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segunda-feira, 8 de setembro de 2014

MESES ÍMPARES DE UM ANO PAR


meses ímpares
de um ano par
que passou
dói lembrar
aqueles dias
em seguida
trinta e um dias
cravados
no ímpar
na overdose dos doze
esses são
os meses não
meses contados
no osso do soco
de um ano par
que passou


Ricardo Corona

sábado, 14 de dezembro de 2013

Leminski mostra sua audácia ficcional também nas biografias


Volume reúne textos do poeta sobre Bashô, Trotski, Jesus e Cruz e Souza




Ricardo Corona - Especial para  O Estado de S. Paulo

É conhecido que Paulo Leminski manifestou sua vontade de que as quatro biografias que escreveu fossem reunidas em um único volume cujo título ele antecipou: Vida. Por pouco o poeta não viu seu desejo se realizar. Em 1990, ano seguinte à sua partida, a Sulina publicou-as pela primeira vez. Agora a Companhia das Letras põe em circulação em um único livro as biografias: Matsuó Bashô: a Lágrima do Peixe (1983), Cruz e Sousa: o Negro Branco (1983), Jesus a.C. (1984) e Trotski: a Paixão Segundo a Revolução (1986), que, nesta ordem, haviam sido publicadas originalmente em edições individuais pela Brasiliense.


O poeta Paulo Leminski
O poeta estava certíssimo. Ler suas biografias uma após a outra deixa ainda mais perceptível a sua audácia ficcional. Uma radicalidade que é difícil de encontrar em literatura do gênero. Cabe aqui uma observação: Vida merece ser discutido ao lado de narrativas biográficas que vêm sendo produzidas na contemporaneidade que se aproximam da novela autobiográfica, da ficção com enxerto biográfico, feita a do mexicano Mario Bellatin, de Biografia Ilustrada de Mishima. Guardadas as diferenças, um tipo de narrativa da qual podemos dizer que Leminski é um dos precursores.

Em Vida, a máquina de narrar leminskiana em calibragem medida para que “verdades”, por um lado, mantivessem-se falíveis aos limites de fundo histórico, e, por outro, potencializassem-se no processo criativo. Alquimia textual para poucos e investigando sempre no limite que busca afirmar a vida como matéria extraordinária. A vida é gesto em acontecimento e, por vezes, acesso direto à história. Deste modo, objeto que requer escritas que possam satisfazer a esse rastro que é a vida em seu processo, especialmente quando este é, em si, criativo, inventivo, radical. Incluídos aí, claro, o riso e a desconstrução de si mesmo. “Bios”, do grego, quer dizer “vida”, e “graphein”, “escrever, arranhar”. Em Leminski, a segunda acepção do vocábulo – “arranhar” –, em nada – cogito eu –, pareceu-lhe desconexa.

A ideia de rasura é um agudo sentido do inacabado que expõe a palavra (graphein) à sua vulnerabilidade. Ao narrar estas vidas, entrou em jogo a aproximação e o distanciamento do verbo (verbu). Ou, mais precisamente: do seu referente intelectivo que se supõe imanente por querer registrar a verdade: “dou minha palavra”. A armadilha do verbo sempre está armada, pois sugere a quem escreve que o que se está escrevendo é à vera, ou seja, pra valer, a sério, portanto. Sobretudo em escritas de vida. As biografias escritas por Leminski assumem um pertencimento mais propriamente da literatura, da escrita criativa, ao passo que, maravilhosamente, não se furtam do acesso à história como entorno destas vidas.

Percebe-se que em Vida, desde o título até a poesia que envolve todas estas vidas, o autor se avizinhou de seus biografados e fez desta zona de vizinhança, ou melhor, destes estratos de vida, uma energia (um devir) para a sua escrita.

Ao lê-las não há como não entrar, por exemplo, nos quatro feelings preparados por Leminski para Cruz e Souza: Sabishisa, spleen, banzo e blues. E, no caso de Jesus, o que há é um profeta-poeta de antes da ideia de Cristo. A busca ao vaga-lume do haikai é a caminhada até Bashô. E Trotski? Este é um personagem de um quase romance policial, além de atuante maior da revolução russa, claro.

Leminski escreveu com extratos biográficos que melhor puderam dizer da radical experiência destas quatro vidas, o que, nas palavras de Manoel Ricardo de Lima, é “pedir providências e apontar como a vida poderia/deveria se manifestar através de uma radicalização política da arte como experiência”. E o fez num gesto duplamente amoroso, ou seja, com admiração e ousadia criativa.

É que, distraidamente, certo dia Leminski escreveu: “Podem ficar com a realidade / esse baixo astral / em que tudo entra pelo cano // eu quero viver de verdade / eu fico com o cinema americano”.

RICARDO CORONA É POETA E AUTOR DE CURARE (ILUMINURAS)


O Estado de São Paulo .Caderno2... 13 de dezembro de 2013 

sábado, 30 de novembro de 2013

ESTILO DE LA BOCA

Estilo da boca é um poema que escrevi para a querida Jardelina da Silva (fotos). Abaixo, em tradução de Víctor Sosa, da edição mexicana do meu livro Corpo sutil que sairá em 2014.

ESTILO DE LA BOCA
Para Jardelina da Silva

1.

está viva la letra...

en el rastro del enigma
mira de nuevo

(mi madre leía el libro de la tierra
y todo lo que hago es por eso)

huellas juveniles
en la húmeda floresta

2.

la luna blanca intercepta
reflejos

(soy el rabo y ellos no pueden conmigo
(cargo el mundo entero)

en la dorada arpa
del ángel desnudo

3.

clonado
sobre el filo del lago

(jardelina salvó el mundo,
desencantó a la laguna)

sobre
carpas en alborozo

4.

en el blanco del caos
en el culo de una estrella candente

(ja ja ja ja ja ja
ja ja ja ja ja ja ja)

en la primer risa
después del humano

5.

después del mono
antes de la hiena

(porque el primer indio es el chamán
¿ya lo sabías?)

el primero, después
del ni fin ni comienzo

6.

en el pasaje
en el envés del paisaje

(entré dentro de los quintos infiernos
pero todo lo que hablo es el planeta)

mira para dentro
mira para fuera

7.

Mira con la espalda
del globo ocular

(todo lo que hablo sale en un afirmado
olvidé el estilo de la boca)

deja la vieja poesía
atrás

8.

(Mi madre leía el Libro de la Tierra:

“Esa gitana, ella usa carmín,
ella usa todo lo que es tintura
y nunca deja la moda de ella,
y no acompaña la moda de nadie,
la moda de ella sólo ella la hace.”


¿cómo iba a saber que era yo?)

sábado, 26 de outubro de 2013

Dizer é fazer



Tenho desenvolvido uma escrita como gesto e ação e gostaria de fazer uma observação pontual: a escrita performática não é performance. Portanto, na escrita dos meus livros mais recentes – refiro-me a “Curare”, “Ahn?” e em “Mandrágora” (inédito, mas que será publicado em breve), trabalhei com um conceito geral que chamo desde muito de “livro-livre”, que é quando a linguagem do poético deixa de ser poesia formalmente construída, explorando mais densamente suas exterioridades, e expondo-se em sua própria expansão (chame isso de “poética”), a qual se mediaria por gestos escriturais que a atravessam de muitas maneiras. Mas o que seriam esses gestos e ações que produzem ressonâncias desde o corpo do livro até o corpo do próprio poeta?

São linhas de fuga do próprio trabalho que podem apresentar-se em situações muito simples, ordinárias, por exemplo, uma fala pública em que o autor se encontre na incumbência limiar de: 1) estruturar conceitualmente e, assim, explicar a sua poética ou 2) produzir uma escrita performática com o entorno de sua poética. Com efeito, desdobrar as sobras de um arquivo, um arquivivo. Neste momento em que o corpo se expõe, interessa-me percebê-lo como extensão da poética antes de simples estratégia, apesar de não deixar de sê-lo. A partir desse limite que considero estes gestos e ações, pois, acrescente-se, ingenuamente ou não, em qualquer circunstância, o autor sempre lerá a poesia, e, portanto, abrindo-a para um jogo.
Esta questão também é transpassada por um saber que vem de fora da linguagem e que produz no corpo escritas a partir de sobras para quem souber amalgamar a experiência à poética e assegurar-lhe a sua força na exterioridade. Por outro lado, isso não significa que podemos transformar essas ações e gestos em atos de performance, mas podemos relacioná-los com este espaço. A escrita performática não é performance: uma reserva a ser feita, uma ponderação que ressalto e que poderá ser mais bem compreendida se tomada como um conceito comum, ou seja, as fronteiras entre as linguagens são tênues quando estas escapam ao âmbito de suas categorias fixas. A escrita performática é uma linguagem tênue. Isto é uma certeza. (RC)

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Acabo de ler o livro de poemas "o silêncio tange o sino", de Mariana Botelho, que conheci pessoalmente no Seminário de Ação Poética que rolou no CCSP sob a curadoria do Claudio Daniel. Porém, antes mesmo de trocarmos livros, ela fez ecoar a palavra "silêncio" com certa singularidade que agora se confirma nos poemas do livro. A palavra veio de um de seus poemas, ditos por ela, no seu momento lá no palco e na doce companhia de Ricardo Aleixo. Ela se apresentou logo após a minha participação... Eu estava me refazendo ainda, meio atordoado... e, de repente, zuniu em meu ouvido a palavra "silêncio". Senti que não era apenas uma palavra dita e agora percebo que havia algo de singular. Continua, no entanto, inexplicável... mas não é isso que é a poesia? Muito lindo o seu livro, Mariana.
Ricardo Corona