Mostrando postagens com marcador armando freitas filho. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador armando freitas filho. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 24 de setembro de 2019

Desenho




Calçada sobre o mar

a montanha em cima

amparando o céu

que cobre a praia empenada.

Ainda perto do nascimento

a morte é monstro de fantasia

e guache, na cartolina.

Imerso na primavera

na boca do longo verão

as estações de agora não calculam

as do outono e inverno, tão longe.

O sol só se põe para esclarecer

com mais força, o dia seguinte

para interromper o brinquedo

que continua em suspenso, intacto

no ponto melhor, à espera da manhã

sem se quebrar dentro do sonho.




               
 De Armando Freitas Filho

quinta-feira, 26 de outubro de 2017

Comunicações



Eu falo de mim — daqui —
desta central
pelo microfone do corpo
por esse fio que vem do fundo
eu me irradio

assim, numa transmissão de
sustos e rangidos
veia e voz, ao vivo, sob tanto
sangue: pantera escarlate
que passa e pisa

e se espatifa nesse chão
pata de lacre
grito, pingo sobre o alvo
tão tátil da minha carne
nos panos

repentinos do meu espanto
nas janelas
onde me debruço sucessivo
e vário, sequência de mim
em fotonovelas

me desdobro — quadro por quadro
nos desenhos
de dentro do que sou e projeto
aos poucos, plano e pausa
para fora

com a vida que me veste
pelo avesso:
filmes de sêmen onde publico
figuras de suor e celuloide
numa lâmina

de velocidade e de lembrança
em fotogramas
de esperas e procuras — falha
folha de slides-células, sopro
e pulso

página de pele em que escrevo
o uso
a articulada letra do meu gesto
o rascunho de unhas e rasuras
feito à unha

nas nuas marcas do meu corpo
no espaço
e nos lençóis da claridade
monograma, silhueta, cadência
e a fala

que se imprime nesta fita
neste sulco
a linguagem como um fim
a linguagem por um fio
e a morte em morse.


 De Armando Freitas Filho

domingo, 1 de novembro de 2015

NUMERAL

16

Para Mário Rosa

Escrever é arriscar tigres
ou algo que arranhe, ralando
o peito na borda do limite
com a mão estendida
até a cerca impossível e farpada
até o erro — é rezar com raiva.

14 VIII 2001

23

Escrever é riscar o fósforo

e sob seu pequeno clarão
dar asas ao ar — distância, destino
segurando a chama contra
a desatenção do vento, mantendo
a luz acesa, mesmo que o pensamento
pisque, até que os dedos se queimem.


Armando Freitas Filho

[FURO O SINAL VERMELHO]

Furo o sinal vermelho
que não me estanca
sangrando a seta do lado esquerdo
me enfio por agulhas, gargalos
gargantas, o mar está à margem
tem pressa, mas não sai do lugar
engarrafado, e ainda que felino
enferruja em frente à praia
enquanto rodo o Rio todo e tomo
sucessivos ônibus, táxis, metrô
e cada dia é irreparável
o corpo não tem férias
vai no arrastão, com a roupa da hora
sempre ao alcance de balas além
não fica em nenhuma parada
não salta, passa do ponto
queima a inflamável vida
enquadrado pelo sol, carburante
vencendo túneis

nadando no seu próprio sangue.

Armando Freitas Filho

domingo, 8 de dezembro de 2013

Propaganda eleitoral

O candidato funga.
Flácida e sofa
figura inflada
se inflama e fala

feixe de frases
feitas, fraseando
falaz forma
na furna da voz.

Armando Freitas Filho
in. Máquina de Escrever-Poesia reunida e revista.

A um Passante

Filho feito do que a rua apura
e junta sem refugar: ectoplasma
de panos sujos, de sacos de mercado
e latas, de arma desdentada na mão
mais o trecho do muro roído
que passa rente à linha do trem.
A vida não tem segunda via e vai
embora, terreno baldio, vala negra
misturada de céu e terra, e ainda:
plásticos pretos, catre de papelão
no meio- fio ,à beira do trânsito.
Rio indo, inabalável todo
tracejando por luzes e espumas
ao pé do leque aberto de montanhas
do puro perfil do corcovado no sol posto.

Armando Freitas Filho