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segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

A Sombra do Vento



nessas trevas em que o fogo me consome
em que apago da memória essa gana
do amor de um instante que golpeia
de um rosto que se foi e que me espreita

não é a vida que penetra às escondidas
nem a morte que me unge soturna
são os miasmas de uma febre que ferve
que se escancara e me derrota a cada dia

quando ainda pequenino me esguelhava
me perdia entre os livros esquecidos
que se estreitavam em uma sombra
que cresciam como animais em suas jaulas

o vento se lançava como um espectro
entre a névoa que me escondia compungida
eu corria como um ser que já se foi
nas pegadas do oculto ser sem face

eu amava com uma dor latente e fina
me desdobrava na angústia pálida sentida
o presente que se emoldurava à minha frente
o destemor de quem se lança no abismo


Abilio Terra Junior

terça-feira, 28 de novembro de 2017

Escorregava pela Terra



escorregava pela terra
em uma fresta aberta
no incógnito profundo
como no sonho sem rumo

sua pele em escamas
sucumbia ante as pedras
sussurrava entre dentes
uma prece de medo

sua cabeça era enorme
zumbia como um enxame
temia que se rompesse
suas pernas oscilavam

sobre o vácuo estreito
não sabia ao certo
que vício lhe pesava
a água passava por perto

ouvia o som tão vizinho
estreitava-se como uma vara
entre tensos labirintos
suas mãos o protegiam

das tumbas salientes
rochas frias competiam
com sua face desfeita
cada degrau invisível

buscava suas carnes magras
a dor fina silente
a companheira de sempre
nas vizinhanças do Hades

topou com Orfeu decrépito
mal dedilhava sua lira
Eurídice uma dura pedra
fingindo-se desperta

o sino tocava
na catedral de fogo
as chamas lambiam
seu corpo magro e torto

a mulher vestida de negro
fixava nele seu olhar
ele deixava-se levar
na busca do seu ventre
seu odor o atraía

Abilio Terra Junior