Mostrando postagens com marcador naldovelho. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador naldovelho. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 18 de maio de 2020

CASA DE PASSAGEM




Eu conheço uma estalagem,
tipo casa de passagem,
numa rua arborizada,
num bairro sossegado
no limite da cidade
e quem busca seu abrigo
não precisa mais ter pressa
pois a parte que lhe cabe
na colheita desta vida
ninguém mais vai lhe tirar.

Eu conheço uma pousada,
casa branca, assobradada,
de jardins sempre floridos,
portão escancarado,
janelas e portas
permanentemente abertas,
para que na luz cheia
os de dentro possam partir
e os de fora se achegar.
 


NALDOVELHO

quinta-feira, 19 de março de 2020

POEMA INACABADO



NALDOVELHO

Louva-deus sentado na janela,
observa contrito o dia que passa.
Dentro do quarto, em cima da mesa:
pétalas, pensamentos, palavras, poemas.
Lá fora entardece, e um vento inquieto avisa:
logo-logo anoitece!
Pela janela: sol sonolento abençoa louva-deus.
Em cima da mesa: versos confessos, segredos, solidão.
Num canto do quarto, pendurada: renda portuguesa
diz que adora o poeta, que lhe tem devoção.
Agora é noite, luz da lua ilumina louva-deus.
Aqui dentro: poema inacabado,
onde palavras são pétalas, esboço de oração.


QUIETUDE DA ALMA



NALDOVELHO

Passarinhos passeiam pela sala
e um gato sonolento espiona.
conversa travada em silêncio,
cumplicidade premeditada com o tempo.
O cheiro de café coado bem forte,
pão francês, queijo branco, angu de corte,
biscoito de nata, goiabada cascão,
manteiga sem ranço, tarde macia de agosto
e uma certa brisa quente no ar.
Que tal encostar, assim, mais um pouco?
Embaraçar de vez nossas pernas?
Suas mãos mal intencionadas provocam...
O meu corpo aquecido responde.
Espreguiçadeira repousa na varanda,
samambaia chorona ao vento.
Quietude precisa da alma
que entardece aconchegada em seu colo.


terça-feira, 12 de novembro de 2019

PALAVRA DE ORDEM



NALDOVELHO

Pela coragem que às vezes me falta,
pelos defeitos, ainda os tenho,
pelas fraquezas, ainda as temo,
pela esperança que em mim padece,
pelas possibilidades a que me proponho,
pela nostalgia que apesar de tudo persiste,
pela solidão que teima em me assombrar,
pelos caminhos que gostaria de seguir,
pelas trilhas que vão dar na beira do abismo,
pelas quedas, acidentadas escolhas,
pelos desencontros, desencantos e desenredos,
por todas as coisas que deixo fora do lugar,
por aquelas que vez por outra costumo quebrar,
pelo amor que ainda não sei cultivar,
pelas teias que aprisionam meu corpo,
pela dor que tudo isto me traz,
pela crença que tenho num amanhã:
a palavra de ordem é recomeçar.

A CHAVE DA CASA



NALDOVELHO

O relógio, os ponteiros, o tic-tac nervoso,
a garrafa de conhaque pra baixo da metade.
A campainha da porta adormecida, em silêncio,
a janela da sala permanece entreaberta.
O cinzeiro lotado, o cigarro entre os dedos,
respiração afrontada, o poema, o segredo.
O ambiente em penumbra, o mês é setembro,
madrugada chuvosa, faz tempo, nem lembro,
da última vez que ouvi o seu nome.
O livro de poemas, finalmente terminei,
poucos foram vendidos, a maioria eu guardei.
Na estante da sala uma bagunça danada,
livros, corujas, cristais e cds.
Tem tempo não ando pelas ruas da cidade,
enlouquecem-me o barulho e a fumaça dos carros.
O açúcar anda alto, o nome certo é glicose,
o telefone às vezes toca, normalmente é engano.
No canto da sala um quadro inacabado,
monocromático esforço, um árido esboço.
O vaso de plantas, quando lembro, eu rego,
samambaia valente resiste a tudo.
O violão em silêncio, desafinadas as cordas,
não componho mais toadas, estou mais pro bolero,
as teclas do piano traduzem melhor os enganos.
Notícias recentes dão conta que o sonho
ficou a deriva num navio sem cais.
Ainda guardo em meu quarto a aliança, o perfume,
sua fotografia e as cartas de amor.
A chave da casa, escondida, você sabe...
Quando quiser, é só abrir a porta e entrar.

sexta-feira, 18 de outubro de 2019

GENTE ENLUARADA



NALDOVELHO

Gente enluarada
gosta de viajar nas funduras,
tem mania de desentranhar coisas
do seu e de muitos umbigos,
e costuma ficar ruminando o silêncio
até ter dele seus significados.

Gente enluarada
tem os olhos marejados pela nostalgia
das escolhas que não foi capaz de fazer,
da saudade que não consegue esconder
e das madrugadas encharcadas
de solidão e orvalho.

Gente enluarada
precisa conviver com as águas
e traz nas mãos sementes de faz de conta,
macera palavras noite e dia,
só para poder contar histórias,
embaraçar enredos, resgatar memórias.

Gente enluarada
costuma ter vida sofrida,
mas consegue sempre sobreviver à ruína
e de portas e janelas escancaradas
constrói a cada dia um sonho,
coisa mais linda de se ver.

quarta-feira, 11 de setembro de 2019


COISAS QUE SOBRARAM DO INCÊNDIO
Naldo Velho

Há um quê de delicadeza
nas coisas que sobraram do incêndio.

Vestígios de sonhos misturados a destroços...
Madeira, reboco, papeis, muitos panos.

Pela casa aos pedaços eu recordo a história
de um amontoado de livros, parte deles queimados.

Há um quê de suavidade
nas cinzas que sobraram pelos cômodos.

Luz do sol, fumaça, vidraças quebradas,
e ainda assim, eu percebo os detalhes.

Portas arrombadas denunciam o desastre,
no ar um cheiro de demolição.

Há um quê de poesia
em pode sentar num canto e apreciar os estragos.

Há um quê de magia
em poder renascer dos escombros.


segunda-feira, 2 de setembro de 2019

LUGAR NENHUM PRA CHEGAR




NALDOVELHO

No cais um navio, chegou faz um tempo. A campainha da porta há tempos não toca e o telefone quando toca: desculpe, é engano! Nas esquinas: muita pressa, poucos sonhos, muito medo, pouca conversa e o navio no cais permanece ancorado, quieto, em silêncio.
...
Da janela percebo o outono, mês de março, abandono, pássaros em debandada, prenúncio de chuva, vento varrendo a cidade, trânsito engarrafado, e o sinal demora, quando fechado; ônibus lotado, e aqui em meu quarto: apreensão! No cais o navio, ainda ancorado.

Ligo a televisão e as notícias que chegam já não causam espanto, mas ainda assim doem! Crianças marginalizadas, prostituídas, de arma em punho, soldados indigentes de uma guerra sem escolha, sete corpos encontrados e quatro deles nem tinham quinze anos! E o navio no cais, ancorado, sem sinal de partida, nada que explique a demora.

Aqui em meu peito a dor de saber o quanto somos coniventes, o quanto somos responsáveis por ação ou omissão, por termos permitido que nos pusessem à deriva, por termos aceitado a merda desse navio ancorado, em silêncio, nada que justifique tanta passividade. Resultado: nenhuma novidade no cais!

Anoitece, agora chove, e dos longes mais notícias... Parece que as coisas por lá, também, não andam nada boas. Guerra, fome, desrespeito a natureza, risco de epidemia cada vez mais presente e as pessoas ancoradas, já tem um bom tempo, em silêncio.

Pego um livro de poesia e leio a dor de uma partida: o poeta se fez de louco enclausurado em seu quarto, nostalgia sem tamanho, mazelas de um coração. Quanta beleza ainda encontro nas palavras de um tolo, de um bardo sem consolo que se alimenta da ilusão.

No cais a multidão se aglomera, ora a Deus por um sinal, que o navio parta bem depressa... Mas o navio permanece ancorado, impossibilitado de navegar, já faz tanto tempo, sem comando, não tem rumo, lugar nenhum pra chegar.



sábado, 29 de junho de 2019

E OS ANJOS RIEM DE MIM


Antes que o dia amanheça
e a luz do sol apareça,
preciso abrir as janelas,
expulsar do quarto os demônios,
quebrar vidraças e espelhos,
destruir mapas e planos,
perder o rumo outra vez.

Antes que a fruta apodreça
e os pássaros abandonem seus ninhos,
preciso cometer sacrilégios
em versos que falem o absurdo
de ruas manchadas de sangue,
e orar por este povo sofrido
que cego não enxerga o seu fim.

Antes que o meu tempo se acabe,
e o teto que me protege desabe,
preciso quebrar o silêncio,
alquimizar em mim o veneno,
poder socorrer meus irmãos,
mas ninguém lê meus poemas,
e os anjos riem de mim.



NALDOVELHO

quarta-feira, 29 de maio de 2019

APRENDIZES DO AMANHÃ



NALDOVELHO

É lindo perceber
que cada coisa tem sua história,
cada pedra, cada pétala, cada espinho,
cada trecho do caminho,
cada carinho ofertado,
cada lágrima derramada,
qualquer perda, qualquer sombra,
todo e qualquer sonho,
qualquer que seja a ilusão.

Outro dia tentei perceber
um pássaro em sua plenitude.
Sua plumagem, camuflagem,
sua história, seus pendores,
a beleza do seu canto,
e o seu voo solitário
em busca da imensidão.
Foi aí que percebi
quão frágil era a
nossa pretensão de ser.

Ontem de tardinha,
lá pras bandas do desterro,
numa conversa reservada
com certo trecho da estrada,
fiquei sabendo dos sonhos
de um imponente rochedo
que há milênios existe por lá,
e que ele almeja um dia
ser poeira de estrela,
semente de vida em outra esfera
e por lá se perpetuar.

E as águas daquele rio
que murmuram a todo instante
mistérios em linguagem de anjo
e trazem histórias sementes
de todo o lugar que há...
Quantas coisas preciosas,
poesia que transcende o poema,
pois ainda que tivéssemos mil vidas,
não conseguiríamos registrar.
Foi aí que percebi
quão pretensiosos ainda somos,
aprendizes do amanhã.




segunda-feira, 6 de maio de 2019

SEMPRE UM PUCO MAIS



Tenho fome do silêncio das madrugadas,
da paz que a plenitude dos meus sonhos traz,
de poder caminhar pelas ruas, dobrar esquinas,
explorar praças, jardins, recantos
e poder pisar nas areias de certa praia
que existe perto daqueles rochedos
lá pras bandas do meu desassossego.

Tenho fome de poder macerar minhas lembranças,
da solidão que sempre senti em minhas andanças,
da inquietude de ser tão incompleto
a ponto de preferir caminhar pela imensidão
a me afogar em lugares povoados de ilusão
e de poder alquimizar minhas verdades
até transformá-las em compreensão.

Tenho fome da ternura dos teus olhos,
da textura de tua pele branca,
das tuas marcas, sardas, caminhos, atalhos,
recantos umedecidos pelo orvalho,
saliva, suor, peçonha, espasmos,
tenho fome do teu corpo inteiro,
só lamento não poder te devorar.

Tenho fome de poder macerar significados,
de perceber que a passarada em festa
não quebra a harmonia silenciosa dos meus dias,
de saber que águas que inundam meus passos
fazem parte das escolhas que eu faço:
água de chuva, água de rio,
água dos olhos, do seu corpo, água do mar.

Tenho fome de dar vida às coisas,
de poder conversar com as pedras,
de saber delas seus segredos, suas aflições,
de poder perceber o cochicho das folhas
que falam de uma sabedoria perdida,
linguagem dos anjos que me fazem
querer viver sempre um pouco mais.

Naldo Velho

domingo, 30 de dezembro de 2018

DO QUE EU PRECISO



NALDOVELHO

Preciso da veemência
que tuas palavras revelam,
da urgência despudorada dos teus versos,
das tuas rimas viscerais e indecentes;
preciso da contundência do teu verbo
a criar imagens em minha mente.

Preciso que me leves ao delírio,
pois no bater de um coração afrontado
eu redescubro a magia que existe em mim.
Preciso habitar tuas entranhas
para que eu possa me sentir
caça abatida pelos teus dentes.

Preciso sentir tuas presas
cravadas em minha carne quente
e tuas garras a arranhar minha pele.
Preciso não mais carecer
do silêncio das madrugadas,
preciso adormecer em teus braços
e acordar como se tu fosses a hospedeira,

Preciso sentir o teu hálito,
te sentir por inteira
e em teus lábios sorver a peçonha.
Preciso morrer de paixão,
para depois renascer poesia,
palavras obscenas que brotem de tua mão.



sexta-feira, 17 de novembro de 2017

Naldo, por que a poesia?

Naldo Velho     


Porque a poesia humaniza a nossa trajetória, aumentando nossa percepção, depurando nossa sensibilidade e desenvolvendo a nossa capacidade de reflexão. E são estas coisas que nos possibilitam vivenciar infinitos matizes para uma mesma cor e nos permite saborear estas nuances.

A poesia abre para o ser humano a existência em toda a sua amplitude e o faz capaz de viajar através do imaginário das coisas que ainda não existem, fazendo com que seja possível trazê-las a realidade. A poesia transforma as pessoas, levando-as a evolução.

E é através da poesia que aprendemos a perceber o mundo pela ótica do coletivo, fazendo com que os nossos pensamentos consigam viajar livres do aprisionamento dos nossos limitados umbigos, fazendo-os promíscuos de muitos umbigos, tornando-nos mais receptivos ao diferente: brancos, negros, amarelos, índios, mulatos, mestiços de todas as espécies; homens e mulheres de qualquer opção sexual que possa existir, e não importa o credo, ou a convicção política; gordos, magros, baixos, altos, qualquer que seja a forma que o ser humano possa se apresentar, na realidade: passageiros de um mesmo barco, com defeitos e qualidades, com virtudes e fraquezas, seres semelhantes em suas infinitas possibilidades.

Se a poesia no mundo moderno fosse mais fomentada, e o meu sonho é que tal coisa aconteça a partir dos primeiros passos das pessoas, passando por todos os níveis de educação, sejam eles formais ou não; o nosso convívio seria fundamentado na compreensão e por conseqüência, bem mais fraterno, o que certamente diminuiria sensivelmente a discriminação, o constrangimento imposto ao diferente e a insensibilidade à injustiça social que hoje existe.

Por isto a poesia! Porque a cada poema eu me reinvento, eu me aprimoro, eu me transformo numa pessoa melhor, aumentando a minha capacidade de compreender.


quarta-feira, 25 de outubro de 2017

lembranças das minhas Gerais.



Tempo das águas paradas,
noroeste do quase nada.
Velho casarão, beira da estrada,
e no fundo do quintal um rio;
peixe de couro, sem escamas
e o velho Nicolau dizia: dourado!

O cheiro de zinabre,
alambique, aguardente,
pequenino já gostava
de veneno de serpente,
e Manézinho Araújo,
lá do fundo do engenho berrava:
cuidado menino, isto vicia!

Trilhos que sangram cidades,
rede ferroviária, Maria Fumaça,
Recreio, Leopoldina...
E eu dizia: Vô Salvador!
Quando eu crescer
vou ser maquinista.
E ele a sorrir dizia:
cuidado menino, dormentes de trilho,
sangrar as Gerais...
Isto vicia!

Tempo das águas paradas,
Lagoa dos Inclusos,
noroeste do quase nada,
caminhos sangrados, entranhas,

lembranças das minhas Gerais.

NALDOVELHO

sexta-feira, 13 de outubro de 2017

AS COISAS QUE PENSO QUE SEI


Só os poetas sabem
adormecer pedra e despertar solidão,
materializar o abstrato e fantasiar objetos,
miscigenar sonhos e atravessar o concreto,
se conectar aos pássaros e preencher os espaços,
construir pontes que resgatem o abraço,
destruir muralhas que aprisionam a ternura,
e derrubar templos que incitam a loucura.

Só os poetas sabem
lustrar significados esquecidos nos escombros,
encontrar detalhes no meio da imensidão,
conversar com as águas nos meandros de um rio,
espalhar sementes de palavras no cio,
extrair do orvalho a cura para o tédio
e da delicadeza o poderoso remédio
que irá suavizar nossos corações.

Eu que nem sou poeta,
apenas, deixo aqui meu testemunho
sobre as coisas que penso que sei.


 NALDOVELHO

terça-feira, 10 de outubro de 2017

QUANDO MORRE UM POETA


Aos poetas Nilton Alves, Marcio Carvalho
e Reinaldo Sanches falecidos recentemente,
e a poeta Marici Bross falecida no dia 24/11/2007

Um vento varreu entranhas,
espalhou pela casa guardados,
palavras, versos, poemas,
imagens estranhas, loucura,
cartas, retratos, recortes,
folhas de papel manuscritas
de um livro não terminado.

Espalhou pétalas de rosa,
é bem verdade, também espinhos,
folhas secas, lembranças de outonos,
e um frasco inteiro de perfume,
espatifado no chão da sala
impregnada pela essência dos sonhos
que um ser poeta sonhou.

O vento que varreu entranhas
quebrou vidraças, espelhos
e um porta-retrato com a sua imagem.
Derrubou prateleiras e livros,
espalhou pelo chão meus CD.s
e minha coleção de pedras e de corujas.

O vento que varreu entranhas,
abriu portas, escancarou janelas,
arrebentou samambaia chorona,
destruiu renda portuguesa,
derrubou gaiola de pássaro...


Canário da terra aproveitou e voou!


NALDO VELHO

segunda-feira, 9 de outubro de 2017

AUTOFAGIA



Lapidar frases,
trazer o tempo certo a cada verso,
viajar por metáforas, cultivar imagens,
descobrir a palavra exata
e sempre numa nova abordagem...
Ofício de poeta!

O resto?
A emoção, o conteúdo?
Coisa de ser humano!

O poema?
Filho bastardo desta grande putaria.
Santa promiscuidade:
o poeta devorando o homem,
e o homem a se alimentar do poema.

Autofagia!


 NALDOVELHO

domingo, 1 de outubro de 2017

MEU RIO


Meu rio tem águas de mover moinho
e serpenteia pela vida a fecundar sementes,
e a esculpir tessituras nas pedras,
testemunhos dos seus ais.

Meu rio tem águas que correm suaves,
mas já foi de corredeiras, enchente,
a derrubar muros, comportas
e a destruir o que via pela frente.

Meu rio já foi muito inquieto!
Hoje, nas derradeiras dobras do seu curso,
gosta de ser acariciado pelos ventos
que extraem dele murmúrios de Paz.




 NALDOVELHO

ALUMBRAMENTOS



Por conta de alumbramentos,
resolvi cultivar distâncias,
e plantei-as em lugar propício
ao lado de um pé de jasmim.
Dizem que dá uma flor solitária,
e que é bom ter muito cuidado,
seu perfume leva ao delírio
e faz ver coisas estranhas
brotadas de dentro de mim.

Plantei também mudas de desengano,
propícias ao mês de outubro,
suas folhas são excelente remédio
na cura da inquietude e do tédio,
e as flores nascem em pencas,
melhor então que seja assim!

Só não consegui cultivar ainda
o silêncio de versos que chorem...
Estes, melhor deixar mais pro fim!




 NALDOVELHO

sexta-feira, 29 de setembro de 2017

ODE AO POETAS


NALDOVELHO

Poetas deviam ser presos,
amordaçados num lugar em segredo,
a sete chaves, longe dos meus medos.
Impedidos de alquimizar palavras,
e todos os poemas rasgados.

Poetas deviam ser abortados!
Por que cismam de nascer teimosos
e revirar entranhas, abusados?
Por que vivem de invadir intimidades
e revelar pensamentos roubados?

Poetas, criaturas estranhas,
sonhadores, inúteis, coitados!
Aranhas presas em suas próprias teias,
veneno que corre em suas próprias veias.

Poetas, porque os quero?
Já não basta a vida a que me obrigo?
E a poesia que trago comigo?
Poetas, indecentes, bandidos,
caiam fora do meu umbigo!