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domingo, 14 de maio de 2017

Hoje, que já beijei minha mãe, beijei e ao menos falei com outras das minhas muitas mães, pela primeira vez falta uma delas, a minha avó Amélia, com quem tentei aprender muito da arte do silêncio, da palavra de corte.
Encantada no último natal, cada filho ficou com uma orquídea, depois de deixarem flor e talo no caixão. Foi um adeus de beleza, digno de tudo que ela foi conosco, foi também essa chance de elo material com o que se perde na perda dela. No dia seguinte, eu plantei algumas daquelas orquídeas para todos que pediram e não sabiam bem como replantar esse dom, hesitante se conseguiria vê-las de novo em flor, como sei que não verei a flor da Amélia.

Assim pensei, mas esta semana floriram algumas daquelas orquídeas, floriram fora do próprio tempo, porque só costumam dar botão uma vez ao ano, então só deveriam voltar daqui a seis meses. Vieram antes, em flor, pra eu ver agora que levo eu também uma flor de Amélia comigo, que sonho medrar comigo, em mim, fora dos tempos, quando menos espero. Eu fiquei sem a orquídea, que é dos filhos (a da foto é de Sergio Flores, meu pai e também uma das minhas mães), mas levo meu florir de neto. Evoé, Amélia, Dona Menininha!

Guilherme Gontijo Flores

domingo, 12 de fevereiro de 2017

ADUMBRA

"Mas como nós falássemos a mesma coisa
as mesmas coisas mesma língua & dialeto
parecia possível retratar as margens

de cada termo contratar o nosso acerto
nas mãos do mundo & apertarmo-nos as mãos
entre toques & dedos & a carícia calcinada

dos dias numa nova ordenação do cosmo
então num gesto fácil nomear o mundo
flores de toda espécie com seus gostos cores

seus caules folhas frutos formas invisíveis
ou que nunca aprendemos por nunca querermos
por só preguiça de androceu & gineceu

seus novos nomes poderiam ser mais nossos
ao inventarmos juntos palavra a palavra
toda a sintaxe enquanto descemos a senda

encravada de asfalto nos veios da serra
neste carro qualquer os pés esvanecidos
por baixo do painel as mãos ainda pensas

ainda que sentados o olho sobre o vidro
anuncia a tormenta cinza sobre a mata
compostos de amarelo & púrpura & carmim

preenchem o que resta no pouco de céu
que ainda se desnubla neste fim de dia
enquanto desbotoamo-nos nalgum sorriso"

Trecho do  ADUMBRA | de Guilherme Gontijo Flores

[ edição da Contravento Editorial]


sexta-feira, 5 de junho de 2015



não basta o rio murmúrio
adocicado das águas
rumo certeiro transparência
do olho d’água
desaguar suave sua torrente
não adianta fonte pura
ou perpétuo devir dos rios
como se fosse foz
seu único destino
não basta o rio –
cruzar a vida como esquina
sem banzeiro que revire a via estreita
nem
sorrir pra cantilena ilusória do mar –
carece macaréu em barro & areia
arrancando as árvores revendo
o próprio rumo estrondo só
sal revoluto
o corpo inteiro em pororoca

 Guilherme Gontijo Flores, poeta e tradutor premiado (apca e jabuti de tradução e finalista do portugal telecom de poesia), estará novamente em mallarmargens com poemas de livro lançado pela Kotter Editorial. 

 Fonte Jandira Zanchi

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

Guilherme Gontijo Flores

Juiz: Qual é a sua profissão?

Brodsky: Escrevo poemas. Faço traduções. Suponho...

J.: Guarde as suposições para o senhor! Porte-se de modo adequado! Não fique em cima do muro! Olhe para o tribunal! Responda de modo conveniente a uma corte! (para mim) Para imediatamente de fazer notas, ou expulsarei a senhora daqui! (Para Brodsky). O senhor tem um trabalho regular?

B.: Eu pensei que se tratasse de um trabalho regular.

J.: Responda a questão!

B.: Escrevo poemas. Pensava que seriam publicados. Suponho...

J.: Não nos interessam as suas suposições. Responda à questão: por que o senhor não trabalhava?

B.: Eu trabalhava. Escrevia poemas.
[...]

J.: De modo geral, qual é a sua especialidade?

B.: Eu sou poeta. Poeta-tradutor.

J.: Quem decidiu que o senhor era poeta? Quem o classificou entre os poetas?

B.: Ninguém. (Sem qualquer desafio) E quem me classificou no gênero humano?

J.: E o senhor estudou com tal objetivo?

B.: Qual objetivo?

J.: De se tornar poeta. Não tentou fazer os estudos superiores para se preparar... para aprender...


B.: Eu não pensava que seria possível aprender isso.

terça-feira, 24 de dezembro de 2013

Poema inédito de Guilherme Gontijo Flores (Brasília, 1984).


pra que lado isso poderia não ser uma
'talvez' pergunta? feito afirmar-se faca cega
como quem segue seu destino numa via de mão única
como amar seria correr sem descanso
todas as linhas de metrô pulando por todo o dia e à noite
escondido nalgum vagão
fincar-se numa cabine qualquer por anos a fio
(quem sabe horas) a metros e metros
de uma possível química solar
e a pele se descora e se descola aos poucos
da sua ossada a coluna arqueando
os pés tirados pra balanço
os olhos revirados crânio adentro
na esperança de encontrá-la
eldorado concretada
sob os escombros do trianon

§
Guilherme Gontijo Flores é um poeta, tradutor e crítico brasileiro, nascido em Brasília em 1984. É graduado em Letras pela UFES, e mestre em estudos literários pela UFMG com a tradução integral das "Elegias" de Sexto Propércio (43 a.C. - 17 a.C.), no prelo. Hoje é professor de Língua e Literatura Latina na UFPR e termina seu doutorado na USP, sobre as "Odes" de Horácio (65 a. C. - 8 a.C). Já publicou traduções de "As janelas, seguidas de Poemas em Prosa Franceses", de Rainer Maria Rilke (em parceria com Bruno D'Abruzzo), e de "A Anatomia da Melancolia", de Robert Burton, em 4 volumes. É cofundador da revista escamandro, que publica poesia, tradução e crítica. Seu livro de estreia, "brasa enganosa" (São Paulo: Editora Patuá), foi lançado este ano.

Mais poemas do autor aqui: http://revistamododeusar.blogspot.com.br/2013/04/guilherme-gontijo-flores.html

domingo, 6 de outubro de 2013

the multitudinous seas incarnadine


cruzemos os braços
assim cruzando a rua
o teu no meu
como um cordão
que pisoteie as avenidas
até migalhas
qual é o teu partido
alguém pergunta
eles não sabem nada
enquanto toma parte
da situação
quantos são os teus nomes

ou são sorrisos
um olho arde
a noite explode na cidade
ao fim dos rasgos
teu olho arde
é verde ou preto
contra um céu cinzento
e sem catástrofes
meu olho arde
contra o teu
o olho arde
é um cordão

eles só sabem medo
quantos centavos são
eles
e quem são eles
ou quantos somos
eles só sabem medo
porque não cuidamos
não cuidamos de saber
hoje eu te beijaria
você tem nomes
alguém pergunta
a noite explode nas cidades
causando um pânico incendiário
dos telejornais

os braços dados
não será televisionada
os braços dados
quem vai prender
as nossas gargalhadas
os braços
quem contaria as balas de borracha
quem vai prender as nossas gargalhadas
os braços dados
as nossas gargalhadas
por entre evolações
de gás lacrimogêneo


Guilherme Gontijo Flores

Poema extraído da antologia Vinagre, organizada por Fabiano Calixto.