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quinta-feira, 22 de agosto de 2019

Poemas de José Paulo Paes




ARS AMANDI
amar
amar
amar

qual ama

o nascituro a mama
o incendiário a chama
o opilado a lama
.
LAR
espaço que separa
o volksvagen
da televisão
.
NEOPAULÍSTICA
pelo mesmo tietê
onde outrora viajavam
bandeirantes heris

só viajam agora
os dejetos: bandeira
de seus filhos fabris
.
BRECHT REVISITADO
partido: o que partiu
rumo ao futuro
mas no caminho esqueceu
a razão da partida

(só perdemos
a viagem camaradas
não a estrada
nem a vida)
.
HINO AO SONO
sem a pequena morte
de toda noite
como sobreviver à vida
de cada dia?
.
DÚVIDA REVOLUCIONÁRIA
ontem foi hoje?
ou hoje é que é ontem?
.
O ÚLTIMO HETERÔNIMO
o poema é o autor do poeta
.
EPITÁFIO (13 de outubro, morte de manuel bandeira; 1956)
poeta menormenormenormenormenor
menormenormenormenormenor enorme
.
OCIDENTAL
a missa
a miss
o míssil
.
CRONOLOGIA
A.C.
D.C.
W.C.
.
FALSO DIÁLOGO ENTRE PESSOA E CAEIRO
- a chuva me deixa triste...
- a mim me deixa molhado


               

terça-feira, 17 de outubro de 2017

Grafito


neste lugar solitário
o homem toda manhã
tem o porte estatuário
de um pensador de rodin

neste lugar solitário
extravassa sem sursis
como num confessionário
o mais íntimo de si

neste lugar solitário
arúspice desentranha
o aflito vocabulário
de suas próprias entranhas

neste lugar solitário
faz a conta mais doída:
em lançamentos diários
a soma de sua vida


José Paulo Paes

sexta-feira, 13 de outubro de 2017

Ao fósforo


Primeiro a cabeça
o corpo depois

se inflamam e acendem

o forno
do pão

a luz
na escuridão

a pira
da paixão

a bomba
da revolução.

Sim, mas vamos à coisa concreta:

você fala de fósforos
ou de poetas?


 De José Paulo Paes

sábado, 13 de setembro de 2014

REVISITAÇÃO


José Paulo Paes
Cidade, por que me persegues?
Com os dedos sangrando
já não cavei em teu chão
os sete palmos regulamentares
para enterrar meus mortos?
Não ficamos quites desde então?
Por que insistes
em acender toda noite
as luzes de tuas vitrinas
com as mercadorias do sonho
a tão bom preço?
Não é mais tempo de comprar.
Logo será tempo de viajar
para não se sabe onde.
Sabe-se apenas que é preciso ir
de mãos vazias.
Em vão alongas tuas ruas
como nos dias de infância,
com a feérica promessa
de uma aventura a cada esquina.
Já não as tive todas?
Em vão os conhecidos me saúdam
do outro lado do vidro,
desse umbral onde a voz
se detém interdita
entre o que é e o que foi.
Cidade, por que me persegues?
Ainda que eu pegasse
o mesmo velho trem,
ele não me levaria
a ti, que não és mais.
As cidades, sabemos,
são no tempo, não no espaço,
e delas nos perdemos
a cada longo esquecimento
de nós mesmos.
Se já não és e nem eu posso
ser mais em ti, então que ao menos
através do vidro
através do sonho
um menino e sua cidade saibam-se afinal
intemporais, absolutos.

De A Meu Esmo (1995)

terça-feira, 10 de maio de 2011

O aluno

são meus todos os versos já cantados :
A flor, a rua , as músicas da infância,
O líquido momento e os azulados
Horizontes perdidos na distância.

Intacto me revejo nos mil lados
De um só poema. Nas lâminas da estância,
Circulam as memórias e a substância
De palavras, de gestos isolados.

São meus também os líricos sapatos
de Rimbaud, e no fundo dos meus atos
Canta a doçura triste de Bandeira.

Drummond me empresta sempre o seu bigode.
Com Neruda, meu pobre verso explode
E as borboletas dançam na algibeira.

José Paulo Paes
in: Os melhores poemas de José Paulo Paes / seleção Davi Arrigucci Jr. Global. São Paulo: 1998

sábado, 22 de janeiro de 2011

Curitiba

o interventor do estado
era um pinheiro inabalável

inabaláveis pinheiros igualmente
o secretário da segurança pública
o presidente da academia de letras
o dono do jornal
o bispo o arcebispo o magnífico reitor

ah se naqueles tempos
a gente tivesse
(armando glauco dalton )
um bom machado !

José Paulo Paes

Cartilha

A MATilha
contra a ilha

Ilha recUSA?
Ilha reclUSA

USA e abUSA.

José Paulo Paes
in:Anatomias.Cultrix.São Paulo