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segunda-feira, 28 de outubro de 2019

CANTIGA À GUILHADE*





Ai dona fea! imensa e gorda
que vigiais os meus amores!
Quereis saber se ela me nota,
quereis saber se ela me quer;
se o meu abraço a guardará,
quereis saber, ai bruxa má...

E por prazer me apunhalais
e maldizeis o meu carinho
pela qu’é luz do meu loar!
Ai dona fea! obesa e rubra,
assim vestid’en carmesim!
Jamais vos loarei toda via!
Jamais per si vós sabereis
o qu’é o calor do meu loar,
toda ternura do meu verso,
o mal e o mel do meu loar.


Igor Buys
05 de maio de 2011

_______
*Inspirada na cantiga de maldizer “Ai dona fea, fostes-vos queixar”, de Joan Garcia de Guilhade.

METAPOESIA DAS CONTEMPORANEIDADES





Do ritmo.

O ritmo em poesia
é amigo e inimigo;
particularmente deploro
aquele hi lily, hi lo
qu’inda se ausculta,
aqueles minuetos de palavras:
— ai, trililim tum tum...
Os temas mais viscerais,
os arautos mais drásticos,
sóbrios e ensangüentados
trililimtumteiam,
                            ainda...

Ritmo marcado é para as canções
e as canções são uma gota
d’harpa no oceano da poesia:
que se move livre leônico e faminto!

Textos poéticos
devem ter sim: musicalidade
— assim como os prosaicos —
mas não devem ser
musiquinhas
guardadas na caixinha
de palavras em porcelana.


Igor Buys


sexta-feira, 18 de outubro de 2019

A HISTÓRIA DA VERDADE




I

Um dia a Terra foi plana,
ao menos para uma maioria incauta e crente;
os seus limites confinavam com os grandes abissos,
os quais eram guardados por monstros marinhos.

Mais tarde se a viu do espaço, e a Terra tornou
a ser redonda, como o fora entre os gregos,
e inda ganhou uma coloração azul tingida
pelo olhar navegante que soube atingi-la.

Um pouco adiante, caiu o mito do tempo:
agora cada humano se parecia
com uma grande Serpente, toda enovelada
por sobre as cidades, por sobre os continentes
e a Terra ganhou uma forma anelar complexa:
eis a Era da Serpente que devora a própria cauda.
Logo depois, se confirmou que o espaço
comportava uma quarta dimensão,
e uma quinta, uma sexta, uma décima terceira:
a Terra, desde aí, perdeu a forma anelar
e se tornou incognoscível, a não ser através
de fórmulas e esquemas gráficos,
bem assim, o Homem, seu mais ilustre hospedeiro.
O corpo humano parecia estar em toda parte
do espaço como se o concebera, então;
os outros animais passaram a ser seus órgãos
em pleno desenvolvimento num presente
sempiterno e a Terra cabia o sonho, a fantasia,
a coisa e a não coisa, o possível e o impossível,
tudo posto num mesmo plano imponderável
pela mente nua de cada célula medíocre e cega
ali dissoluta e capaz de chamar a si mesma de
                                  eu


Igor Buys
21 de maio de 2011


terça-feira, 24 de setembro de 2019

COMPAIXÃO PELA FLORESTA AMAZÔNICA ARDENDO EM HERBICIDA




A floresta amazônica geme mudamente,
Enquanto o sujeito, o business
Derrama sobre ela o Agente Laranja.

O Caapora não soube defendê-la,
Tampouco Tupã ou Tamacavi.
A bela, variegada animália foge diante do flagelo.
Jeová nada fez, nada fará, exceto quiçá punir
O sujeito do livre arbítrio, enigmaticamente.

Entanto há um ser que se contorce com os galhos,
Que se condói e esfolha com cada palma,
Um ser que espelha a paixão da mata e se apaixona dela.
Só o homem pode fazê-lo!
Só o homem conhece a compaixão!
Nem o Deus sabe sentir o que outro sente,
Guardar na sua a carne outra, o coração do verde,
O pomo, a pétala e a borboleta de medo e ardência...

Ai, só o homem, na sua infinita grandeza e desgraça;
Só o homem é capaz da compaixão!

Deus teve de enviar seu filho à Terra,
Encarnado como homem pra saber
O que é a paixão do mundo e poder purgá-la.
Só humanos saberão o que foram os teus olhos
Quando espelharam os meus, e fomos um.
Só humanos gritarão pela floresta, erguerão bandeiras,
Tochas e hinos contra o business e o sujeito,
Estes que são o não-homem, o silêncio dos sentidos,
Das paixões e da compaixão: a lógica, o logos,
O capital, o liberalismo, o interesse.

Por compaixão, o homem voa como o pássaro,
Nada como o peixe e o golfinho, mar adentro, mar acima.
O homem é horrendo pelo que produz e o nega,
Belo pelo que sente e que o desdobra, o demonstra ilimitado.


Igor Buys

segunda-feira, 2 de setembro de 2019

CONTRAPONTO HARMÔNICO, CAUSA-ERRO E BIODIVERSIDADE





Gosto de imaginar as cidades pós-modernas
Como concertos polifônicos babélicos,
Onde as verdades determinadas,
Advindas do imo dos indivíduos,
Físicos e culturais,
Encontram sempre seu contraponto
Harmônico, seu alter ego ou Doppelgänger,
De sorte que resta ali preservada
A grande saúde da diver-
Sidade que nunca se deixa reduzir à raiz:
Está extinto o reducionismo e instituído
O caos como fonte duma verdade vetorial,
Físico-democrática, a emergir das coletividades
Como irrompe dos corpos.

Gosto de imaginar a causa-erro,
Que tomo de empréstimo a Darwin
E é muito afim da causa-errante aristotélica,
Como dissonância ou desarmonia,
A perpassar toda a cidade qual um soluço,
Ou uma onda metapólis-
-fônica diacrônica diacústica, e criativa:
Assim pelo seio da mata amazônica
Há de passar um simum vindo de alhures,
A revolucionar as estruturas quebr-
Ando as sucessões em prol da turbulência
Entrópica e da manutenção permanente
— Da biodiversidade.


Igor Buys
06 de agosto de 2011

               

segunda-feira, 13 de maio de 2019

PIGMALIÃO E REDESCOBERTA




Na pedra fria de neblinas branca,
Mármore etéreo desta folha franca,
Teu seio risco e rasgo a tua boca.

A forma tua que roubei da rosa,
Que espetalei de cada vez
Em que toquei a tua tez,
Devolvo já desde o mais fundo corpo,
E desde o imo espelho especulante,
Ao que é externo, airoso e fugitivo.

A forma tua que é o mesmo aflato
Aqui presente e de ti mesma
Transbordante, transimanente,
Com meus cinzéis ouso moldar
Em sol, em mi, em nós, em lá,
Em lua... E, ao depois, teu nome
De sussurros sei ouvir. E estacar.

Estátua viva que de trevas veste
Tua nudez (pres)ente e transparente,
Meu próprio sangue em si respira.
E o corpo nosso, material, formal,
Filho do amor, essa magia rubra,
Já me sorri... com lábios de Afrodite.


Igor Buys

15 de agosto de 2011

sexta-feira, 4 de janeiro de 2019

SÓS E NUS (ABELHA/ABELHA)






Todo mundo está só na vida.
Todo mundo está só e nu.
Já se disse que as cidades
São grandes desertos, todas elas.
Já se disse, decerto, que todo mundo,
— Mas todos mesmo, estão sós e nus,
A vaguear por sobre desertos,
Embora pisando a rua dos-homens.

Alguém me disse qu’eu estaria mais só.
Mas todo mundo deveras está só e nu,
E isso nem sequer é tão ruim.
Nada pelo que clamar o socorro dos elfos.
Nada por que temer e desfraldar alfanjes.

Outra pessoa — menina e tão tenra na vida,
Fez-me ouvir uma canção que dizia:
Talvez eu seja a menina que vai te amar...

Todo mundo está só consigo,
Mas a solidão e o ar só os sente
Quem não tem coragem de sentir as coisas.

A folha desceu pelos ares;
O pássaro se atirou dum galho trêmulo.
A gota não se desprendeu da pétala...

A teia de aranha rorejada.
O arquejo dum carro. Longe...
O estado em que os sentidos
Começam a agigantar o ínfimo,
O tênue. A abelha de cobre...
         abelha/abelha

               Abelha.

Levanto-me.
A areia na meia, o sol na nuca.

Todo mundo está só na vida.
E nu. E isso não é nenhuma maldição,
Senão o que significa tornar-se adulto.


Igor Buys
29 de agosto de 2011


               

sábado, 12 de agosto de 2017

A VERDADE E O PÁSSARO




O pássaro na gaiola
É a melhor figuração da verdade
Que enquanto está voando,
Ainda não é a verdade
E quando está na jaula,
Já não é o pássaro.



Igor Buys

sábado, 4 de março de 2017

REVERSO



Quando estiveres só,
no intervalo entre amores,
se ainda existe encanto,
dá a mão ao meu verso.

O meu verso te deita na mesa
ainda, e pisas no seu peito,
nas suas faces ainda,
com a mesma febre e ternura.

O meu verso não esquece
dos teus pontos francos,
onde gritas, onde sorris
a chorar, onde estremeces.

Há uma palavra da língua
da chama que só derramo
em teu ouvido, e o codicilo
dum sonho guardado pra ti.

A marca rosada
da tua sandália, a borda arrepiada
do teu mamilo, a gota salobra
no cálice do teu umbigo:
saudades em macro.

Retrato rasgado,
juntado com Durex; o amor via Sedex;
um gosto de língua na língua sem
gosto e um rosto na janela introvertida.

Quando estiveres só,
se inda houver chama,
dá a mão ao meu verso,
ao meu reverso: me chama.


Igor Buys

26 de maio de 2012

O ANTI E O OUTRO



Em primeiro de maio de 2011
um árabe foi morto
em sua casa
diante das mulheres amadas
esposadas, e foi morta
uma esposa, tentando defendê-lo
foi morto um de seus filhos.
Era Osama Bin Laden?
Não era? Como sabê-lo...
Entanto era um árabe
era um homem,
era uma família, mais uma
a ser chacinada. Em nome de quê?
Da vingança? Da manutenção
do mito de que o império
sempre se vinga de quem lhe resiste
e confronta?... Bem, isso, certamente:
ninguém o fez como Bin Laden.

Em primeiro de maio de 2011,
um homem foi morto,
e pelas ruas da América do Norte,
uma turba brutal urrava e saltava,
saltava e socava os ares bradando
brindando na furiosa alegria rubra,
e rubra, e rubra, e azul rota, e rubra,
rubra, rubra...
Rubra, tão rubra e rota.
Um homem foi morto. Mais um.
Mais um homem, mais um filho
uma esposa. Eram Bin Laden
e os seus?... Será que eram mesmo?
Era o filho do magnata,
o filho da família e da nação
que possui mais de seis por cento
da própria América do Norte?
Não. De mim não creio que fosse.
Não creio que fosse mais
que um dublê de Bin Laden,
mais que um seu apoiador.

Entanto apoiador quem não era?
Somos todos Bin Laden!
Somos todos palestinos, afegãos,
muçulmanos! E com um pouco
de amor: mujahadins!
Somos todos Hezbollah, Hamas!
Mas não Al-Qaeda. Pois esta
é o mesmo que América do Norte.

Um pássaro, um avião
atingiu um prédio, e outro.
Foi um homem? Fui eu,
foi você, fomos nós,
vós eles e o Anti-Cristo?
Foi Bin Laden?...
Foi um anjo, um demônio?
Uma Nêmesis ensangüentada
e exata: um gênio
um líder, — um louco...
Foram dezenove homens
munidos de facas Alfa
a derrotar um império mundial?
E num único dia, num único ato?
Foi o Cristo de retorno?
Foi o mundo que se desmoronou
e se acabou pra melhor?
Foi o começo de uma nova Era,
que se abre e raia aos poucos?
Foi o arcano 16? Nostradamus?
Zaratustra? Foi o Anti-
o Outro cordeiro santo,
revolucionário,
sanguinário de si próprio
de seus mártires, mas não só destes
e sem mostrar a outra face:
mostrando a mesma. A mesma.

Ora que honra pra um maldito
guerrilheiro
ser simbólica ou hipotética-
mente morto
no primeiro de maio.


Igor Buys

1º. de maio de 2012

sábado, 24 de dezembro de 2016

FEÉRICA




Precisei de você, apesar
dos pesares.

Precisei te lembrar (te/você, vou misturar...)
lembrar do que não houve, mas ficou
retido, represado
fossilizado, petrolificado...
em tão pouco tempo, já pré-cambriano.
Mas como tudo que é composto
desses hidrocarbonetos em reserva,
nosso futuro do pretérito (nosso ou meu: whatever)
é altamente combustível:
explode e queima, à menor centelha.

Ficou bonita nas novas fotos.
Quem sabe, algum sorriso foi pra mim, apesar
dos pesares.
Por que ter sede do leite da tua pele,
se não posso bebê-la? Se não estava escrito,
programado
não havia ensejo para isto neste tempo-espaço?...
O objetivo talvez seja a poesia.
Se a poesia é o único aposento
a única cama
onde jamais irei te deitar.

De poesia construo uma rosa, então
uma rosa feérica, possível

           alva feita
      de alma nua
e mal visível...

com que acaricie os lábios teus.



Igor Buys

sábado, 23 de maio de 2015

TELEPATIA


Quando fazia amor com ela,
cerrava os olhos
apertando-os
e mergulhava muito fundo
como fugisse ao entorno
como buscasse — a outra
para além da tona do real
lagoa adentro
de sua morna, morena acolhida.

Um dia, enquanto o fazia
ela me bateu,
me esmurrou as costas,
várias vezes... E urrou.
Saí de dentro dela
e a fitei. Atônito...
Estava triste, ferida;
virou-se.
                                 (teriam meus pensamentos
                                 sussurrado pelos meus lábios!...)
Estava tudo acabado.

Não foi necessária palavra.
Estava tudo entendido.
De algum modo.
Telepaticamente.


Igor Buys

17 de novembro de 2010

ESFINGE




A luz pintava-lhe uma face de ouro,
a treva esbatida a restante em segredos.

Olhos azuis refletindo outras cores.

Lua amarela por sobre árvores negras.
Palavras, emoções e sorrisos nossos
volviam a vapor... Noite fria.
Fogueira boa.

Vento que desalinha os cabelos,
excita na relva um cheiro de verde.

Dedos se enlaçando. Olhares
sem significações simples. Destino.

Desatino de não ter nada mais a fazer
se não devorar o amor, por ele devorado
ser e arde, gaguejar, e gemer.
Seio de ouro, ventre de negro e dourado,
cabelos de prata loura jorrando, esfinge
de unhas, enigmas. Lança minha
cravada na carne, mulher, leoa, menina.
Amor, vapor...

Silêncio. Nem os grilos ousam.

Igor Buys

17 de novembro de 2010

NESTA RUA


Postes pretos. Pingos dependurados nos fios. Noite gris ao fundo. Som de um carro que arqueja distante. Cores derretidas, formas fundidas; mundo impreciso. Poças de espelho e ácido, fogo branco a dissolver automóveis imóveis. Poças de tinta fervente adiante e outros carros queimando frios.
O salto do sapato me estala sobre o chão de pedras, cortadas, losângicas. Cigarro com gosto de água; chama exausta já se extinguindo. Preto e cinza sobre cinza e prata, sobre cinza e preto, azuis e roxos. E alguma chama vermelha, algum detalhe amarelo em qualquer parte. Atravesso
a rua, dobro
a esquina. E eis que a Lua quadrada se debruça no céu emparedado, derramando de si a su’alma feminina. Momento esperado e lento; liquoroso, amavioso vento a jorrar de tão longe... Aceno de dentro do escuro. Ternura eterna; sorriso meu entre vapores. Vislumbro-a fascinado, coberto de estrelas. E de súbito, alguém a chama, derrete-se a platina candente de seus cabelos. Janela vazia. Negra.

Respiro fundo, sigo andando; daí a dez passos,
se passaram vinte anos.

Igor Buys
16 de outubro de 2010


MEDO DE SER FELIZ


Vence esse teu medo de ser feliz.
Deixa a natureza nua pensar por ti,
ouve a voz dessa tua pele de leite
e deita a tua cabeça no meu peito.

Não se prenda ao fato d’eu largar.
Se largo, ora: primeiro agarro.
Seja positiva, mulher... Madura.

Quem vai rasgar a tua blusa.
Quem vai te deitar na parede,
quem vai bloquear o teu tapa
e beber a palma da tua mão.
Quem se não eu vai te fazer
rir e sorrir, bebendo lágrimas.

Só eu vou-me sentar no chão
para auscultar teus esperneios,
decifrando esses olhos de menina.
É sério: só os ficantes e os viados
são amigos da mulher: escolhe.

Ninguém assistiu ao formidável
enterro da tua última quimera,
somente a ingratidão, essa pantera.*
Pois se a alguém ainda causa pena
a tua chaga, arranca essa roupinha
que te esconde; mostra esses seios
pontiagudos, essa púbis de louça,
morde e suga o sangue da vida!
Vem, amor, espero-te, há tanto;
vem cortar as minhas costas com
essas unhas, que a chama é breve
e a cinza do esquecimento, eterna!

______
*Alusão: Augusto dos Anjos; “Versos Íntimos”.

Igor Buys

20 de dezembro de 2010

DE: FALAR PRA ELA



Uma palavra
Uma palavra que rompa as distâncias
As pontes quebradas
O perigo das esquinas; que salte
Os montes e os castelos de pedra.
Uma palavra de te buscar no vento.

Uma palavra de tocar, não de explicar
Ou dizer; uma palavra: gosto, beijo
Desejo da tua boca perfeita, perfeita.
Uma palavra de beber as pontas dos teus dedos
De olhar nos teus olhos
Imensos e neles ser a água da cachoeira
Verde nua mão seio abraço
Dezembro fogo, espuma estilha
Sol e primavera: cristal despedaçando cores.

E já sem nenhuma palavra
Ainda ser poesia, corpórea
Entre os teus lençóis, cabelos e sedas;
Sim uma surda poesia, suada gustativa
Capaz de te morder no lábio, de te virar
De bruços, capaz de te deitar meu cheiro
E amanhecer febril e tatuada — a poesia —,
Nessa tua pele e no teu sonho azul de céu.


Igor Buys
31 de dezembro de 2010


KÁON


Entre tantas
que tenho
não tenho
que tive
deixei
e admiro,
entre tantas que
poetiso
que não poetiso
você,
só você de algum modo
me basta e
me pertence, sem ter
pertencido em suores.

Guardo o teu scarpin
cor de maçã do amor
cor de crime e desejo
no criado-mudo meu.

Guardo um abraço
de vidro, de aurora
de bruma em brasa.

Sua foto, seu nome
escondido no verso-
-da-pele e da noite.

E nada mais peço
que permanecer
assim... perto do
perto. E inebriado.


Igor Buys
02 de janeiro de 2011

DA METAPOESIA DOS FRACOS



note que alguma poesia contemporânea
quebra linhas formais em demasia,
mas nenhuma linha conceitual é fendida:
e giram-se, ainda, as manivelas mesmas
dos calhambeques dos anos vint’áureos.

centáureos, dinossáureos modernismos
ainda contestam os parnaseabundismos.

sejamos não-acadêmicos, usemos pa-
lavras simples, versos pequenos, vidas
minúsculas: quem tem gênio é técnico,
quem tem cultura, é um esnobe, elitista.
poesia agora se aprende, e se aprende
em clubes de chá para aposentado(a)s.

Ora, direi-te aqui algumas verdades, ainda que te doas!
Quem pregará que a verdadeira beleza é interior, se não o feio?...
Quem ensinará que o espadachim é cruel, se não o derrotado, o fraco?...

Irmão: previne-te contra a gramática dos ressentidos; cuidado com a estética
[estratégica dos medíocres, dos ignóbeis!

Sejamos leões, sejamos feras soltas na linguagem! Vamos entabular o discurso
[fúlgido das coisas, deixar de lado o translúcido, o culpado, o espírito!

Haja uma alma cárnea na voz e nas bandeiras! Um coração de fogo e martelo na
[pulsação dos ritmos; viva o dizer físico, tangível, a concretude da imagem!

Quero a poesia de beijar as bocas, de abraçar os amigos; de espancar os canalhas,
[de vencer as guerras, desnudando a moral, as mentiras; clamando, berrando,
[arrancando do útero de um tempo intumescido em suores e ânsias convulsas,
[ensangüentada e viva de prantos,

— a Pós-modernidade!


Igor Buys

03 de janeiro de 2011

VEM CÁ (FRACTAL)


Vem cá
Deixa o peso físico
Sentado, nessa cadeira
E caminha, descalça, pisando
Um chão de pedra fria: gruta azul
Adentro, vem me encontrar. Vem, agora,
Vem cá. Vem ser minha, onde tudo é possível,
Tudo é real, nada é mentira. Pisa esse chão, caminha;
O que há a tua frente? Podes ver? Vem, vem pra mim, vida.
Há uma luz branca muito intensa? Como o sol, no âmago da caverna?
Então, caminha mais depressa; corre agora! Vem, delícia; sonho meu de amor.
                                     Sente o meu abraço, de repente.
                                  Sente. Deixa ser real. Beijo-te...
                               Bebo teus lábios, teu rosto. Cá,
                            Onde sempre fui teu. Mãos, luz,
Nem podes me ver, mas me sentes; barba por fazer na tua pele, pescoço, rosto.
Gosto, cheiro. Deixa... deixa ser real. Beijo apaixonado; bebo a tua saliva,
Tua respiração apressada; desalinho os teus cabelos, mordo, de leve,
O teu ombro. E beijo, beijo, beijo, beijo... Saudade: cem anos,
Talvez, de saudade da tua boca. Do mel desses teus olhos.
Vem, vem cá. Dá-me a tua mão, confia; vem fugir,
Comigo, do peso do tempo. Ai, meu amor...
Vem... Vem cá. Existe uma praia
Aqui, atrás desta via; vamos.
Vê o mar: azul, verde.
Vem cá...


Pisa a areia macia, quente. Sente, sonha. Hoje, eu peço teu sonho.
Teu seio, na minha pálpebra... Tua palma, no meu rosto, e língua.


Igor Buys

06 de janeiro de 2011

MANUAL DO AMOR À CARIOCA


Quando se encontra uma deusa
É de mister amá-la.
Por uns dois dias
Esteja inteiramente apaixonado,
Que isso convém à poesia,
E a poesia é amiga do amor,
Mas no terceiro dia,
Ou te casa, ou sê amigo,
Pois que o amor nunca pode ser estorvo
Nem para si, nem para o outro.
E quando amigo, sê escudeiro,
O mais fiel cavalariço:
Para uma deusa, esteja sempre disponível,
Tal como um primo, tal como um pai,
Que toda deusa precisa disto.
Sê cavaleiro de sua angústia,
Do seu momento de solidão
E amansa o potro dos seus temores,
Se ela te der tal privilégio.
Sê cavaleiro dos seus sonhos,
Se numa noite, sem borda ou medida,
Ela quiser comparti-los,
― Eis o teu momento de sorte.
Mas cavalheiro, abdica de sê-lo:
Isto é excesso entre mulher e homem.
Sê espontâneo, segura firme,
Olha nos olhos, rouba seus lábios.
Beija como quem se despede
Ante a viagem que está por vir
E irá durar um oceano, um continente,
Mesmo que ela seja tua vizinha.
Pois, de fato, entre cada momento
Há um mar imenso e seu naufrágio.
Amar demanda filosofia.
Amar demanda religião
Mas o único deus é o coração
E o corpo nu, seu sacramento.
Toma os seus seios como quem faz
A santa ceia: come-a, amigo, não te deites,
Que deitar é pra dormir, comer
É para a vida!
Diz a palavra de fogo, a palavra
De rua: pede o de que precisas,
Pois de outro modo, irás morrer.
Nada prometas, nada perguntes.
Ouve-a como se ouve a Vivaldi.
Nota o seu menor desejo.
E depois de tudo,
Sê como irmão: sangue do sangue,
Cúmplice de um crime perfeito.
Nada cobres: nada dispenses.


Igor Buys
31 de janeiro de 2011