não deixo nenhum homem
aproveitar minha juventude
o espelho do banheiro
descasca à altura de meu
mamilo esquerdo , os pelos
pubianos crescem negros
selvagens e uniformes
uma pantera pronta a dar
o bote final no pescoço
do amante imaginário.
priscila merizzio
Revista Gilda
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quarta-feira, 27 de novembro de 2019
quarta-feira, 1 de outubro de 2014
Odalisca Cativa
Flamingos engolem peixes prateados
A odalisca depena tiês-sangue machos
Costura um vestido hemorrágico
Sacoleja sua anca amálgama
A bacia e os fêmures recrudescem
Esquerda, direita, esquerda, direita
Nádegas voluptuosas sibilam
Átimo feérico
Ressuscitam os mortos de Antares
Em polvorosa decompõem-se no palco
Aplaudem putrefatos
Atiram jóias à odalisca
Bodes defecam nas coxias
A carência devora um abacaxi prosélito
Faz arruaça no Beco das Paixões
O retrato de Josephine Baker alimenta
a língua de fogo da vela de sete dias
Vênus de Ébano
A odalisca flameja a púbis de longos pelos
oxalá desconhecem lâminas
Dança, rebola, cabrocha
Ela comprime e estufa o órgão do ventre
Abrigo de um feto bastardo
Ele enrola o cordão umbilical no pescocinho
and dies blue
Priscila Merizzio
(Do livro Minimoabismo. São Paulo: Patuá, 2014)
quarta-feira, 27 de agosto de 2014
Priscila
Merizzio
Temporal
chegando. Deixei a porta do quarto aberta, sem peso de areia, e corri para a
sala, apanhar o HD externo sobre a mesa da sala de jantar. Tive poucos segundos
para fazer isso antes que a porta batesse: minha janela propositalmente aberta.
Em dias de tempestade, deleita-me correr contra o vento. Segurar as portas com
as pernas e engolir os raios com os ouvidos.
sábado, 23 de agosto de 2014
Grei dos ideológicos
Por Priscila Merizzio
barbecue na câmara bafo de bílis de sua bocarra
minha pele lixada na sua língua de boi
carne viva de poros de polvos, rastros de desentupidor de
pia
marcada com o ferro quente das águas-vivas
acomodei-me no ventre de uma baleia-jubarte
com sua voz de sirene misteriosa, ela cantava-me hinos de
alforria dos parques aquáticos
desenraizados salgueiros-chorão de suas mansões telúricas
afoguei-me em riachuelos de rãs cadavéricas e girinos
mãos bobas no magma do centro da Terra
e-mails enviados à lua cheia et à urbanoides alienígenas
Regina e Leandro flanam em minha janela: um quadro de Marc
Chagall
gaudérios e suas odes às capelinhas destrinchados por meu
cadafalso nazareno
há caudilhos na árvore materna
incinerando meus desejos nos fogões à lenha
espeto de alcatra cutuca com carvão Paris, Egito, interior
da Itália
e alma gêmeos
estampidos de estrelas racham as paredes de meus vizinhos
água incandescente vazando dos canos
exuberâncias mágicas aterrorizando índoles materiais
meus amores nadam selvagens nos cabos ópticos
dentro de ônibus interestaduais: brunette-Tieta ousando o
Nouveau monde
[Poema que integra originalmente o livro "As Herdeiras
de Lilith", organizado por Marilena Wolf De Mello Braga e editado pelo
Instituto Memória, coordenado por Anthony Leahy]
Nessa madrugada, um cara que se diz agnóstico e ateu
disse-me que uma mulher que não tem filhos está desperdiçando a chance que a
natureza lhe deu. Porque a mulher nasce com esse plus. E que as que dedicam-se
aos trabalho intelectual, sempre estarão "com alguma coisa faltando",
porque é antinatural uma mulher não ter filhos. Esse argumento saiu quando
comentei na senhora que limpa minha casa a cada 15 dias, de que ela é feliz,
que conquistou muito na vida. Citei sua casa própria, sua filha, genro, netas,
os bons empregos que tem. Antes disso, ele já havia dito que se ser homossexual
é algo natural (olha a palavra "natureza" aí de volta), os
homossexuais não deveriam defender a naturalidade de sua "escolha",
porque automaticamente todos deveriam compreender como natural então. "Não
entendo por quê eles defendem que são naturais". Foi esse mesmo cara, que
nessa mesma madrugada, disse brincando que mulheres que usam batom vermelho
durante o dia ganham muito dinheiro à noite. "Você está nessas ondas de
feminismo?", ele disse-me. "Largar o emprego para cuidar da casa e
ter filhos é uma vida feliz, muito mais feliz do que optar por não ter
isso". Ele é gaúcho e criticou meu envolvimento com as pessoas acima do
Paraná, que não devia ter fazendo amizades com paulistanos e com cariocas,
porque, segundo ele, "O Brasil é aqui embaixo. Se bem que vocês aí do
Paraná já não são mais o Sul do país". Disse que São Paulo não é terra de
riqueza, que terra de riqueza é o Rio Grande do Sul e Minas Gerais. Que São
Paulo só tem empresa. Ele fazia afirmações desse tipo, em seguida defendia-se
dizendo que era de Direita, alegando que se houver uma Ditadura Militar será
pela Esquerda. Fui dormir confusa. Acordei confusa. Tô confusa, cara, sem
sardonismo. Ele é muito inteligente ou o quê?
Priscila merizzio
terça-feira, 19 de agosto de 2014
Priscila Merizzio
Recebi um e-mail que deixou-me bem pensativa.
Tranquilamente, muitas pessoas gastam dinheiro com celulares caros, contas
telefônicas, cervejas, cigarros, maconha, restaurantes, roupas de marca,
artigos supérfluos e etc. Na hora de ajudarem com patrocínio para projetos
artísticos ou de comprarem um livro de R$35 ficam reclamando que não têm
dinheiro. Cada um compra o que quer e o que pode, afinal, somos todos livres e
temos nossas prioridades. Também não banco aqui a rancorosa, banco a lúcida.
Entenda quem tiver sabedoria para. A quantia de gente que me pediu exemplar
gratuito de Minimoabismo (ed. Patuá, 2014) não está no gibi. Logo que falei que
lançaria um livro, brotou pedinches de lugares inimagináveis. "Me dá um
livro?". Eu disse, pacientemente e automaticamente que não, não poderia
dar meu livro porque sairia do meu bolso ou da editora. Recebi caras feias de
todos os lados. Não querem comprar, não comprem, até porque, sou mascate de mim
mesma até certo ponto. Agora, ficar pedindo exemplar? Minha família e alguns
amigos viajaram de fora para participarem do lançamento e compraram exemplares.
Quero dizer, não dei livros nem para minha mãe, que em nenhum momento pediu
exemplar para ela, aliás, foi uma das primeiras a dizer que compraria livros
para me ajudar, se assim precisasse. Pelamor!
sábado, 16 de agosto de 2014
Acordei com a seguinte visão: o rapaz pássaro havia
crescido, tornado-se um belo adolescente. Eu pensava que ele era mau. Foram
encontrados mortos ele e o casal de idosos que o adotou. Seu corpo estava por
cima do homem e da mulher abraçados. Ela em contato com a terra, sorria serena.
Uma adaga de prata perfurando o miolo das asas do rapaz e o corpo dos velhos. A
manchete de jornal dizia: "assassinato ou morte combinada entre o pequeno
núcleo familiar"? Fade out da cena. Câmera expandindo e mostrando a
cidade. Não sei o que houve.
Priscila Merizzio
As jararacas escondiam-se no terreno da vó e tentavam me
morder. Não havia segurança em lugar algum. Regina Almeida foi a primeira a
alertar-me. No começo sentia medo. Depois, acostumei-me a desviá-las. Uma delas
escondeu-se na sapatilha da irmã. Objetos inofensivos embebidos de veneno. No
fim, um primo de segundo grau deu a vida por mim e deixou-se morrer. A jararaca
virou pedra e a família para sempre comemorou o feito. Ninguém sentia tristeza.
Fiquei confusa. O sonho terminou com uma voz dando-me aula sobre design de moda
esportivo.
Priscila Merizzio
domingo, 10 de agosto de 2014
barbecue na câmara bafo de bílis de sua bocarra
não foi por isso que desenraizei salgueiros-chorão atrás de
ressurreição em valas e esgotos
quis o magma do centro da Terra
atiçando sonhos à lua cheia et urbanoides alienígenas
tantos nomes enterrados em maçãs debaixo do butiazeiro
os amores correm selvagens nos desertos
ardendo as coxas nas calçadas do Velho Oeste
guiei formigas com açúcar bento
senti-me Jesus ––confrontando gaudérios e suas odes às
capelinhas
há caudilhos em minha árvore materna
incinerando meus desejos nos fogões à lenha
dentro de ônibus interestaduais: brunette-Tieta indo sempre
com sede ao pote.
Priscila Merizzio
quarta-feira, 22 de janeiro de 2014
VITAMINA DE VULCÃO
Minha única riqueza
são essas vozes que me falam
os fantasmas que bebem chá comigo
Sou feita de ossos de cemitérios
estrelas mortas e flores ardidas
Sol febril e desértico
magma vulcânico que me transporta
a lembranças hidratadas
de álcool, tabaco, haxixe e anfetaminas
ingenuidade acreditar em progresso
rock and roll melancólico
descostura meu coração
que desata do tórax
é esmagado por um ônibus no asfalto
– tal qual a cabeça do primo Johnny
Picadas de abelhas encaroçam minha pele
Onde está vó Maria com suas poções xamânicas?
Esse poema nasce espontaneamente
e desestimula abortos verborrágicos
Literatura é urina, gozo, saliva, sangue
Sorriso forçado diante das câmeras
elas captam meu obscurantismo
Já passei da idade de suicidar
Sou um Corvette estacionado na garagem
(por dentro)
acelero e explodo, nas estradas de Santos
O Astro Rei queima minha esperança
um fuzil refletido nas cicatrizes
bronzeio a pele como um frango de padaria
O Ermitão me pede calma; o Sol vai cooperar
Aos cinco anos soube o que era morrer
o sentido da dor: avante e doendo
Minhas fotografias herdadas dançam baile aos domingos
Almutem astrológico atualizado
– Saturno, Vênus, Lua, Júpiter –
Mutter, Rammstein
As matriarcas da família me desprezam
Estranhos tentam interferir em mim
Gastam suas goelas à toa
– ninguém dança tango no meu terreiro
Os animais de rua seguem-me como a uma andarilha
Prisca Merizzio
quarta-feira, 1 de maio de 2013
ANTICANÁ
escuta como o touro
do amor detona o homem
como arremessa os chifres
contra os vítreos
pulmões da calma
ouve
como estilhaça
as talhas do milagre
como os quatro cascos
calcam os cacos
de porcelana adâmica
e vê os anjos
descerem chorando
às poças da terra
sorverem o vinho
que evapora.
Priscila Merizzio
domingo, 28 de abril de 2013
Na rua, há pouco, uma mulher contou-me a história amorosa da vida de sua mãe.
Priscila Merizzio
Quando adolescente, contando quinze anos, a mãe namorou um
rapaz de dezessete. Eram dois pombinhos apaixonados que, infelizmente foram
separados por circunstâncias da vida. Pouco tempo passou e sua mãe casou-se com
o homem que viria a ser seu pai. Ela, a quinta filha, caçula, era recém-nascida
quando os dois se separaram. Na época, a mãe arrumou um namorado ricaço que
ofereceu o mundo a ela – caso deixasse a criação dos filhos por conta dos avôs.
Ele bancaria tudo. Ela mandou o ricaço às favas. Se desfazer dos filhos jamais.
Alguns anos depois, sua mãe reencontrou o rapaz que havia sido seu namorado,
quando jovenzinha. Ele havia acabado de ser abandonado por sua mulher, tendo
que dar conta de sete filhos. Não puderam ficar juntos. Não tinham condições de
sustentar 11 crianças e adolescentes. O tempo passou. Sua mãe nunca mais
namorou. Não teve sorte, parece. Ficou sabendo, anos depois, que o ex-namorado
de puberdade havia casado pela segunda vez e ficado viúvo não tinha muito.
Muitas folhas do calendário foram arrancadas até que se reencontrassem. Ela com
68 anos de idade e ele com 70. Os filhos de ambos já crescidos, donos de seus
narizes. Os dois nunca haviam deixado de se amar. Casaram-se há poucos meses,
em cerimônia grande. Ela, vestida de branco, linda como uma adolescente de
quinze anos. Ele, de terno, contente como o rapaz que espera a mulher de sua
vida aceitá-lo como marido.
quinta-feira, 18 de abril de 2013
Esboço XIX
o jabuti e a vira-lata descansam no sol
o cheiro da grama cortada é um lisérgico nostálgico que
tortura
em algum outono, há muitos anos, a alegria deve ter coabitado
em minhas falanges de otimismo
– agora tão raras
as sardas laranjadas da tartaruga lhe dão o charme ancião de
um pescoço sanfonado
o olhar apaixonado da cadela angaria-me vários motivos para
não lançar-me em um relacionamento bissexual com a Morte
– essa dama que desfila de vestido preto Chanel, óculos
escuros Marc Jacobs e perfume Givenchy
desejos secretos que o cobrador de ônibus não imagina
(o próximo biarticulado, em alta velocidade, pode ser uma das
barcas da morte de Hades)
a sacada, que já abrigou amantes clandestinos no colchão, o
bode expiatório de Ana Cristina Cesar
“Tenho certeza que, no último segundo, ela se arrependeu por
ter se jogado do apartamento dos pais”, disse-me a figura misteriosa
curiosidade felina em poder vivenciar sete mortes distintas
[cicuta, revólver, oceano, penhasco, trilho do trem
paixão]
corpo humano frágil como as esposas do joão-de-barro: nasce
do sexo, respira do tapa e morre, indubitavelmente, pelo coração
Priscila Merizzio
[Publicado originalmente em:
http://priscilamerizzio.wordpress.com/2013/04/10/esboco-xix-2/]
sexta-feira, 5 de abril de 2013
Sonhos VI
Tive uma madrugada conturbada, com o nariz entupido (rinite,
souvenir de despedida do cigarro), espirros e vários sonhos –pesadelos– bem
psicanalíticos e torturantes. Cena após cena, cada pessoa que amo, despedia-se
de mim e morria. Assinei inúmeros documentos pegando guarda de filhos,
testamentos. Minha cachorra, estava morta. Parecia empalhada. Dentro dela,
nasciam vários escargots. Esta visão me afligia. Corri pedir ajuda a uma
senhora, julgando que fosse minha avó. Na verdade, tratava-se de uma mulher com
alma de monstro. Ela me ameaçava e fazia torturas emocionais. Todos estavam
mortos. Minha mãe foi a última. Lá pelas tantas, escrevia a um diário que, eu
não estava chorando de dor, mas uivando. Podia escutar meus uivos, idênticos
aos de Lolita (Dominique Swain), na segunda versão cinematográfica (1997) ao
livro de Vladmir Nabokov. Também sonhei com meu último namorado. Ele conversava
comigo, mais cruel do que nunca, através de múltiplas personalidades. Ria
sádico de minha confusão psicológica. Seu sorriso parecia com o de Hannibal
Lecter, em The Silence of the lambs (1991). Diabólico. Lá pelas tantas, fui
lançada em uma cena que parecia-se com um filme de Glauber Rocha. Sol forte,
calor escaldante. Trabalhadores nordestinos, vestidos com roupas puídas e encardidas,
passavam o dia na enxada e apoiavam o apedrejamento e crucificação de uma
mulher adúltera. A mulher, uma linda morena, de longos cabelos escuros. Alguém
me sussurrou que ela era inocente. Seu marido, cabra da peste, revoltado,
assassinou-a, organizou um motim contra ao fazendeiro, dono das terras e,
depois, enrolou-se em uma grossa corda e enforcou-se do alto de uma ladeira. Os
outros trabalhadores comemoravam, extasiados, aquela carnificina do meio-dia.
Quando acordei, a garganta latejava de tanta dor. Os músculos do corpo todos
enrijecidos. Com muito custo levei minha cachorra, Pérola, passear. Agora,
trouxe o colchão para a sacada e estou de camisola, deitada sobre edredons.
Pérola dorme tranquila e Teresa Geni, minha tartaruga, tenta escalar uma grande
almofada. O movimento da subida a excita, então, ela se masturba. Estou com as
cognições cerebrais tão lentas que, francamente, não me importo. Hoje, as
condições de tecer comentários substanciais me abandonaram temporariamente.
Dizem que esta virose veio do cocô dos pombos da Coréia do Norte.
quarta-feira, 13 de março de 2013
Priscila Merizzio
dentro do vermelhão entra uma mulher
com as mãos cheirando a Qboa
uma outra mulher, ao sentir o cheiro,
lembra de sua vida boa
[Este está na Germina - Revista de Literatura e Arte]
com as mãos cheirando a Qboa
uma outra mulher, ao sentir o cheiro,
lembra de sua vida boa
[Este está na Germina - Revista de Literatura e Arte]
das poetizas
O poema das autênticas não nasce em cesárias com hora
marcada. Eles são paridos entre dor e êxtase nas madrugadas sorrateiras. Pela
boceta.
Priscila Merizzio
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