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sexta-feira, 10 de junho de 2016

Recolho-me na escura caverna,
Onde nem as sombras me distraem
Desta mágoa hodierna
Que continuamente me inferna,
Quais lágrimas que caem
Sem que meus olhos desmaiem
E se cerrem nessa noite eterna
De sonhos que p’rá morte me atraem…
… e soubesse eu disto que me prosterna,
Não ficaria a ver as veias que se esvaem,
Rasgadas p’lo ímpeto que me desgoverna.
Luís Corredoura 

domingo, 15 de maio de 2016

Eu sou aquele que por aí anda sem saber
O que será de si se um dia tiver que parar
Porque minha vida é isto mesmo, é buscar
Os muitos de mim deste só que julgo ser.
Sou também o que vai passando sem se ver,
Quem não é visto p’los demais a procurar
O nada que é tudo e p’lo qual posso matar,
Mas só eu, sem que tal se logre perceber.
É uma demanda que me leva a nenhures,
Mas que vou fazendo até ao dia derradeiro
Pois sei que estou por aí perdido, algures,
Esse que entre tantos é o eu verdadeiro,
Oculto ou visível, conforme os áugures,
Que nunca m'indicam o trilho por inteiro.
Luís Corredoura 

sábado, 6 de fevereiro de 2016

.. e mais um pouco deste nada que julgo ser.
... assim, como se escapa desta verve
Aquilo que ouso reviver d'antanho,
Minh'alma é o que sou desse tamanho
Desde que algo de mim mesmo conserve...
... e entre letras, que um pouco me preserve
Do que me sobeja de um jeito tão estranho
Quando o demais que me cerca é tão tacanho
Por muito que o mundo ausculte e observe...
... assim, num solilóquio que ninguém escuta,
Triste vou falando para ouvir o próprio eco
Do que este vago olhar algures perscruta,
Esse eterno vazio onde me redimo e peco
Sempre que algo de mim do nada desfruta
Para resgatar tudo o que tenho e hipoteco.

Luís Corredoura dixit
Queria falar-te do que fui, mas isso não consigo,
Prende-se-me a língua, turva-se o raciocínio,
E divago - oh, se me perco!... - num imenso domínio
Dessas dolorosas memórias, meu eterno jazigo.
Queria algo dizer, o que sou, por onde sigo,
Onde deposito de mim esse sacrossanto escrínio
Que contém as lembranças desse assassínio
Sempre que tento confessar-me e nada te digo.
Queria que sentisses um pouco desta tormenta,
Aqui, nesta pedra sob a qual o espírito se espalma,
Cujo peso do pecado meu fraco corpo não aguenta
Quando certeza tem que longe de ti tudo se acalma,
Nesses mundos irreais que só ele sabe e inventa
Para aí ser o que fui quando libertei a minha alma.



Luís Corredoura dixit