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sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

A MELHOR UNIVERSIDADE DO BRASIL.


Então, aparece um entre os milhões de miseráveis do Brasil, que compõem a imensa maioria da população no país e confessa ter matado mais de 40 pessoas, 42 para ser mais preciso, e grafo a palavra numericamente para denotar em escandalosa cifra este absurdo.
Fria, pausada, consciente e precisa é sua confissão. Ele não demonstra emoção. Fala sobre os crimes com a naturalidade de quem prepara uma macarronada aos domingos. Cita as armas assim como um gourmet citaria os ingredientes. Descreve as vítimas com acuidade e detalhes. Diz que as estudava em hábitos e horários. Escolhia quase sempre mulheres para confirmar sua covardia torpe. Além de mulheres matou crianças. Usava objetos cortantes encontráveis comumente em latas de lixo ou jogados pelas sarjetas e pelos mafuás por onde se movia. Por trás deste, uma mulher idiotizada pela mesma moléstia – a miséria. A parente mais próxima da fome e do abandono.
Nasceu e cresceu muito provavelmente nos guetos sujos para onde foram empurradas e varridas a maioria das gentes sem sangue azul, os gentios, os deserdados do Brasil -.as favelas e bairros putripestilentos dos subúrbios e áreas adjacentes à região metropolitana. Não exige esforço rotundo a carreira e diplomação de um assassino no Rio de Janeiro. Habitam mucambos sebosos da oleosidade dos dejetos e detritos. Nunca conheceram família ou escola. Seus próprios pais eram obrigados a inventar como sobreviver, até mesmo vender um filho pode garantir comida por mais dois dias ou uma semana. Colocá-los às ruas para que se virem e tragam soldo para casa pode ser uma alternativa. Surrar-lhes todas as noites antes de dormir para que entendam que não há afeto no mundo. E a mais de tudo, a vida social nas favelas é exemplar. Lá estão praças com brinquedos, creches e escolas bem aparelhadas para formar um cidadão. Acrescenta-se a todos os ingredientes as nobilérrimas instituições governamentais, corruptas, compostas por funcionários estúpidos e mal remunerados favorecendo um desenvolvimento saudável e impune à formação de um bandido assassino.
Ele não carrega sombra de sentimentos de culpa. E afirma que sempre tem prazer em matar. Todo ser humano percebe prazer pessoal quando se compreende justiçado, ou quando entende que ao agir em determinada direção obtém um ganho que perpetuamente lhe foi negado. Ao matar obtinha seu sustento, a manutenção de sua vida e o conforto de suas necessidades.
Sua cúmplice, que o protegia e indicava vítimas, tem as mesmas características psicológicas e um paradoxal bom humor, estampando sua imbecilidade feliz por aparecer na televisão. Talvez não seja uma alegria parva, talvez seja a glória por finalmente receber a atenção do Estado, do governo, da sociedade, que lhe foi negada por toda a vida. Terá casa e comida nas mesmas condições em que viveu sua existência maltrapilha e infame, e, ainda assim, já que as condições do cárcere no Brasil não são tão diferentes da miséria, terá que continuar matando. Friamente. Com prazer.

Alexandre Acampora. dezembro 2014.

domingo, 7 de dezembro de 2014

FROGMENTO


...lembro que quando criança o fedor putripestilento do mar na Praia de Botafogo no Rio de Janeiro me carregava para longe de uma fé na responsabilidade de governos. Ali aberto a nossos olhos o mais estupendo e estúpido esgoto da zona sul da cidade. Basta um mergulho para que a acidez pútrida das águas provoquem ulcerações na pele e hepatites internas. Nos meus oito anos de idade restava a areia meio cagada para a prática marginal do futebol de praia, com campeonatos de bolas remendadas e camisas de farrapos coloridos.
Durante a semana, quando não havia jogos, as traves de gol tornavam-se puleiros concorridos de urubus, que por ali pastavam entre as oleosidades desenhando aquarelas de lixos apodrecidos na gelatina de merda das águas.
Hoje foram os urubus mas lá permanece o Iate Clube do Brasil que ancora centenas de embarcações sofisticadas nessa baia de bosta. Ali despejam seus detritos de viagens e inviabilizam o usufruto de um bem público há décadas.
O Iate clube tem que ser responsabilizado pela construção de uma marina para seus barcos e canoas estacionarem. A prefeitura devia ter mais vergonha do que nós.
Alexandre Acampora. dezembro 2014.