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quarta-feira, 4 de setembro de 2019

O mal e o bem




RIO DE JANEIRO - Durante alguns anos, mantive crônica num jornal carioca subordinada ao título "Da arte de falar mal".
Por duas vezes fui parar na prisão por causa dela, às custas da Lei de Segurança Nacional então em vigor. Até hoje não entendo a razão de ter dado esse nome ao que escrevia, nem sempre falava mal das coisas que aconteciam ou não aconteciam. Excepcionalmente, falava bem de alguma coisa.
No mesmo jornal, o poeta Carlos Drummond de Andrade também escrevia sua crônica diária, usando apenas as iniciais de seu ilustre nome, CDA.
Não era humildade de minha parte, era um fiapo de consciência profissional que ainda não me abandonara. Falava e escrevia mal pela simples razão de ser colega e amigo de um dos maiores nomes da nossa literatura. Marcava território, como os cachorros que escolhem o local onde preferem fazer pipi.
Medida desnecessária, por sinal; bastava ler a primeira linha de um texto de Drummond para que todos notassem a diferença.
Mesmo assim, houve um problema. Ali pelos anos 60, havia um apagão diário no centro do Rio. Das 18 às 19 horas, acendiam-se lampiões e a Redação funcionava, menos a gráfica, que precisava da energia cortada.
Um paginador distraído trocou os originais descidos à oficina e a minha crônica saiu no espaço consagrado pelo poeta. Por acaso, naquele dia eu falara mal da Ilha do Governador, sei lá por que, problemas com as barcas, óleo nas praias, falta d'água, essas coisas.
A editora José Olympio havia encomendado a Drummond e a Manuel Bandeira uma antologia sobre os 400 anos da fundação do Rio, dedicada aos bairros da cidade.
Foi o meu primeiro e raríssimo texto publicado em antologia. Por delicadeza, o poeta mudou o título para "Da arte de falar bem".
Tudo é possível.


CARLOS HEITOR CONY - : 01 Sep 2011 

quarta-feira, 28 de agosto de 2019

O arco e a flecha




RIO DE JANEIRO - Do distante CPOR (Centro de Preparação de Oficiais da Reserva) que frequentei, guardei apenas uma definição de guerra: é o conflito violento de duas vontades. Perguntaram a um especialista como seria o próximo conflito mundial e ele respondeu: "a arco e flecha".
Mês passado, no aeroporto de Viena, precisei tirar os sapatos para provar que não tinha nem arco nem flecha escondidos. E confiscaram uma tesourinha de unha que levava na bagagem de mão.
Stefan Zweig se revoltava contra a exigência dos passaportes; ele usava um cartão amarelo dado por uma instituição internacional. Daí que nunca deixou de ser um pacifista radical e chegou a ser criticado por isso, mas não renunciou ao ideal de uma humanidade sem fronteiras e sem guerras.
O 11 de Setembro iniciou, de fato, um tipo de guerra que é o conflito de duas vontades antagônicas, duas visões de mundo que se chocam, uma não entendendo a outra. Não é uma medição de forças. A frota de porta-aviões da Marinha dos EUA pode destruir um continente inteiro em poucos minutos.
O poderio militar, econômico e tecnológico dos EUA levou dez anos para destruir um sujeito magro, que morava em cavernas e andava com um bastão como um pastor de ovelhas inexistentes. O terrorismo é antigo no mundo.
Lembro que uma vez, no metrô da Picadilly Circus (Londres), havia um cartaz com a foto de Menachem Begin, então procurado internacionalmente como responsável pelo atentado ao hotel King David, em Jerusalém, em que morreram diversos oficiais ingleses. Begin chegou a ganhar o Nobel da Paz, em 1978.
Os dois conceitos de mundo e de vida, mesmo para concepções religiosas monoteístas (cristãos, judeus e muçulmanos), esgotados os recursos da economia e da tecnologia, terminarão apelando para o arco e a flecha.


CARLOS HEITOR CONY -  13 Sep 2011

Tesourinhas de unha




RIO DE JANEIRO - Na minha crônica anterior, citei um especialista que garantiu uma terceira guerra mundial na base do arco e flecha.
Nada de lutas corpo a corpo, baionetas, trincheiras, questões econômicas ou territoriais. Haverá um equilíbrio nuclear que espaçará batalhas na base do custo-benefício. Somente grupos terroristas terão motivação para bagunçar o coreto mundial.
Citei também que, recentemente, no aeroporto de Viena, tive de tirar os sapatos -medida de segurança já adotada em quase todo o mundo. O que me espantou foi o exame minucioso que fizeram na minha bagagem de mão, confiscando minha tesourinha de unha, uma Solingen que me acompanhava havia anos.
Bem, com arco e flecha eu até poderia criar uma confusão durante o voo, mas considero remotíssimas as possibilidades de sequestrar um avião com uma tesourinha de unha, pilotá-lo até a Casa Branca, o Capitólio ou a basílica de São Pedro e fazer um estrago considerável no concerto dos povos.
De qualquer forma, do jeito como as coisas estão indo, medidas cautelares devem ser tomadas para impedir ou adiar, dentro do possível, a próxima e terceira guerra mundial.
A única certeza é que ela não será como as outras, "day by day", avanços e recuos em terrenos pantanosos, mudanças de tática, ordens do dia inflamadas, boletins da CNN e da BBC. A tecnologia já existente e acessível não apenas às grandes potências, mas aos grupos fundamentalistas espalhados por todos os continentes, impedirá o armagedon previsto no Apocalipse.
O negócio terá de ser feito na base do arco e da flecha previstos pelo especialista, ou com tesourinhas de unha que conseguiremos esconder em nossas sacolas de mão.
Desde a Guerra do Peloponeso não temos uma guerra que mereça um Tucídides.


CARLOS HEITOR CONY -  15 Sep 2011 

quinta-feira, 22 de agosto de 2019

Só me faltava essa




RIO DE JANEIRO - No Rio Grande do Sul, um cidadão, acho que uma autoridade local, está processando o Google por conta de uma informação que considerou, além de falsa, prejudicial à sua imagem e carreira. Uma juíza deu liminar, não sei se a favor ou contra a ação.
O problema é dos mais recorrentes, desde que entramos na era digital. Não apenas o Google, mas também outros provedores, inclusive os usuários habituais que navegam livremente na internet, transmitem ou retransmitem dados e informações errados e, na maioria, mal-intencionados. A tecnologia ainda não criou (e acho que dificilmente criará) um recurso eletrônico que apure a infinita massa de comentários, notícias, críticas e até mesmo insultos que rolam pelas telinhas de todo o mundo.
De minha casa, aqui na Lagoa (RJ), posso acusar de adultério a mulher de um vereador nas ilhas Papuas (se é que lá existem vereadores). Não me custa nada, além do acesso normal ao meu equipamento.
No caso do Google e de outros provedores mais sérios, acredita-se que haja uma rotina técnica que impeça certos abusos, inclusive por uma questão de credibilidade. Mas o universo virtual é mais infinito do que o próprio universo que os cientistas declaram finito.
Tudo fica possível, como queria Machado de Assis.
Outro dia, numa discussão sobre o assunto, o Gabeira considerou a parte mais irresponsável da internet como instrumento do ressentimento e do ódio. Além da invasão da privacidade em muitos casos, há o insulto ou a denúncia sem possibilidade de a vítima replicar ou contestar.
No meu caso pessoal, já tomei conhecimento de que publiquei um livro que nunca escrevi ("Cadernos do Fundo do Abismo") e de que sou feliz possuidor de uma excelente criação de búfalos na zona missioneira do Rio Grande do Sul.


CARLOS HEITOR CONY - 29 Sep 2011 


Uma pausa necessária




RIO DE JANEIRO - Não costumo escrever sobre os livros que recebo. Faltam-me o critério crítico e o mínimo de conhecimento técnico para abordar um assunto que conheço mais por instinto do que por gosto. Mesmo assim, sinto de minha obrigação falar sobre dois livros recentemente lançados que, além de sua importância intrínseca, valem como instrumentos de formação humana e cultural.
"História da Literatura Brasileira", do poeta Carlos Nejar, é uma pequena enciclopédia que trata da carta de Pero Vaz de Caminha à contemporaneidade. Extensa no tempo, é intensa na penetração dos autores que formaram a nossa cultura, não apenas a cultura literária em si, mas o patrimônio espiritual que nos liga como nação, cujos valores humanísticos Nejar focaliza com a autoridade que conquistou em sua já longa caminhada literária.
O outro livro é também de um poeta e trata de poesia. Tem um valor didático e necessário, pois abre um território até hoje pouco explorado pelos nossos autores. "Poetas da América de Canto Castelhano", de Thiago de Mello, é uma antologia de excelente bom gosto dos maiores poetas de nossa língua irmã, de Jorge Luis Borges a José Martí, de Gabriela Mistral a Pablo Neruda, um elenco monumental que, em parte, é desconhecido pelos leitores brasileiros.
Quando estive em Cuba, como jurado do Prêmio Literário Casa de Las Américas, fiquei impressionado pelo desconhecimento recíproco dos autores latino-americanos. Somente um colombiano, o poeta León de Greiff, que por sinal está presente na antologia do Thiago, conhecia alguma coisa de Drummond.
Nejar e Thiago são dois operários que construíram uma obra que faz parte de nossa perspectiva literária e cultural. Os dois livros que aqui lembrei honram o nosso momento editorial.


CARLOS HEITOR CONY - 20 Oct 2011 

Ainda é cedo




RIO DE JANEIRO - Aconteceu com Saddam Hussein, Bin Laden e, agora, com Gaddafi. Líderes importantes, como Obama, declararam que o mundo ficou melhor sem eles. É possível. Numa das perseguições aos cristãos durante o Império Romano, um dos Césares mandou erguer uma coluna que até hoje existe, declarando que não havia mais cristão na face da Terra e que o mundo seria melhor.
Não estou comparando nada com ninguém, apenas lembrando que o alívio da humanidade quando morre um ditador criminoso, como Gaddafi, em geral é um alívio mal informado. Quando Júlio César foi assassinado, Brutus comunicou à plebe que o tirano estava morto -e recebeu aplausos. Foi preciso que Marco Antônio, logo em seguida, pronunciasse seu famoso discurso para reverter o sentimento do povo.
E depois do primeiro César (o mais importante deles), vieram outros como Calígula, Nero, Vespasiano etc., que não tinham sequer o passado glorioso do conquistador das Gálias. Mesmo assim, o assassinato de ditadores, segundo Shakespeare, seria uma cena repetida ao longo dos séculos e em países que nem ainda existiam naquele tempo.
Nos impérios orientais, a sucessão de tiranos sanguinários foi quase ininterrupta. A situação na Líbia, mesmo com a queda e a morte de Gaddafi, está longe de ser tranquila. Não é hora de soltar foguetes, muita coisa ruim ainda pode acontecer naquele país sem tradição democrática.
Lembro igualmente aquele tenor que, depois de cantar a ária principal de uma ópera, foi vaiado vergonhosamente pela plateia enfurecida. Atiram-lhe ovos, tomates e sapatos. Resignado, enfrentando de cabeça baixa a irritação e os insultos do público, o tenor limitou-se a dar um aviso que, na realidade, era uma ameaça: "Vocês não viram nada. Esperem pelo barítono!".


CARLOS HEITOR CONY -  25 Oct 2011 

quarta-feira, 21 de agosto de 2019

Prazo de validade




RIO DE JANEIRO - "No meu tempo, já existiam velhos, mas poucos." A frase de Machado de Assis nos leva a supor que havia mais velhos quando ele próprio se tornou um velho. E hoje, muito mais ainda, embora os manuais de redação recomendem que não se fale mais em "velhos", mas em "idosos".

Não parece, mas a humanidade, com todas as conquistas técnicas, científicas e sociais que adquiriu ao longo dos séculos, não sabe ainda lidar com aqueles que se esquecem de morrer e passam a engrossar a legião de idosos ou velhos -dá na mesma.

Houve um povo na Antiguidade que pegava todos aqueles que tinham validade vencida, levava-os a um precipício e ficavam livres de uma boca a mais para sustentar. E de conceder meia-entrada para os jogos da próxima Copa do Mundo -conforme deseja a Fifa e o Brasil está propenso a aceitar a discriminação.

Pelo costume nacional, estudantes e idosos teriam direito à meia-entrada. Mas é fácil descolar uma carteira de estudante.

Mesmo assim, conhecendo o jeitinho brasileiro de tirar vantagem em tudo, é possível que os estádios fiquem lotados de velhinhos com carteiras catimbadas e muitas, muitas bengalas, todo mundo expectorando -será um espetáculo à parte.

Aliás, um dos problemas que ameaçam a humanidade é a perspectiva de vida que a medicina e os hábitos saudáveis recomendados pela televisão ajudarão a aumentar o time dos idosos.

Juntando tudo com a pílula anticoncepcional e as medidas que alguns governos estão tomando para evitar a explosão demográfica, limitando o número de filhos (na China já existe lei a respeito), em breve todos teremos direito à tal meia-entrada da Fifa, passagens grátis nos transportes coletivos e filas especiais nos bancos e nos guichês das empresas aéreas.


CARLOS HEITOR CONY - FSP.27 Oct 2011 

sábado, 13 de abril de 2019

Areias de Portugal


– Carlos Heitor Cony


No meio do quintal, ao lado da casa, havia a mangueira, enorme, de um de seusramos o pai pendurara um balanço que teve seus dias de glória até que meu irmãodele se despencou. Minha mãe iniciou campanha feroz e bem-sucedida, o balançoserviu de lenha numa fogueira de Santo Antônio.

Naqueles dias, Humberto de Campos publicara uma página de suas memórias,evocando o cajueiro de sua infância. Meu pai lera a crônica para mim. Recortei-a dojornal e quase a decorei. Pior: procurei imitar o menino que subia nos galhos maisaltos e gritava: “Assobe, assobe, gajeiro, naquele topo real, para ver se tu avistas terras de Espanha, Otolina, areias de Portugal!”.

Passei a subir nos galhos mais altos, onde descobri um nicho no meio das folhas verdes e perfumadas – como só as mangueiras sabem ter. E lá de cima eu também gritava aos ventos da Boca do Mato, garantindo que via terras de Espanha, quando,na verdade, via apenas os tetos cor de moringa da vizinhança, ao longe a torre mais-que-branca da Matriz de Nossa Senhora da Guia e, depois, a formidável massa azuladado pico da Tijuca.

Pois ontem, tantos anos depois, sonhei com a mangueira dos dias antigos dopassado. No sonho, ela surgia destacada, talvez mais alta e mais espetacular. E comona paisagem do sonho era quase noite, ela parecia iluminada por dentro, um poucofosforescente, mas sem dúvida era a minha mangueira, intacta, esperando por mim.

Olhei-a bem e não foi difícil encontrar, em seus ramos mais altos, o nicho defolhas verdes e perfumadas – como só as mangueiras sabem ter. Lá estava ele, também,intacto, reconheci até mesmo o galho mais forte em que me segurava com maior confiança, deixando a outra mão livre para proteger os olhos do sol e dos ventos domar largo. E de onde o menino, que nada vira do mundo até então, assombrado,avistava terras de Espanha, areias de Portugal.

 Carlos Heitor Cony (in "Eu, aos pedaços" - Ed. Leya, 2010)

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Entre todas as crônicas publicadas no livro, tem alguma que você goste mais? Por quê? "É difícil responder. É o caso de perguntar ao pai ou a uma mãe que tem vários filhos qual é o filho predileto. Tenho a impressão de que gosto mais da “Areias de Portugal”, porque acho uma crônica bonita e verdadeira. Eu subia na árvore e via o mundo todo. Não estava vendo nada na verdade, só os telhados dos vizinhos, mas estava vendo coisas longe. Quando era criança, fazia muito isso, subia em árvores e ficava vendo coisas. Então essa crônica diz muito de mim mesmo." (de uma entrevista, publicada no Segundo Caderno do Jornal o Fluminense, em 27/06/2010.)