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sábado, 22 de janeiro de 2011

Poema I

Um risco no espaço. Depois um ponto. A sirene enrouquecida esgarçando a teia
da noite. O desespero de uma boca vermelha. A mão que de repente se ergue
por entre os lençóis e abona o relógio com um toque de dedos quase cegos. A
cisterna no fundo do quintal , como está na alma a trave da ansiedade, como
está no medo do não-ser , a inquieta sombra do que há de vir.A certeza de uma
porta verdejando a noite e um olho seguindo o traço, estacionando no ponto,
compreendendo na chegada da sirene que é hora de partir.Sobre a noite, so-
bre seus seios em resguardo, balança uma cortina de neblina. Algo passou por
ali e deixou no movimento de brandura a marca de uma passagem.

Paulo Venturelli
 

Poema II

Três hemisférios em cada olho, o matizado disfarce da mesma
impulsão: o abismo que há de vir,o tragar da energia, músculos
desfazendo-se sob a luz amarela de um corredor escoando-se
para a bruma, ali, onde não há barganha nem movimento, ali, o
espaço em cripta para absorver o que medrara um dia como ser
arfante, ser de espuma, seus gestos em busca da perenidade a
esboroar-se no seio da palavrae da atitude e de todos os gestos.
Os três hemisférios do olho, de cada olho, não gerenciam mais a
passagem, e a passgem dobra todos os enpenhos, até que nada
mais é.Pressentimento?
Não,apenas a especulação a tomar corpo diante do que move cada
ato,diantedo que chama em cada pensamento.

Paulo Venturelli

Poema III

Mineral, com todos os cristais desfeitos, eis
a hora, entidade de mãos
frias colhendo o que mal brotou.Nada poupa
sua voracidade e só ela é maiorque a própria
sombra. Recolhendo-se na camuflagem dos
ramos, na borda dealguma palavra nem se-
quer pronunciada, ela espera, está na tocaia
de umabismo ocasional. E como sua carne,
seus braços atraem qualquer ser
errante. Próximo dela tudo já é cinza, nada
flutua numa composição que se infiltre devida.
Mineral, a hora forja o ferro, seu magnetismo,
e nele capta todos os tons, nivela todos os
sons. Na esquina das horas, a igualdade dos
sereschama e os homens decifram sua vonta-
de nos corpos a perder escamas,
asas, filamentos.

Paulo Venturelli