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terça-feira, 17 de janeiro de 2017

RESIGNAÇÃO


Desceu a rua correndo, no sentido do vento
Atrás de uma pipa vadia que o amigo “cortou”
Não pegou e assim mesmo
Sorridente, o moleque, à favela voltou
Lá estava eu, nesse dia, no terreno sem dono
Que meu avô por ciúmes, um dia comprou
Era muito isolado e após a infância lá por anos morei
Meu cachorro era do guia dos barulhos estranhos
De que em noites insones, eu tanto cismei
Hoje fora invadido, tanta gente carente para lá se mudou
E o menino na rua, atrás de uma pipa
Fez o mesmo que eu
Só que o tempo era outro e o menino da rua nem chegou a crescer
Tornou-se traficante, empunhou uma arma
Matou e morreu
Hoje eu faço esta prece
Para que sua alma perdida se reencontre com Deus
E este, lhe posse ensinar - E lhe cure as feridas
Perdoe seus crimes - Que eu sei cometeu
E que lá existam outras pipas
Soltas ao vento, belíssimas
Que nos lembrem a infância
Onde brinquem as crianças
Ele, você e eu.
Paulo Bocks (Livro Poesias d'Bocks)


INDIGENTES


Qual a causa do crime?
De certo apenas: um corpo estendido no chão
Coberto e um carro de polícia com o giroscópio ligado
Em volta a multidão
Muitos, como eu, haviam chegado mais tarde
Todos comentavam o fato
Alguns afirmavam ser crime passional
Marido traído que matara a esposa
Outros que fora um assalto
Idoso que não respeitara o semáforo
Briga, por motivo fútil, entre dois cidadãos ...
Para mim que chegara mais tarde
Apenas um corpo caído no asfalto, coberto
Um carro de polícia em uma grande confusão
Enquanto me afastava pensei
Com a extinção de uma vida, quantos sonhos são perdidos
Qual seria a nossa parcela de culpa
Tragédias todos os dias e as cidades se expandem
E ninguém acendeu uma vela, soube o nome
Ou lembrou de fazer ao menos uma simples oração.


Paulo Bocks (da série Poesias d'Bocks)