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quinta-feira, 2 de março de 2017

tai chi na areia

Luiz Felipe Leprevost

tai chi na areia
ausência de sol junho
não chove mas o ar está molhado
dança em mim minha luta
executo mínimos movimentos circulares
não paro pra escrever
não tenho pressa
o sangue lava o organismo
enquanto há tempo
aumento um bocado as mãos
não paro pra escrever e escrevo
embora não saiba como fazê-lo
do modo que um dia, alfabeticamente, aprendi
arquejante, chamo os caminhantes lá do calçadão
eles se distanciam
obcecados que vão por suas atividades físicas
danço cortando o ar como lâmina que abrisse abrisse
e então abrisse a pedra do Tempo
agora meus alvéolos já não são capazes de me impulsionar
respiro mal
não há boca em meu rosto que use
a direção do som na atmosfera
meu caderno é a areia
a caneta os pés descalços
as solas, sendo o que há de mais embaixo nas pessoas, contribuem com o mistério do universo
cada parte quer deixar de existir
se decompor na neblina
sei, de todo modo, que somente existindo é que posso deixar de existir
memória, acúmulo de esquecimentos
impulsos, livres associações, pouco ou nenhum nexo
a paisagem pisca, apaga por segundos
eternidade
volta a acender
instantes que não administro, não calculo
a mente não dá conta
dos símbolos que tentam se agarrar à ela
não é um adeus, mas um chegar
portanto, ninguém se apiede
– se bem que melhor a piedade que o nojo
nojo, já que aos 37 anos
no inverno carioca
sou um Lázaro
– chagas, pústulas (mas só por dentro)
é internamente que me decomponho
e em alta velocidade
pra quem olha, sou apenas o praticante
de sutilíssimos movimentos
na praia praticamente vazia de tudo menos de pombos
o mar quebra pesado
eu, ao contrário, peso pouco
sem saber como ainda me segura o chão
o homem em pânico é o inventor de deus
o que dizer? tudo urge no meu estar tranquilo
ser qualquer coisa na vida
contato e improvisação
e isso é de uma exigência inevitável
conhecimento: o corpo é o único que sabe (mesmo quando eu não sei que ele sabe)
plantando a efemeridade no espaço
danço
constituído pela fragilidade, danço
a umidade me divide, me desmancha
e me espalha no ar
nos pés tenho as mãos que escrevem

nas mãos que voam, vai a voz

sábado, 25 de fevereiro de 2017


com algumas pessoas não se toma cuidado ao respirar a ferida de dentro. bebe-se o afogamento da saliva e o antídoto das secreções. não se morre, senão nelas. e se acordamos na manhã seguinte, é porque de algum modo nos tornamos eternos



 Luiz Felipe Leprevost

domingo, 1 de janeiro de 2017


descendo a serra na direção do litoral
com fugidos passos desci a serra até o litoral
ainda ontem senti meu desespero à espera de mim
meus olhos atentos em cada precipício descomunal
tudo o que conhecemos é um nosso desconhecido sem fim
e em Guaratuba o verão já aguarda por reparos
aí está um jeito bem sem jeito de salvar
os pássaros
posso louvar astros que se movem
de repente das translações chegou a crise
planetas estrelas num balé de que não fogem
na terra, sob cascos, desde que se pise
uvas sob a chuva que chove a cântaros
eis um jeito imperfeito de salvar
os pássaros
chicotadas dos trovões rasgam o tempo
e arrastam o dom bom na voz da minha vó
mas até os lógicos se penduram no profeta imenso
e em Sodoma virou estátua de Sal a garota de Ló
mas não é motivo suficiente pra que venham tirar sarro
pois seria um jeito suspeito de salvar
os pássaros
sou indigno do livro do céu da fé das evidências
das fontes do enigma da matéria invisível
da ciência que esmiúça os nós da nossa existência
e da manhã, que é uma mãe, sou um filho risível
das plantas da água de tudo até dos ácaros
e aí está um jeito, digamos, rarefeito de salvar
os pássaros
o amargo amor das extremadas cobras
o cosmos das pedras as outras ostras iletradas
abelhas, são manuscritos de mel suas obras
e o corpo dos sapos atropelados na estrada
isso existe à revelia da glória dos píncaros
e aí está um jeito há muito eleito
de salvar os pássaros


 Luiz Felipe Leprevost

sábado, 28 de novembro de 2015

Luiz Felipe Leprevost

o meu amigo secreto está debruçado no parapeito do abalo sísmico de si mesmo


Luiz Felipe Leprevost


o meu amigo secreto é muito estranho, ele não consegue lembrar se fugiu de uma prisão de segurança máxima privatizada (pagando por fora), ou se de uma Igreja Evangélica (trepava com pastor), ou se de uma edição do BBB (agora é dono de uma rede de hamburguesia)
Luiz Felipe Leprevost


o meu amigo secreto se chama Esperança, e ele está prenhe dos pavores gelados da morte. Esperança Esperança, este serzinho menor que uma pulga


o meu amigo secreto é tão incoerente quanto alguém que não gosta de azeitona mas adora azeite (é isso mesmo, produção?). ah, não exatamente... até poderia dizer dele então você prefere o efeito à causa, mas ele responderia, sagaz que só, ele responderia eu não reduziria o azeite, sangue bom da oliveira, a um mero efeito

Luiz Felipe Leprevost

domingo, 13 de setembro de 2015


nas tuas fases difíceis
sempre vou te ajudar
a cada frase triste

um beijo pra sarar

*refrão de canção que acabei de terminar aqui. retornei pelo jeito às canções de amor


Luiz Felipe Leprevost

domingo, 28 de junho de 2015


sei que estou poluído de declarações, não sou tão alto quanto um deus qualquer em sua mudez perfeita. sou esta apoteose tão pequena quanto quem quer que também a seja. o prazer se compartilha, a dor não. a dor é uma coruja em vigília, olhos na maciça escuridão. estar só é ser o homem como ele é. e os nossos sentidos são uma ostentação, mas nem todos vão estudar música a esta hora, nem ler os livros que foram escritos só para mim. não há gente ao redor, porém, com o coração sincero, sussurro outra vez o espírito de um verso. de longe, o seu sim chega furando a noite. não hesito, abro a porta

Silêncio!... 

Luiz Felipe Leprevost

domingo, 21 de junho de 2015

Luiz Felipe Leprevost


tem o momento em que ela para de falar, e aí eu paro de falar. então fica mexendo a colher na xícara vazia, e eu desenhando abstrações no guardanapo. de repente ela diz algo como "entre filósofos e amestradores de baratas de comercial de inseticida, fico com a segunda opção". é isso, tem esse jeito alegre da gente ser triste. tem o compromisso de querer que doa. tem todos esses papeizinhos amarelos da Redcard esquecidos na carteira. e as 208 caronas que ela tá me devendo. os pedaços da torta que comemos dividindo a colher. e ela sempre dizendo coisas do tipo "repara como as moscas esfregam as mãos antes de chupar o doce"

quinta-feira, 18 de junho de 2015

Raciocínios Karanzísticos


Infelizmente só me tornei próximo dele poucos meses antes de sua partida. O tempo que privei de sua companhia foi de alegria intensa. O livro do Karam de que mais gosto é o Encrenca. Mas em cada linha de todas as suas obras nos deparamos com uma inquietante inventividade, vivenciamos o espanto. Seu humor filosófico nos retorce o cérebro. A veia poética é certeira e luminosa. Manoel Carlos Karam é um desses gênios que fez o impossível com a linguagem. E foi um homem generoso, abriu casa e coração para os escritores mais jovens. Espero que um dia minha barba fique branca e vasta como a dele.
Se impossível é falar de si, mais impossível ainda é falar do outro, já que ao falar do outro, fala-se de si, ou seja, do que se desconhece. E este é um raciocínio, digamos, bem Karanzístico. Sei que assusta e pinta um mundo em que o caótico e o absurdo reinam. De todo modo, é justamente dentro de tal mundo que, incrivelmente, nos conectamos, nos comunicamos e, mais incrível ainda, criamos. Fomos nós os humanos que fizemos o amor, a literatura, a ciência, os conceitos, o pão de queijo e, que remédio?, o sertanejo universitário. Inventamos outros mundos possíveis a partir do impossível deste que convencionamos chamar de real. E os outros mundos inventados, então, ao longo do tempo, passaram a fazer parte deste maior, mais real, quero dizer, culturalmente mais aceito. O mesmo processo se está dando com a obra do Karam. Mas antes de entrar aí, quero nos perguntar como puderam tais proezas os homens e as mulheres que estiveram aqui antes de nós? Como poderemos nós fazer tal coisa? Isso de sermos inventores. Acredito que lançando-nos na direção do desconhecido para só então vir a conhecer. Mas conhecer o quê? O que talvez justamente não se dê a conhecer jamais. Porém, não me sai da cabeça a seguinte sentença: estar vivo é estar exausto e fazer de novo... fazer de novo.
Nietzsche disse, não é?, me ajudem, mais ou menos assim: não há sentido algum na existência, por isso mesmo é preciso inventar o sentido. Muito bem, Karam inventou o seu: a literatura. Estou certo que Karam teve a coragem e a dedicação para desejar e criar o futuro. Esteve sempre lá adiante, como disse o escritor Roberto Arlt, por prepotência de trabalho. Humilde e generoso em sua vida social, Karam, no que diz respeito a sua obra, teve tal prepotência, tal ambição. Ele realizou algo na vida.
Do meio de um mundo sem-sentindo, absurdo, trágico, Karam fez o melhor de si. Fez luzir alto sua obra. Como bem disse dele Joca Reiners Terron: Karam mirou o século XX e acabou por acertar o XXI. Se por um tempo sofreu de uma espécie de injusto ostracismo em relação ao mercado e ao público leitor (rompido volta e meia por ilustre galeria de fãs incondicionais como o próprio Terron, mais Nelson Oliveira, Paulo Sandrini, Luci Collin, Assionara Souza, Carlos Henrique Schroeder, Daniel Pelizzari, Ronaldo Bressane, apenas para citar alguns), ostracismo, aliás, bastante incompreensível e, por tanto, semelhante ao de Campos de Carvalho. Diga-se, Karam foi tão genial quanto o autor de O púcaro búlgaro e A chuva imóvel, levando a invenção literária do século XX às últimas consequências no Brasil, o que, para o bem de todos, os lançou diretamente para o XXI, os colocando como, mais do que pais, pares de autores como, por exemplo, Gonçalo Tavares, Mario Bellatin, entre outros. Para o escritor Karam, o futuro; para sua obra, a contemporaneidade.
Pretendo ficar à vontade aqui com vocês como fosse outra vez a cozinha da casa do Karam, em que estive duas vezes, se bem me lembro em 2007. Karam e sua esposa Kátia a nos servirem, a mim, Nadja Naira e Michelle Pucci, uma variedade de queijos, pães, vinho e, sua bebida preferida, cerveja Heineken, que na época ainda não era tão popular no Brasil. Eu nunca tinha tomado tal cerveja e julguei o gosto de Karam sofisticado. O ano era o de 2007, me confirma agora por telefone Diego Fortes, e na sua cozinha Karam abençou a leitura pública que faríamos de seus textos, no ACT (Ateliê de Criação Teatral), dali poucos dias. Nadja era a diretora do trabalho e, além de mim, formavam o elenco Michelle mais Diego, Alexandre Nero e, o filho músico do escritor, Bruno Karam. Diego e Nadja, com a Armadilha Cia. de Teatro, viriam, após esta leitura, se debruçar em constante, competente e frutífera pesquisa da obra de Karam. Resgataram suas primeiras peças num ciclo de leituras públicas e encenaram novas configurações de textos colhidos em todos seus livros. Tudo isso veio dar mais no mês que corre num projeto de conclusão de curso de Letras na UFPR de Michelle Pucci, em que sua banca de defesa transformou-se num monólogo brilhante com ela atuando e direção de Nadja, onde os textos de Karam voltam à cena.
Na segunda vez em que estivemos na cozinha, famosa por receber vários daqueles autores da Geração 90 (integrantes da antologia organizada por Nelson Oliveira), que tinham em Karam grande inspiração, discuti ferozmente com Ulisses Galetto, nem mesmo lembro por qual motivo. Galetto era namorado da Michelle à época, por isso estava conosco. Karam já vinha bastante debilitado de uma série de quimioterapias. Por muito tempo me envergonhei de ter agido daquele modo ignorante e insensível com a situação pela qual Karam passava. Apesar de doente, no entanto, ele era só transmissão de alegria e generosidade. Depois, sempre tive e continuo tendo um bom e estimado amigo em Ulisses Galetto. A briga foi o pior da noite, mas a menciono para destacar que do encontro, por causa de uma das minhas provocações, Galetto acabou por musicar um poema que está no capítulo 10 (pág. 83) do Pescoço ladeado por parafusos.
Pescoço ladeado por parafusos (2001, Ciência do Acidente)
Suspeito que Pescoço ladeado por parafusos surge das leituras que Karam teria feito dos livros A construção da personagem e A criação de um papel, do encenador russo Constantin Stanislavski, em que ele sistematiza seu método teatral. Numa das visitas que fiz a sua casa, junto com Nadja e Michelle, ele nos conduziu por um passeio a sua biblioteca. Por se tratarem os visitantes de gente de teatro, que justamente na época aprontavam leitura publica de textos seus e assim devolviam o nome de Karam, afastado há anos por causa de sua dedicação à literatura, à cena teatral curitibana. Havia na biblioteca um “setor” inteiro dedicado ao teatro. Karam olhou para mim, que me espantara com a rica coleção, e disse daquele jeito simpático meio gaguejante que ele tinha: já tive um severo interesse por esta arte. Referia-se, claro, ao teatro.
Lembro de ter visto os livros de Stanislavski na biblioteca e, pelo que conheço das obras tanto do russo quanto das do Karam, lanço tal suspeita no ar para o estímulo de pesquisas futuras. De todo modo, adianto que a prosa de Karam é altamente teatral. Leiam-na em voz alta e saberão. Seus primeiros exercícios de escrita foram peças de teatro, para o Grupo Margem. Autor de fôlego, escreveu e dirigiu mais de vinte, nos anos 1970. Eugène Ionesco e Beckett como referenciais. Como mencionou em recente ensaio, Nelson de Oliveira: “seus personagens literários têm um forte vínculo com o teatro. Por exemplo, os amigos Benjamim, Hopalongue, Maria, Marta Júnior, Oliveira, Serafim e Silvestre, de O impostor no baile de máscaras. Eles protagonizam capítulos-esquetes e se expressam por monólogos ou por longos diálogos, prato cheio para qualquer adaptação para o palco”.
Sabemos que uma das principais exigências do texto teatral é a de que ele só se realizará plenamente numa existência em voz alta, ou seja, ele precisa ser materializado pela voz. Necessita ser levantado do papel e vir entranhar-se no corpo humano, no corpo do ator. Todo ator é mais ou menos o monstro de Victor Frankenstein, o estudante de ciências naturais que o constrói em seu laboratório, ou seja, um ser feito, construído e não nascido. Ora, personagens da literatura já são, grosso modo, exatamente isso, mas o personagem em processo de construção de Pescoço ladeado por parafusos explicita e problematiza tal questão como nunca antes o fizera a literatura brasileira.
Não vou entrar aqui nos capítulos do livro que se referem ao Jornal da guerra contra os taedos – na época ainda fragmentos de um romance por vir, feito, pelo que conta a lenda, muito por estímulo do livreiro Eleotério –, nem no Projeto de bestiário ou nas Anotações sobre os números, ou na Introdução à geografia do etc. Entrar nisso tudo me enlouqueceria ainda mais – e eu sei que é exatamente o que o Karam quer de mim, seu leitor. Mas preciso me controlar um pouco, ao menos até a fase pela qual passo ter seu ciclo encerrado. Estes títulos que citei aí em cima são partes, capítulos, do engenhoso puzzle de peças estrategicamente desordenadas, invertidas, que Karam monta e remonta em Pescoço ladeado por parafusos.
Permitam-me o direito de ficar apenas com a peça maior, a peça que vai aos poucos narrando a fabricação de um personagem, começando pela escolha do nome, indo ter na pesquisa do rosto, do corpo, da alma, etc. Aí está a síntese de um Karam-Frankenstein em seu laboratório literário. Num singular procedimento de metaficção, que acompanhou o autor ao longo de toda sua obra, e que aqui se dá em nível estrutural de radicalidade no que se entende conceitualmente por romance. Narrador e narrativa se fazem simultâneos à invenção do personagem. O que é um, o que é outro, quem é quem? Todos, narrador, narrativa e personagem aparecem como seres feitos, incompletos, não-nascidos. Um monstro de linguagem, o homem. Exatamente como os personagens do teatro, que exigem ser reconstruídos novamente e novamente por cada ator que decidir os representar, ou melhor, entranhar, para que sobrevivam ao longo da História.
Todo leitor de Karam será um ator, no sentido de que é uma leitura de suas obras é uma leitura que exige ação, é uma leitura dentro da qual se atua. Todo leitor de Karam será um ator ou não o terá lido.

LUIZ FELIPE LEPREVOST, notas e ensaios sobre literatura


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POR LUIZ FELIPE LEPREVOST

quarta-feira, 20 de maio de 2015

O eu jamais está fechado



o eu jamais está fechado, ou nunca mais se abriu? sei que estou
poluído de declarações, não sou tão alto quanto um deus qualquer
em sua mudez perfeita. sou esta apoteose tão pequena quanto quem
quer que também a seja. o prazer se compartilha, a dor não. a dor é
uma coruja em vigília, olhos na maciça escuridão. estar só é ser o
homem como ele é. e os nossos sentidos são uma ostentação, mas
nem todos vão estudar música a esta hora, nem ler os livros que foram
escritos só para mim. não há gente ao redor, porém, com o coração
sincero, sussurro outra vez o espírito de um verso. de longe, o seu sim

chega furando a noite. não hesito, abro a porta

Luiz Felipe Leprevost

quarta-feira, 13 de maio de 2015

o Capítulo 7


nesta tarde no bairro de Santa Felicidade
sob o barulho da máquina de cortar grama
(que vem do vizinho dos fundos)
nesta tarde que se indecide entre o sol e o cinza
nesta tarde de uma desconfiável pacatez
para você e mais ninguém, de dentro de uma saudade
até agora muda porém candente, dedico
o Capítulo 7 d´O Jogoda da Amarelinha
e com ele também (não com menos certeza
de que apesar da torvação que nos últimos tempos
nos envolveu, chegarei em seu coração mais sensível)
o Capítulo 93 da mesma obra, menos conhecido
mas igualmente tocante e merecedor

da sua saudade, que é também (como vê) a minha

Luiz Felipe Leprevost
Luiz Felipe Leprevost

claro que é possível suportar a vida o mais rente do sofrimento, mas não sem as mentiras que contamos a nós próprios e pro mundo, mas não sem jamais estarmos despidos com aquela nudez que existe debaixo da nudez. pudéssemos ter escalpeladas as máscaras todas, não pro exibicionismo dos vaidosos e a invertida ostentação dos falsos (eles também se convenceram de algo, não?) autocentrados com seus ares de superioridade, não não, mas pra, se por ventura aprendêssemos deixar pra lá o esconde-esconde das supremas hipocrisias com nós mesmos, jamais fazê-lo
em carrossel dentro do crânio (pro Sandro Moser)


os crepúsculos Paris/Texas ao longo das estradas que voltam do sul
caso já tenha deitado os olhos numa garota com os cabelos encaracolados ao vento
passado a mão nas suas coxas, ligado o rádio, olhado pelo retrovisor e
“ok, Kurt Cobain, tudo vai ficar tranquilo daqui pra frente”
isso se você já foi capaz de estudar minimamente o esqueleto do fogo
as entranhas do pranto, a ressaca das tintas de Modigliani
talvez você seja capaz de rir encarando búfalos de frente
talvez se apiede de recém nascidos se perguntando “o que eles vieram fazer aqui?”
é provável que você tenha desejado amparar Sylvia Plath no chão da cozinha
é isso, se você perdeu tempo nos fliperamas de Guaratuba, em cinemas privê
você já deve ter arranjado confusão por se sentir deslocado nos salões dos bailes de debutantes
talvez desejasse ser invencível como Jean Claude Van Dame
movimentando-se feito uma libélula na Sessão da Tarde
derrubando bananeiras com as canelas carcomidas
é possível que esteja ansioso pra conhecer a História toda da História
ou quem sabe só vai gargalhando feito um crítico de cadernos literários
achando tudo a tremenda imbecilidade que de fato é
não existe método nem requinte aqui
a vulgaridade do texto é feita de parágrafos apunhalados, pânico-amor
beautiful loser amor, estrelinhas apagando e acendendo em carrossel dentro do crânio
isto é inflamável, os pulsos estão boquiabertos
manja as pálpebras batendo asas? passarinhos que colidem e
vão dando cambalhotas ladeira abaixo? quem suporta concorre a uma rifa
já banquei o idiota que passa horas ensaiando o que falar e quando chega a hora
manda uma merda do tipo “a sandália não tá um pouco grande no teu pé?”
ou as canções do “Chico com eu lírico feminino funcionam melhor
com mulheres que nunca tiveram um orgasmo”
nem místico, nem, talvez, demasiado urbano
visionários becos, profética ruelas, apartamentos encardidos de tanta poesia

tudo muito além de “tranquilo daqui pra frente”

Luiz Felipe Leprevost

sexta-feira, 24 de abril de 2015

você fabrica a noite mais sombria do ano
logo em seguida faz a coisa certa
você amontoa histórias
e acha que tem uma armadura
você espera que eu seja uma lareira
você ama
me tira de um lugar de gelo
sussurrando cantam as urticárias do corpo
me ensine de novo tente
dessa vez quero conseguir
volte pra cá
e essa noite branca vai embora de nós
não deixe a temperatura despencar
segure a minha mão
você ampara a frente fria
foi rápido e sem som
você comeu o violão
doeu
ou foi pior do que doeu?
não se sai do outro como se sai do banho


luiz Felipe leprevost

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

Luiz Felipe Leprevost


uma espécie de nudez no hálito. o sangue latejando qual lama. fazia com a língua a barba da minha boceta. gostava de gozar nele. depois ele deitava a cabeça na minha boceta. colava o ouvido na minha boceta. fechava os olhos. o pulso relaxado depois de saciados. me tocava e eu era tocada por um oceano desabado. era tocada feito um violão pelas mãos de um negro muito velho e experiente. entre a mesa e o sofá, garrafas de veneno vazias de respirar nossas bocas. despia meu vestido, minha pele, meu cheiro. tirava brincos, a tornozeleira. colocava com calma e precisão meus tornozelos deitados. se escorava onda de praia braba em minhas costas. beijava as omoplatas abertas ao voo. eu não voava, ele segurava com força as rédeas dos cabelos. ele era uma quilha num ritual de navegação, penetrava, rasgava dentro. o desejo é um tubarão com trinta mil mandíbulas de vidro estilhaçado. ele cavou a terra que envolvia meus olhos, arrancou as raízes. me vendou com a tarja espinhosa da treva. comeu meus olhos. um cafuné e fui devastada. aprendi que não adianta arremessar pássaros no abismo. agora é areia o rosto dele, as sardas perdidas no vento, a ferocidade do contorno da sua boca. um sorriso desamparado, águas duras arrebentando no coral dos dentes. a noite chove lâminas. sombras se infiltram. jorram urubus de um fogo engordurado de serração. o fogo oculta o que devora. sei de uma paralisia estilhaçada a morrer dentro de tramas e trapaças. o chão, o pó dos móveis, têm pena de mim. o fuzilamento das vísceras desesperam na inércia. tudo é o inverno do soluço. é mais que passada a hora de recolher brincos, tornozeleira, roupas, pele, odor, camisinha estourada, o saco de lixo do banheiro. jogar tudo na rua pro lixeiro levar pra junto dos urubus de outros amores estragados, essas coisas que não são recicláveis mas tem gente que come
Luiz Felipe Leprevost



sou antigo na dor mas nunca poderei me cansar. dessa vez nenhum pavor por dentro, nem aquilo dela ficar dando voltas em torno dos sins. não me dê a mão, não temos braços tão longos. na rua as poças engolem homens parecidos com o que eu fui até dez dias antes de trocar de pele. calados, como que por meios telepáticos, conversamos. ela se move como o veleiro que deixasse o porto na direção de uma viagem longa de retorno, trazendo a si e trazendo alguém em si até chegarem com a rotação da Terra nesta sala. as paredes não estão sangrando dessa vez. o vinho que ela toma, e assisto seus olhos molharem de tesão. sorrio um sorriso que não sentia no rosto há mais de seis anos: ele é um testemunho. enquanto estivermos vivos, penso, enquanto estivermos vivos estaremos, de algum modo, em contato. sei que nem tudo é um acerto. o quarto, ainda desconhecido, está paciente mas geme. nem minha Garota, nem minha Senhora ela é. invento que ela diz: a chuva existe pra nos mostrar a solidão do mundo. depois sua boca me dá de beber e diz: este beijo é pra mostrar que ainda estou aqui

domingo, 1 de fevereiro de 2015

mensagem de despedida ou boa nova

conheci uma garota que não é da cidade e muda de cor e produz minúsculas chamas saídas pelos poros quando faz amor. ela me disse que todas as mulheres lá de onde ela vem são assim. já encarei como algo problemático em mim isso de ter uma índole científico investigativa. digo, de querer mesmo tirar a prova dos nove de tudo que existe (e até do que não). nesse caso é diferente, porque até que estou curtindo a idéia bem mais do que sempre curti as minhas, digamos, obrigações de cientista. veja bem, precisarei ir a fundo pra confirmar se isso é um fenômeno isolado ou algo da biologia daquela região do país, tão distante daqui. infelizmente, durante o tempo da pesquisa ficarei incomunicável. quero dizer, não poderei sequer enviar notícias, abrir e-mails, facebook, tuiter, nada. peço desde já que os familiares e amigos não se preocupem e sejam fortes. sei que a saudade vai apertar, mas também, diz a verdade aí, minha ausência não será nenhum fim de mundo e, tampouco, definitiva, espero (tô brincando). perdoem a pressa, mas, bem, até a volta. desejem-me boa sorte. se bem que, acredito, não vou precisar. é, não me desejem nada. ter conhecido uma garota como essa já faz de mim, parece-me, um afortunado. então é isso. obrigado por tudo (mesmo). fiquem bem. e até um dia.
ps. por gentileza, tentem manter os invejosos desinformados da boa nova


Luiz Felipe Leprevost

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

a primeira dama caindo no choro

Luiz Felipe Leprevost

a primeira dama caindo no choro
o presidiário aprendendo a fazer tricô
o doutorando indo caçar ruas na madruga fria
o gótico cheirando rapé no cemitério ao meio-dia
um irmão encontrando alguém pra odiar fora da família
o latifundiário chegando no mar com um pranchão debaixo do sovaco
a jornalista ardendo de amor por um mundo que não volta tentando
atravessar a linha do horizonte que foge
o ator pornô fazendo sua festa de aniversário de 74 anos
o religioso fundamentalista prestando vestibular pra história
a costureira costurando um rasgo na própria carne
o mau hálito da manhã de uma cidade imutável
o ativista ecológico surrando os filhos bagunceiros
o governador tendo a cara pisada esmagada mijada por quinze mendigos selvagens
o prosador tradutor tatuador sofrendo a experiência de ser usado
o historiador abrindo a franquia de uma hamburgueria
o promotor público tendo a sua primeira crise de pânico
o rei do camarote perdido numa aldeia indígena que não aceita o seu cartão
o guardador de carros autopunitivo
o xerife secretário de segurança de vestidinho rosa levando forte no rabo e gritando é bala neles
o pai de santo recebendo a si mesmo
o turista pisando pela primeira vez numa capela mortuária
o poeta fazendo um bico de juiz de futebol no fim de semana
a estudante estudando guarani na praça de alimentação do shopping

o mau hálito da manhã de uma cidade aparentemente imutável