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terça-feira, 2 de junho de 2026

Tua ilegibilidade se tornou dunas
nas minhas mãos: jogos de espelhos, narrativas encaixadas
e um engulho nas madrugadas turvas.
Viver é dócil e assombroso ao seu lado.
Todavia, me descubro menino e ancião cansado
quando falas e vibras tuas mãos no quarto amplo demais.
Mas quando te vi perdida
me reconheci sórdido como um vilão de Alexandre Dumas.
Não te peço nada, só o perdão
pelo sacrilégio de existir num mundo que nos desconhece.
O amor não é palavra que se soletra impunemente.
Penitencio-me por ousar descobrir todos os seus sinônimos
no meu velho dicionário de impropérios.
Amo-te como um crápula, como um cervo ferido
na Floresta Negra,
como um traficante da armas na Abissínia, como um anjo.
Amo-te e quero te possuir mais a alma que o corpo.
O corpo é doido e não raro nos desengana.
Viver é dócil e assombroso ao seu lado, eu já disse.
E é este assombro que me alimenta,
hoje, às três horas
da tarde de uma quinta-feira de um mundo sem sentido.

Otto Leopoldo Winck

quinta-feira, 13 de agosto de 2020

 

entre uma noite

e outra

um ligeiro fulgor:

esta é a vida

isto é tudo

que temos

e somos

 

por isso vamos dançar

ébrios da luz

dessa chama breve

que a vida

é este pouco

este quase nada

 

isto é tudo

e este tudo basta:

 

uma chama

um chamado

uma dança

de duas breves

borboletas

 

Otto Leopoldo Winck

 

quero me cortar

com gilete farpas lascas latas

e cacos de vidro

quero sangrar

chorar estrebuchar dançar

e grafar no muro mais sujo

teu santo nome em vão

quero viver morrer matar

me alistar na legião estrangeira

farcs hezbolah pkk

só pra aflorar

teu instinto maternal

e te ouvir gritar

meu bem meu bem

não vá

 

Otto Leopoldo Winck

TEU NOME

 


 

Teu nome poderia ser Suzana

se não houvesse tantas

neuzas, solanges, beatrizes

santas

ou não-santas.

 

Teu nome poderia ser Silêncio,

se não doesse tanto.

 

Mas dói e no entanto eu canto e rimo

sono,

sino,

carne.

E rimos sem querer,

porque o instante existe e a canção é tudo e derramamos vinho no tapete.

 

Teu nome poderia não ser nada,

uma palavra que o vento esqueceu

de madrugada,

em algum velho banco de praça,

velho canto de bar

(lugar-comum, não é?).

 

Espelho, por que me olhas com meus olhos?

Infiel! Enquanto eu viro, tu me trais e envelheces.

Teu nome poderia ser... sei lá!

Ser, simplesmente ser.

Mas dói

e é triste acordar todos os dias

com a saudade de não-sei-o-quê.

 

(Olha, enquanto falávamos

a porta bateu com o vento

e o tempo passou

e passamos também.)

 

Teu nome poderia ser Saudade

porque este sol morreu

e em seu lugar

o luar não veio

e ficou em meus dedos somente

a leve sugestão de um seio.

 

Porém,

perdido vou me refazendo no caminho

e buscando aflito

a sina,

o sinal,

e o sentido

do teu nome.

 

Otto Leopoldo Winck

 

(Do "Flor de barro".)

 

Por que perturbamos

o fluxo dos dias

com nossas retinas

cheias de cobiça?

 

Melhor descansar

e esperar que o outono

leve enfim as folhas

do verão fanado

-- e nos acostume

ao sono sem sonhos

que em breve seremos.

 

Otto Leopoldo Winck

BEAT

 


 

entre a santidade

e a insanidade

não há mais que um vão

 

pois é: passei o Rubicão

 

sou agora

– totalmente perdido

e beatificado –

pura iluminação.

 

Otto Leopoldo Winck

NIETZSCHENEANO

 


As musas estão mortas

e o Espírito do Senhor já não me visita com a mesma regularidade.

Ando a esmo,

procurando o outro no mesmo

e o todo no nada.

Ainda resta

uma réstia de sol detrás dos últimos edifícios.

Mas é difícil virar a esquina, engolir a saliva

quando, morto o amor, não sobra nem raiva nem rima.

Mas quem sabe

se eu te visse sem blusa,

do grande caos que há em mim

nasceria

uma estrela bailarina.

 

Otto Leopoldo Winck