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quinta-feira, 21 de maio de 2020

Passionata



o amor foi feito para
a imperfeição, para o silêncio
entojado de som e fúria
e gentilezas.
o amor foi feito para errar,
dar com os burros n´água,
perder a paz
e odiar de um ódio patético
e gago.
o amor é assim: uma bomba
de delicadeza e desejo
que arrebenta nossas manias,
nossas veias mais grossas,
nossos relógios e bibelôs,
nossas fotografias antigas,
estudos, trabalho,
o passatempo mesquinho,
a conversa fiada e o futebol
(na hora do gol,
você pensa nela e olha além,
através do alambrado, buscando
a improbabilidade
do jasmim).
as vacas, em sua mansuetude,
não amam.
mas os homens...
“um grave acontecimento
na vida de um sujeito ordinário
naquela tarde como qualquer outra.”
o amor nos emburrece,
nos embrutece (cavalos doentes,
anjos idiotas),
como se não tivéssemos nunca
amado
e desamado, amado
e desamado.
o amor remoça
e envelhece dramaticamente.
a mulher pode dormir virgem
e acordar na menopausa.
o homem pode acordar
analfabeto e se deitar um poeta,
esbofeteado por asas.
no meio do sono,
eqüidistância perfeita
entre sonho e realidade,
o homem, a mulher
trazem abaixo
com uma serra de sândalo
a árvore genealógica.
e há quem defeque estrelas,
estupidificado de infinito.
e há quem não consiga,
um trapezista interior,
levantar o garfo até a boca
ou amarrar os cadarços.
quase tudo o que se viveu,
todas as lições e sobrevirtudes
esfarrapadas, como se amadurecer
fosse a antevéspera do podre
e da semente.
o amor não se cura.
fica incubado
esperando a primavera,
a próxima (sempre prima)
MENTIRA
ah como eu minto
pra você pra mim, meu amor!
o amor
o amor,
a desaprendizagem.
o amor
sem o qual a vida
seria uma verdade (como a morte).

 © Rodrigo Madeira

terça-feira, 17 de março de 2020

soneto de mim


by Rodrigo Madeira/ 

quando a chuva cai na terra, sou eu
tudo que fui: espada, chaga e escudo
tudo que serei: mundo menos eu
olhos que não mais despertam no escuro

quando a chuva cai na terra, sou seu
tudo que fui: canto, lâmina e azul
tudo que serei: trans-lúcido orfeu
na árdua descida, solitário e nu

o sol sem pálpebras que burilei
encegueceu-me por rumos que eu quis
estes retalhos todos que enverguei

são versos que me lumem por um triz
e de repente, aturdido, sou quase
nitidez que se descobriu miragem



quarta-feira, 12 de fevereiro de 2020

canção d’aluada



para m.

podou-lhe a perna um acidente
se em torno a malta ri, indecente,
quando escorre, lesma esquecida,
de par em par em par doente,
– ignora todo o malquerente,
fecha as pálpebras dos ouvidos.

o sangue ou o bosque de abetos
realçam pungentes insetos
que dançam nos globos dos olhos
e na pelanca encanecida
queixam-se seus anos de vida
feito um bater d´água em abrolhos.

deus está-lhe sempre tão perto
e se anoitece e chove fetos,
como se fora o último amigo
(e ele soubera dos ocasos
a urgência rubra dos cavalos),
ela lhe faz um só pedido:

"dai-me um desses, pai, pr´eu velar,
berçar ao vento, acalentar!
súbito me farei lactante,
de um leite azul e muito grosso;
em meu seio como num poço,
receberá beijos na fronte!"

deus, para ela, não é silêncio:
abelhas com patas de incenso,
ou as gaivotas de lençol
a tinta verde dos fadários
na carne viva dos diários
ao sabor ferroso do haldol.

e à vida sentida sem margens,
deriva, stultífera navis,
arrebenta a quilha da testa;
degradando-se em tons de maio,
céu e mar se beijam no raio,
– e a barca vai a pique, em festa.

no idioma dos fogos sujos,
líquen da voz de caramujos,
língua de carvão, frágua e ferro,
fala com dentes, pêlos, unhas,
com a morte por testemunha:
há mil gritos em cada berro.

claudica com severo olhar
se alguém lhe oferece um manjar
– entre anjo, mendiga e sibila,
camélia, garçonete e gueixa –,
mordiscando a carne da ameixa,
preclara, antevê grande dia;

se lhe negam, porém, já viu:
nos cílios acende o pavio;
na pança encruada dos sapos,
transtorna pra fora do leito
a manta de banha e despeito,
e desdobra a língua entre cactos:

"hei, bruxarada, bruxarada,
quando faz rir a madrugada,
envido de cima do outeiro:
vou defecar em seus sapatos,
envenenar seus cães e gatos,
vou tacar fogo em seus cabelos!"

porém a ira logo termina,
ela é novamente a menina;
retira do caule um jasmim,
florescido entre as muitas farpas
do arame e a galharia e as sarças,
– o vôo ambíguo do rubim.

pequena, frágil, recolhida,
bem quando mais lhe dói a vida,
claustra o brilho opaco dum monge.
respira, parte a flor, se indaga
(o corpo nu no chão – jogada):
"como vim acabar tão longe?"

sonha a antiga vida das ruas.
vive, de resto, abandonada:
sem homem, sem filho; só a lua
que a leve de volta pra casa.
Rodrigo Madeira

quarta-feira, 13 de novembro de 2019

kypling



pernas abertas num ângulo
de asa avulsa de um arcanjo.

no intermeio a pentelheira
cuja flor é licoreira

– o gineceu como um grilo
que, gritinhos por estrídulo,

de corolas dissolvidas,
decanta o néctar-saliva –

que convida ao fundo bosque
onde um triste tigre morre.


  Rodrigo Madeira

quarta-feira, 16 de janeiro de 2019

carta aberta




farei minha casa de árvore
no bonsai.

janeleira como olhos,
buliçosa,
a araucária cujos galhos
serão verdes cobras...

mas o veneno será todo meu.

vou contente,
saio sem nove horas.
vou lavar minhas únicas roupas
nos arroios da saliva,
quará-las à luz da lua.

farei minha casa de árvore
no bonsai.

amarelecida de fruta-cor e mijo,
a página,
a língua que lhe falta,
indaga-se:
– onde estás? onde estás,
tu que sangravas tanto?

escreva-me de mim o que
quiseres, página,
não me ouço mais!
assino-te em branco,
fundo tuas margens
num fio de catástrofe.
as palavras já são calhaus.

longe, fui colher insetos
através da noite

e afio minha faca no orvalho.


by Rodrigo Madeira

terça-feira, 22 de maio de 2018

AO MEU ASSASSINO


Em homenagem ao poeta curitibano Paulo Leminski segue este texto do Rodrigo Madeira

AO MEU ASSASSINO

há muito equívoco nesta cidade
sobre a morte de paulo leminski.
morreu de bebida, de curitiba,
de harakiri e o diabo!

deixe-me dizer-lhe:
leminski está morto e fui eu
que o matei.
era tardinha, sete de junho
de 89, na esquina do stuart.
eu tinha apenas dez anos de idade.

abracei-o no golpe da faca
e só o largaria
depois que ele se largasse. olhou-me,
excepcionalmente, com olhos de
cachorro manso e disse: "quem é vivo
sempre desaparece".
sorriu-me como se eu morresse.
nem perguntou
por quê. sabia que aquilo
era obra de um tigre...

hoje entendo a razão
de não ter cabido um "sinto muito,
poeta!"
é a ordem natural da coisas.
leminski também matou seu touro
e voltou pra casa de mãos novas.

comigo
acontecerá o mesmo.
não fiz nem 28 anos e já espero
o golpe de meu vingador.
tenho esta impressão
de que ele virá da direita,
sabendo que sou canhoto em tudo.

morro de medo do menino que
fala sozinho, possível poeta,
da menina que penteia os cabelos
no vento (será poeta?),
do adolescente no expresso
que lê a ilíada em pé.
morro de medo, morro de medo,
mas não há jeito, é certo como o sábado.

na esquina de casa,
na saída do barbeiro,
na volta da banca,
na fila do banco,
num estacionamento
de supermercado, ele estará
a minha espera.

inevitável que seja.
em algum lugar da cidade
meu assassino está nascendo.

escute daqui a vinte anos estas palavras:
"tudo bem,
cara, eu entendo! perdoe-se como me perdoei,
ou não escreverá sequer um verso.

apenas interceda em meu favor para que eu seja
enterrado em meu bar preferido.
só isso. os poetas merecem ser emparedados
em seu boteco eletivo, assim como as aves
devem ser sepultadas no ar.

o botequineiro saberá rezar minha missa."

não há jeito,
é certo como o sábado:
tal qual as putas de outros tempos,
o poeta cora seu rosto com sangue.

o sangue de outros poetas.

                                  Rodrigo Madeira

domingo, 2 de abril de 2017

292.
Um cão tem mais humanidade do que o homem. O homem, no entanto, é mais cachorro.
Rodrigo Madeira

291.
Os gatos é que adotaram um animal doméstico chamado homem.

Rodrigo Madeira

11.
O homem é o melhor rei absolutista do cachorro.
Rodrigo Madeira

289.
À sombra de um único cão, pode dormir uma família inteira.
Rodrigo Madeira

288.
Os cães nos ensinam a amar. Mas a gente esquece, mas a gente nunca aprende.


Rodrigo Madeira
308.
Pra esquerda delirante, quem conserva a lucidez é conservador. Pra direita alucinada, quem comunga de bom-senso é comunista.
RM

307.
Politicamente falando, fico à esquerda da burrice e à direita da loucura. (Ou será o contrário?)
RM

305.
Depois da Doutrina Monroe (1823), a Doutrina Moron: América para os mongo-americanos.
RM

77.
Eis a grande tara do empresariado: passar na bunda do povo a mão invisível do mercado.


Rodrigo Madeira
317.
Normalidade é a loucura da maioria.

316.
A normalidade é uma forma previdente de loucura. A normalidade é a loucura com agenda e guarda-chuva.
Rodrigo Madeira

315.
A maior semelhança entre duas pessoas absolutamente normais é a loucura.


RM

sexta-feira, 31 de março de 2017

[Da Arte Inexorável de Ser Noves Fora Bem Ridículo]



A maior parte do tempo a maior parte de mim não tem a menor ideia do que está falando.
*
– Você é autodidata?
– Não, não, sou autoidiota mesmo.
*
Ridículo todo mundo é. Mas o ridículo que se assume ridículo, esse transcende.
*
O melhor antídoto contra o ódio é o ridículo. O ridículo de si, de cada um, de absolutamente todo mundo.
*
Quando o patético se assume, torna-se um lírico. Torna-se um Chaplin, um Buster Keaton, um Didi Mocó (Sonrisal Colesterol Novalgino Mufumbo) de si mesmo.
*
O homem é o lobo do homem. Deus é o lobo de Deus. Mas eu sou a pulga de mim.
*
Quem não ri de si mesmo ri de si pelas costas.
*
(das glórias póstumas)
Foi ridículo de ver: Júlio César, coitado, tentou atravessar o Aqueronte como se fosse o Rubicão.
*
(Deus, vestido de palhaço, diria mais ou menos assim...)
– Somente os que caírem no ridículo subirão aos céus... Rá, glu-glu, ié-ié, é mentira! Ninguém subirá aos céus!
*
Em nome do Pai, do Filho e do Sílvio Santos, amém.
*

Escrevo de madrugada, quando ninguém está acordado. Sou lido de madrugada, quando todos estão dormindo.
*
Minha formação? Sou pós-doutorando em perplexidades. Serve?
*
Se um médico me desse três meses de vida, eu voltaria a fumar, eu voltaria a beber e iria à igreja todo santo dia.
*
Amarre os sapatos, afivele o sinto, ajeite o terno, a gravata, os punhos da camisa... Mas nunca esqueça este último detalhe: a alma sempre, sempre rasgada no fundilho.

Rodrigo Madeira
Os cães nos ensinam a amar. Mas a gente esquece, mas a gente nunca aprende.
*
À sombra de um único cão, pode dormir uma família inteira.
*
O homem é o melhor rei absolutista do cachorro.
*
Os gatos é que adotaram um animal doméstico chamado homem.
*
Gatos são espertíssimos. Gatos têm sete vidas e seis apólices de seguro.
*
Um cão tem mais humanidade do que o homem. O homem, no entanto, é mais cachorro.

Rodrigo Madeira
Eis o maior desafio da atualidade: transformar o homo-shoppiens em homo-sapiens.
Rodrigo Madeira
Há perguntas que não querem calar. Outras, é claro, preferem não dar um só pio.
*
A inveja está pra admiração como Hyde para Jekyll. E – sejamos honestos – esses dois estão para nós como nós para todo mundo.
*
O homem, este abismo sobre duas pernas, precisa cair em si o quanto antes.
*
O homem é 10% conhecido, 40% reprimido, 50% ignorado.
*
Se o homem foi feito a Sua imagem e semelhança, no fundo no fundo, Deus não tem certeza de nada.
*
A maior parte do mundo a maior parte do tempo não têm a menor ideia do que está falando.
*
Tem gente que, mesmo só pensando, fala sempre sem pensar.

Rodrigo Madeira
Este é o maior desafio da atualidade: transformar o homo-shoppiens em homo-sapiens.
*
Um shopping é uma espécie de zoológico com uma única espécie de bicho.
*
Prum turista típico, cada país é uma megaloja de departamento. Uma loja, aliás, em que os atendentes – vejam só que absurdo! – não se dignam sequer a falar nossa língua.
*
Quando meu sobrinho me pergunta: “Titio, que carrão é aquele?”, eu sempre respondo: “É um Jaguara. Todo carrão é um Jaguara”.
*
Aposto sempre na Mega-Sena e só ganho na Mega-Sina acumulada.
*
A melhor forma de perder tudo é ganhar na loteria.
*
Dinheiro também compra ingratidão.
*
Eis a grande tara do empresariado: passar na bunda do povo a mão invisível do mercado.

RM

Pólis-chinelo [I]


*
Desde que li Maquiavel, só acredito em príncipes desencantados.
*
Política me fascina. Políticos me enfastiam.
*
A política é a arte do possível a serviço do inaceitável.
*
Todo mundo, quer queira ou não queira, é político. E desde sempre. O choro de um recém-nascido na hora do parto já é um ato político. Ele só chora, é verdade, mas o choro equivale a um punho erguido.

RM

Pólis-chinelo [II]


*
Na política brasileira, não existem batedores do futuro; existem batedores de carteira do futuro.
*
Espírito republicano, no Brasil, é um desses fantasmas atormentados depois de uma morte violenta.
*
Discutir política no Brasil virou um bicho de sete cabeças. Sete cabeças inteiramente ocas.
*
Todo apolítico, politizando-se pela internet, é apocalíptico?
*
É politicamente correto estar politicamente enganado.
*
Antes só que mal politizado.

RM

Pólis-chinelo (III)


*
Politicamente falando, fico à esquerda da burrice e à direita da loucura. (Ou será o contrário?)
*
Pra esquerda delirante, quem conserva a lucidez é conservador. Pra direita alucinada, quem comunga de bom-senso é comunista.
*
A política tem que ser moderada. O que tem de ser radical, nazi-jacobinisticamente radical, é o humor.
*

Os maiores líderes políticos modernos foram os moderados, os radicais da conciliação, e não o contrário. Não foram Robespierre, Mussolini, Lênin ou Fidel. Foram Lincoln, Adenauer, Mandela ou Mário Soares... Mas, é claro, pro business das serigrafias, a imagem de Che vai ser sempre mais negócio.

RM

[faunos, centauros, silenos]



metade de mim
só diz a verdade:
quando quer mijar, mija
quando quer comer, come
quando quer amar, se
um corpo se abre diante,
ama.
a outra metade mente.
mente mente desbragadamente
e mentido se inventa:
quando quer mijar, discursa
quando quer comer, jejua
quando quer amar, se a folha
em branco se abre diante,
escreve um poema.

Rodrigo Madeira

318.


Os loucos são minoria na maioria das pessoas. Mas estão sempre lá (aqui!) exaltando-se, falando sozinhos, descobrindo complôs, certificando-se de que todos, sim, todos só podem estar inapelavelmente malucos.

Rodrigo Madeira

320.


Todo homem é um hospício. A portas trancadas, é claro. Basta a chave certa no momento errado e... voilà!

Rodrigo Madeira

321.


O lugar mais perigoso do mundo não é Mossul nem Cabul. Não é Trípoli, Nairóbi, Sanaa, Aleppo. O lugar mais perigoso deste mundo é a nossa cabeça.

Rodrigo Madeira