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quarta-feira, 9 de outubro de 2019

O avesso do espelho: O Extermínio



O extermínio das maravilhas propagadas pelos versos, retratos e canções de amor causou choque e inconformismo quando foi divulgado à sociedade. Não se podia mais negar as traições, nem florear o desejo sexual. Não seriam toleradas as lágrimas em busca de perdão; nem as juras de amor eterno feitas antes e durante o coito. Que fossem todos apenas sentidos, sem mentiras!

Sexo não é amor – determinou-se. Sexo é instinto – justificavam. Quem quisesse sexo, a partir de então, deveria ser sincero e aberto à justa negação. Não, era não; sim era aproveite. E quem não estivesse de acordo com as novas regras, que desembolsassem suas espécies para comprar o direito ao gozo.
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Rejane Marques   

                
redutonegativo.blogspot.com


terça-feira, 3 de julho de 2018


Rejane Marques    
        
O extermínio das maravilhas propagadas pelos versos, retratos e canções de amor causou choque e inconformismo quando foi divulgado à sociedade. Não se podia mais negar as traições, nem florear o desejo sexual. Não seriam toleradas as lágrimas em busca de perdão; nem as juras de amor eterno feitas antes e durante o coito. Que fossem todos apenas sentidos, sem mentiras!

Sexo não é amor – determinou-se. Sexo é instinto – justificavam. Quem quisesse sexo, a partir de então, deveria ser sincero e aberto à justa negação. Não, era não; sim era aproveite. E quem não estivesse de acordo com as novas regras, que desembolsassem suas espécies para comprar o direito ao gozo.
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                O avesso do espelho: O Extermínio
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quarta-feira, 23 de maio de 2018


            
A aglomeração de assentamentos lhe causava arrepios. Apesar do silêncio, era com se pudesse ouvir os clamores das entidades e seus cavalos vibrando no entorno de cada uma das imagens. Enquanto abaixava-se em frente ao seu guia, sentia os músculos da perna estremecerem, como resposta ao esforço. Estava no limite das forças.

Assim que fechou os olhos ouviu ao longe, nas próprias lembranças, o grito que dera antes do desmaio, seguida do domínio da inconsciência sobre si. E a força da revivência lhe envolveu em desassossego. Por medo, cessou a entrega, arregalou os olhos e encarou os olhos do santo: nada fazia sentido. Era incapaz de compreender que o cumprimento de um destino prescrito por uma consciência alheia seria a condição para a sua permanência. Como numa íntima contradição, tal entendimento anulava sua própria razão da consciência.

Contrariada, Paula se cansou de tentar uma oração que não se justificava na ausência da crença. Levantou-se com esforço, observou o espaço, deu uma volta em torno de si. Fora do eixo, pensou em sair, subir as escadas do barracão, ir para a cozinha e por lá, junto da mãe e dos irmãos-de-santo, tentar combater o desânimo recorrendo ao saciar da fome. Mas quando lembrou do gosto que tinha cada uma das refeições, desistiu. Tudo o que ela precisava era de um pouco de tempero, de sal, de cor, de força – enquanto que os pratos possíveis tinham apenas dissabor. Diante da prévia insatisfação, foi alcançada por uma resposta certeira que, mesmo não sabendo saber de onde partira, lhe tomou: Esse lugar não é para você, menina. Fuja daqui.

A crença de que aquela voz não fora íntima a fez esquecer dos rituais de confirmação e da representação de uma fé que nunca houve dentro de si. Pegou a imagem de seu guia, a comida oferecida ao santo e foi embora, sorrateira, escondida. Saiu do quartinho, assumiu o caminho do portão. Partiu em busca de um lugar que amparasse não só as suas lidas; mas também as suas escolhas. Paula foi embora, cabeça raspada, vestida de branco, rua adentro, mundo afora.


Rejane Marques .                O avesso do espelho: Desassentada



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quinta-feira, 16 de novembro de 2017


E se não é simples ser um louco sensato, um arredio controlado, um alucinado bem resolvido; também não são tão complicadas as soluções. Basta enxergar nas banalidades do mundo alguma novidade, e nas novidades, justas formas de distrações:

Nos jornais, buscam-se revoltas, e a partir delas o certificado de que a loucura foi confundida com fraqueza. Nos livros, enredos, justificativas e motivações para o próprio martírio. Nos cadernos e teclados, desprendimento: cada palavra, um soluço; cada nova razão incorporada, novas manifestações de virtude. E os lampejos de inspiração nos lançam nos braços de novas concepções de vida e de mundo. Por mais que seja inútil a postura.

E na busca pelo estancar dos poréns, a criatividade aplicada pode ser usada não só como forma de deslumbramento, mas de salvação:

Para evitar o sufocamento filosófico, morte às ideologias! Para suportar as cobranças do trabalho, a noção de cotidiano como um grande fingimento; e a participação na farsa como afronta à realidade. Para contornar a força dos revertérios, o completo domínio das variações de humor. Suprimindo os soluços desesperados, a imaginação se torna a diversão do espírito.

Por fim, são ainda necessários os resgates e contornos – já que o excesso é humano, assim como a loucura em si:

Para nos resgatar das entregas, a compreensão dos ressentimentos terrenos. Para estancar com o desespero diante da realidade, a certeza de que o presente é incessantemente mutante. Para romper com dos sonhos inúteis, a busca por necessidades palpáveis. Para encerrar com os pesadelos, a vontade de vencer.

E para aceitar a certeza da morte, se distrair com as desventuras da vida.

Rejane Marques            


  O avesso do espelho: Soluções                                        redutonegativo.blogspot.com