elas nem precisam saber disso

(Mário Bortolotto)

sábado, 16 de novembro de 2013

MUDANÇAS DE TEMPO


Por aqui agora é frio
e eu nem tenho pra quem explicar
as fogueiras de Moscou
Então fico falando sozinho como um louco numa catacumba
Um louco que ainda não perdeu a fé
Proscrito do mundo
confinado numa kitchenette
perseguido em pesadelos
por demônios que bebem vodka
e atravessam o Rio Volga
Faço o sinal da cruz e espero
embriagado e levemente desesperado
a passagem pro outro lado


Mário Bortolotto 

do livro "Um bom lugar pra morrer")

domingo, 14 de julho de 2013

ANJOS POR TODOS OS LADOS

Mário Bortolotto



Eu sempre bebi muito. Não me gabo disso, nem acho que é o melhor jeito de conduzir a vida, mas é assim que é. Quando tenho amigos pra me acompanhar, costumo beber ouvindo histórias, interferindo com minhas bobagens ou rindo de velhas piadas. E quando estou sozinho, bebo da mesma maneira. Lembro de uma noite que fui pro "Amistosas" e fiquei encostado no balcão bebendo tranquilo. No "Bar das Amistosas" há três músicos bons pra caralho. Caras da noite que conhecem todas as manhas. Então nessa noite, peguei uma dose de whisky e fiquei simplesmente vendo e ouvindo um deles. Que sensibilidade. Que delicadeza e destreza. Não há como descrever. Emendava um "Se todos fossem iguais a você" com "Wave". E tudo na mó elegância. Fiquei admirando embasbacado. Há anjos por todo o lado. Claro que há. Alguns deles deixam trilhas de fumaça por onde passam. Outros só querem estar por ali. Saquei isso naquela noite. Meu mais profundo respeito e admiração por todos eles. O resto? São pessoas se comportando mal num mundo que não é o suficiente pra eles.

segunda-feira, 1 de julho de 2013

Não acredito em vida a dois

"Não acredito em vida a dois se não tiver muita verdade e muito amor na parada. Vejo sempre pessoas se agarrando às outras como se elas fossem algum tipo de salva-vidas na tempestade. Ninguém tem que ser nada disso. As pessoas tem um excessivo medo da solidão. Eu, por outro lado, tenho mesmo é muito medo de viver com alguém que eu não goste ou que não goste de mim. Tenho medo de conviver com pessoas assim."


Mário Bortolotto

DAS COISAS QUE OUÇO NA NOITE

Mário Bortolotto


Tenho estado sereno. Isso não tem nada a ver com "estar feliz". Eu sou muito velho pra acreditar nesse tipo de bobagem. Tenho estado sereno, consciente de minha capacidade e melhor ainda, das minhas incapacidades, das minhas limitações. Me encosto em algum balcão de bar e não tenho nenhuma pressa, nenhum anseio verdadeiro. Me deixo estar. Sereno. E fico ouvindo as pessoas conversarem.

Ouvi essa: um produtor de teatro produziu uma peça infantil. O produtor em questão não levava o menor jeito com crianças. Os atores eram todos crianças. Uma das mães acompanhou a primeira viagem teatral dos meninos. Eles queriam chocolate, toddynho, refrigerante, esse tipo de coisa que criança gosta. A mãe então foi falar com o produtor: "Os meninos querem chocolate, toddynho, refrigerante..."


O produtor inconformado mandou essa: "Eles tem que entender que aqui eles são atores. Atores, entendeu? Se tiverem a fim de uma garrafa de whisky, tá fácil de conseguir, mas Toddynho? Qual é?"

domingo, 30 de junho de 2013

NAQUELA NOITE




Naquela noite eu não fiz nada que não confirmasse plenamente minha opção de vida, meu sacerdócio. Não decepcionei meu fígado bebendo menos do que ele esperava. Não fui pra casa e fiquei ouvindo alguma música vagabunda em alguma rádio de Internet. Não pedi desculpas, nem admiti erros que não cometi. Em vez disso, apenas andei sem rumo como costumo fazer quando as coisas fogem do controle. Entrei em bares e bebi Domecq como não costumo fazer. Sempre vou de whisky, mas naquela noite a porra do bar não tinha gelo. Então fui de Domecq já que a merda do boteco também não tinha Jack Daniels. Vi uma mulher fazendo um boquete num sujeito dentro de um carro e o cara não parecia feliz. E quer saber? Não o culpei por isso. Tenho evitado apontar o dedo na cara de quem quer que seja. Tenho pensado insistentemente que no segundo seguinte posso estar sendo chutado com a cara no chão. Então que adianta bancar o fodão? Penso que apenas devo fazer as coisas do meu jeito antes de atravessar a fronteira. Dizem que é pra breve. Naquela noite, pessoas morreram em algum lugar. Outras enlouqueceram. Algumas até pareciam felizes. Eu era só um cara andando sem rumo e bebendo Domecq como não costumo fazer. Mas teve um momento que eu me emocionei ouvindo no telefone uma amiga que contava chorando sobre o amigo que ela tinha perdido. Definitivamente perdido. Algumas coisas são definitivas. Eu estava bêbado demais pra acreditar que aquele era o lugar ideal, pra se estar, naquele momento, naquela hora da madrugada. Mas não era uma noite perfeita. Eu estava bebendo Domecq. Pensando bem, era uma noite bem esquisita aquela. Então voltei pra casa. Minha filha estava dormindo. Ela parecia tranqüila. Abri as janelas e respirei com dificuldade. O telefone tocou e eu deixei tocar. Deitei na rede e dormi como fazem os caras que não traem seu estilo de vida, seu sacerdócio. Foi uma noite filha da puta de desgraçada, mas ainda era eu que estava ali balançando naquela rede. E ainda era eu quando finalmente adormeci. Eu merecia um sonho bom. Naquela noite.
Mário Bortolotto

segunda-feira, 25 de março de 2013

Guerra dos Tronos



Mário Bortolotto

O cara tá no meio da neve, subindo uma montanha, num puta frio du caralho e diz pros outros companheiros:
"É lindo, né? Gilly (a mina por quem ele tá apaixonado) adoraria isso aqui!"
Um dos caras que vem logo atrás resmunga pro outro:
"Não há nada mais doentio que um homem apaixonado!"

(Da ótima Segunda Temporada de "Guerra dos Tronos")

segunda-feira, 4 de março de 2013


Eu não nego que tô ficando cada dia mais largado. Não nego que tô ficando cada dia mais imprestável. Não nego que tô ficando cada noite mais desorientado. Não nego que tô ficando cada dia mais sem rumo. Não nego que cada vez mais penso em ir embora. Não nego que perdi minhas referencias. Não nego que gosto cada vez mais de ficar sozinho. Não nego que cada dia que passa gosto mais da ideia de não ser desagradável com meus amigos. E eu já me diverti tanto com isso. Não nego que quero saber a hora exata de ir. Apenas reafirmo minha história torta. Apenas sei que não devia nem ter começado algo que eu não sei como terminar. Olho pra trás e só vejo destruição, casas arrombadas e arvores caídas na estrada. Tenho uma visão privilegiada do alto da colina e vejo boas intenções enforcadas e mulheres que gritam "ele não sabe o que faz". Tenho quase certeza que os desvios da estrada vão me levar pra algum lugar que jamais pensei em conhecer. E isso me parece a previsão mais agradável. No momento. Eu ainda sobrevivo com essa ideia.

Mário Bortolotto

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

A LITERATURA EXPLOSIVA DE MAICKNUCLEAR




(Mário Bortolotto)

Foi a Jeca (minha amiga lá de Londrina, a escritora Maria Angélica Abramo) que me apresentou aos textos do Maick. Ela disse assim mesmo: “Marião, lê os textos desse menino. Ele é foda. Você vai gostar”. E eu gostei mesmo. O Garoto tinha uma pegada rock and roll no texto do jeito que a Jeca sabia que eu ia curtir, mas não era nada forçado, parecia natural no jeito que ele escrevia. A sua narrativa transita livremente entre a podridão mais buwoskiniana possível até o jogo de palavras mais rebuscado e alucinante meio pop meio erudito meio porra louca meio atento meio cheio de personalidade mas com uma desencanação do tipo nada a ver. Sua literatura parece querer buscar algo profundo e desconcertante, mas ao mesmo tempo parece mesmo estar de olho nas taças de vinho que o garçon tá trazendo pro coquetel. Quando você começa a querer levar muito a sério sua literatura ele te dá uma rasteira, derruba cerveja na sua camiseta e parece dizer: “Ah, qual é, Man?” É como se o tempo inteiro ele tentasse frear o seu entusiasmo de jovem escritor numas do seu ego não sair por aí bancando o franco atirador. Sim, por que deixem eu esclarecer pra vocês que Maick é ainda um escritor muito jovem do tipo que você facilmente fecharia um dos olhos para qualquer deslize proveniente de um possível deserto de idéias. Sempre tem horas que o escritor apela. Mas não é necessário. Não é o caso dele e vocês vão atestar o que estou falando quando mergulharem nesse livro. Maick se belisca antes de cometer pequenos e perdoáveis crimes que me fariam piscar numa velocidade alterada ou simplesmente desviar os olhos para uma bunda feminina antídoto de parágrafos atabalhoados acometidos de bebida vagabunda de procedência sombria. Maick não cometeria a sandice ou o sacrilégio de usar as palavras de maneira indevida. Ele as respeita, as trata bem, chega a venerá-las, mas se preciso for, ele as joga na parede e parte pra cima. O escritor desse livro é uma espécie de esteta da sarjeta, com uma literatura explosiva condizente com o codinome com o qual se auto-batizou. Mas não o que temer. O que explode na sua literatura são alternativas para pessoas que pedem desculpas demais, que ficam tristes demais ou que morrem de pena de si mesmos. Maicknuclear não tá nem aí. Ele apenas passeia entre os escombros. Quem deu ordem de comando com a cara enfiada na lama numa trincheira foi um cara com quem Maick não dividiria uma garrafa de Bourbon.

Quem for a fim de adquirir o livro escreve pra editora:
rubracartoneira@gmail.com

domingo, 4 de novembro de 2012

FANTE FOREVER (e mais alguma coisa a respeito) Ou UM JEITO DIGNO DE ENVELHECER





Um amigo me perguntava dia desses: "Mas você ainda consegue ler John Fante depois de todos esses anos?"

Eu entendi o que havia por trás da pergunta. Era como se depois de eu ter lido tantos outros escritores, tidos como "melhores" (essa não é uma observação minha, quero deixar bem claro), eu não pudesse continuar apreciando a literatura de um cara como John Fante, que li em minha juventude, época tido como mais apropriada para ler um escritor como ele. Acho isso bobagem. Respondi simplesmente:

"Li Henry Miller antes de ler Bukowski. Miller é considerado um escritor muito mais sofisticado que o velho Buk, e até concordo com essa afirmação, mas isso não fez com que eu não conseguisse apreciar a literatura do velho Safado, e tenha tido total identificação com seus escritos. Gosto do estilo seco, hardcore e cortante do velho Buk, e também gosto de toda a sofisticação da narrativa erótica do velho Miller. Não acho que um anule o outro."

Não vou abastecer os sebos com meus livros queridos, só porque descobri outro escritor que pode ser considerado "melhor". Notem as aspas. O conceito de "melhor" me parece ser bastante discutível.

Vou descobrir outros escritores durante a minha vida (espero que sim). Vou me identificar e passar a ler com voracidade todos os livros deles como tenho feito durante toda a minha vida, mas a idéia não é trocar uma literatura por outra, e sim ampliar minha biblioteca, só isso. Não faço do meu gosto literário uma gincana. Não consigo considerar um escritor que gosto melhor que outro simplesmente, e a partir do dia que encontro um que poderia ser tido como "melhor", então devo considerar indigno o escritor que admirava até duas semanas antes? Isso me parece algo como "o sucesso da semana" ou qualquer coisa do gênero. Há uma série de escritores que gosto muito, só isso. Entre meus amigos que escrevem, também. Há livros deles que gosto mais, e outros, menos. Só isso. Há certos escritores que escrevem reconhecidamente muito bem, mas não me interessam. Não vou perder tempo lendo algo com o qual não me identifico, só porque é evidentemente "boa literatura". Caguei. Literatura pra mim é como cerveja, ou como vinho. Não adianta você me dizer que a melhor cerveja é da marca tal. Se eu gostar de outra, ela pode ser a mais vagabunda, vou continuar bebendo daquela. Não sou crítico literário. Sou um leitor apaixonado. Embora eu leia Eisner ou Crumb hoje em dia, com veneração, ainda leio os velhos "Almanaques Disney". O fato de ter conhecido Van Morrison, não faz com que eu pare de ouvir Chuck Berry. Não parei de ler Tex Willer, só porque descobri com enorme felicidade, o genial Ken Parker. Os anos vão passar, novos escritores vão surgir, e eu só quero envelhecer com alguma dignidade, tendo como companheiros, a literatura de escritores queridos, e grandes músicos com suas canções belas e aterradoras, para embalar os anos que talvez venham por aí. Não é nada demais. Quero envelhecer quieto no fundo de um bar pouco freqüentado, sentado sozinho em uma mesa, lendo um velho Kerouac, ou algum escritor novo com quem devo me identificar. Quero ler a frase certa pra ficar emocionado na medida exata, antes de subir ao palco com meus amigos de banda e ficar lá, quase absorto, em paz, na companhia de poucos amigos, tocando um velho blues para poucas pessoas. Parece um pouco romântico. Mas cada um tem o projeto de vida que quiser, não é? Esse é o meu. O do Johnny Depp é "Quero virar um velho com uma barriga de cerveja, sentado numa varanda e olhando um lago ou algo assim". Já Nei Lisboa disse sabiamente : "Quero morrer bem velhinho, assim sozinho, ali bebendo vinho e olhando a bunda de alguém". Me parece um jeito mais do que feliz de envelhecer.

 Mário Bortolotto

terça-feira, 16 de outubro de 2012

ENQUANTO ELA RANGE OS DENTES, EU ESPERO OS FANTASMAS


EFEITO URTIGÃO

Dos meus textos de teatro, este é sem dúvida um de meus preferidos. Nunca foi de agradar muito. Não é um de meus textos mais comentados. Nunca teve muito público e nunca vi ele ser citado como um dos preferidos da rapaziada
que conhece o meu trabalho. Mas é um dos que eu mais gosto. De ter escrito e de interpretar de vez em quando. Pra quem não conhece, é a história de um jornalista que se exila em um sitiozinho longe da civilização e não gosta de receber a visita de ninguém. Mas aí aparece um antigo amigo também jornalista a fim de conseguir uma matéria com ele. Só escrevi este texto em 97, mas já vinha pensando nele há muito tempo. Em 91 escrevi um poema que é uma espécie de prólogo deste texto e que também poderia servir de epitáfio do personagem Marcos (o tal jornalista auto-exilado). É também um de meus poemas preferidos. Está publicado no livro "Para os Inocentes que ficaram em casa". Não é um de meus poemas mais comentados e nunca é citado como um dos preferidos da rapaziada que conhece o meu trabalho. Mas dos que escrevi, é um dos que eu mais gosto de ter escrito e de reler de vez em quando. Mas acho que é assim que acontece com todo mundo, né? Eu me refiro à todo mundo que se mete a escrever. É isso o que eu tô querendo dizer. Não me entendam mal. E também gostaria de dizer que este post não tem nada a ver com o meu estado de espírito atual. Só andei relendo algumas coisas minhas e pensando nelas. Acho que tem a ver com Hunter Thompson que sempre releio ou com uma entrevista do Frank da Guarda que saiu na Revista Trip há muito tempo e que é uma das melhores entrevistas da revista. Sei lá. Tem a ver com um monte de coisa.

ENQUANTO ELA RANGE OS DENTES, EU ESPERO OS FANTASMAS

Os fantasmas bebem comigo quando a lua vem

Eu abro a minha porta todas as noites

Eles aparecem e se apropriam das poltronas

coçam meus pés e bebem meu vinho

Não falam da vida os fantasmas

nem comentam as fotos que guardei

Eu me sinto bem com os fantasmas

Eles apenas gostam de ficar por ali

assoprando nas orelhas do cachorro

o cachorro se acostumou com os fantasmas

já não tira os chinelos das poltronas

percebeu o quanto os fantasmas são

importantes pra mim e o cachorro também

não quer me ver triste e eu sei que de

uns tempos pra cá o cachorro também ficou

dependente deles pois uiva de dia enquanto

eu leio Frost no telhado

o dia passou a ter 72 horas

o dia passou a ter grossos livros de poesia

o dia passou a ter Whitman, Thoreau e Bashô

o dia agora é um osso esquecido no assoalho

o dia agora é uma longa espera da noite

que é quando os fantasmas aparecem

Eu espero já sem muita paciência

não há nenhuma suavidade ou delicadeza em

meus gestos

Os fantasmas são a melhor companhia pra

quem descobriu que está realmente sozinho.

Mario bortolotto