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quinta-feira, 25 de junho de 2020

OS MENINOS E EU



Os meninos empinavam pipas;
Eu, pássaros
Os meninos folheavam revistas de garotas nuas;
Eu assistia ao namoro dos sapos
Os meninos iam ao cine;
Euatravessava a pé o igarapé
Os meninos desenhavam piratas tesouros, navios;
Eu, a escafandrista solitária
Agora
Solidão nos devora
Em negros prédios
Meio à elite ignara
Os meninos vestem
Negro/desencanto
Seguem com cifras
Nas pupilas vítreas
Tão tristes os meninos
Reclusos, bebendo
O índice Dow Jones
Com café
Trocando de amantes
A cada inverno
A alma pesada os faz andar
Em cadência de elefante
Eu desenho gravuras
Teço minhas roupas
Escrevo poemas
Não atravesso
O vidro frio do templo moderno
- Shopping center –
Não atravesso
A porta de cedro
Do antigo templo
- Enquanto o Vaticano
Não doar aos pobres
Todo o ouro seu -
Vivo nas esferas
Desço ao chão
Para pisar águas dos igarapés
Adormeço
No berço-arraia
Que me embala/azul
No “mar / belo mar selvagem…”

Bárbara Lia

quinta-feira, 21 de maio de 2020

A noite dos vivos



 (Bárbara Lia)

O homem sem sapatos trajando bermuda bege sobe na lateral do chafariz e conversa com o cavalo. Espero o amigo, anoitece. A lua crescente; a vida minguante. O homem diz ao cavalo as coisas do dia, seu dorso negro acaricia e se afasta para dizer em tom de brincadeira a frase tão verdadeira:
- Mas, você é feio, hein?
A água não jorra, neste fim de tarde, do símbolo fálico do chafariz do Largo da Ordem.
Um cavalo que baba (goza?)... O que secou? O sêmen ou a lágrima? Muito estranho esse cara que fala com o mármore com intimidade de amigo. A água parada, a vida parada, o homem descalço a conversar com as pedras e eu a esperar o amigo...
Esse espaço de pedras é por onde passam os vivos. Réstias de frases cintilam em um espaço por onde caminhei hoje e ecoam em mim como notas de um piano antigo...
- Aquele professor de Geopolítica é genial...
- Eu não sei desenhar na pedra...
- Então... O que teu pai disse?...
Sair com uma frase incompleta de cada colisão com pessoas dialogando no caminho, um conto na cabeça, uma dor no pé de pisar pedras tortas. Depois, sentar no banco para ouvir o diálogo (monólogo?) do homem livre. Esperando o amigo que disse um dia:
- Cansei de vomitar vinho Campo Largo...
Pedras raras ainda guardam vômitos de meninos como se eles vomitassem o sangue dos parasitas, dos falsos profetas, dos inquisidores, dos covardes...
O homem se despede e algo se move, como se o cavalo voltasse sua horrenda face (ele é mesmo feio) para se despedir do amigo. O único que se enternece e lhe diz boa noite, mesmo que depois diga:
- Como você é feio!
O mundo se parte ao meio e eu fico com o pedaço de mundo onde tem o Relógio das Flores (memória de um sonho como iluminura medieval), com as pedras lavadas do bom e velho vinho Campo Largo e o lampião antigo que acende para ajudar o pálido crescente - foice fosca do apocalipse - a iluminar a noite dos vivos.

Paraísos de Pedra (Editora Penalux) - 2013. Páginas 21/23
Conto publicado no Jornal Relevo


sexta-feira, 27 de setembro de 2019

SENSAÇÃO DE HELENA




Abre em leque as cartas
Estende aos da primeira fila
Quando retiro a carta do baralho
Sentas diante de mim, sorrindo
Carta do Rei David
Rei de Espadas
Rei de Espadas
Doce é tocar de novo tua face
Desejo renasce, impune
Por uns segundos o mundo escapa
Estamos os dois a sós
Fumaça e lume ecos de palavras
Teu rosto sorrindo para mim
Nesta carta - Reis de Espada
Agora, sou Atena embevecida
Teu par de fogo - Tua outra face
E antes que dissolva o rosto lindo
Ecoa a voz de Helena, forte e cristalina
"Se eu estendesse a mão, tocaria a sua face"

Bárbara Lia
maio/2011

DIANTE DA JANELA, O ROSEIRAL




Testamento enterrado
à sombra do roseiral:
Deixo meu violão
para a balconista da padaria.
A erva benta
para a velha do sobrado.
A chaleira
que chia Villa-Lobos
para Frei Gustavo,
que costura almas
nas manhãs de quarta.
O livro de poesia
de Augusto dos Anjos,
para o cobrador do expresso 022.

Assinado:
A menina dos olhos tristes.

Chico me chamava de Carolina,
mas era só um disfarce.
Sou eu a menina
que viu o tempo passar na janela,
sem ver.

BÁRBARA LIA

terça-feira, 24 de setembro de 2019

Um espantalho


Um espantalho
Carne de palha rasgada
Tem mais carinho que eu
Pássaros pousam em seu ombro
O vento cochicha ao seu ouvido
Recebe aceno de crianças
Piscadelas belicosas da lua

Um espantalho
Mãos escapando pelas mangas
Não sofre esta angústia grave
A ausência das tuas mãos grandes
Enlaçando as minhas mãos em
Carne, osso, gozo e esperança


Bárbara Lía

Esfarrapado e imundo


Esfarrapado e imundo

(...)

dei de cara com ele, enfim,

mendigo extraviado

que implora pra ser notado.

Eis o amor,

despejado

humilhado

não vive em estrelas

nem mar profundo,

nem no limite do mundo,

está sempre no meio do caminho

pedra

poema

estirado

cão sublime à espera

de um dono franciscano

que o acolha

com todas as chagas

e enganos.

Bárbara Lia
fragmento da poesia - sonhos em preto e branco


domingo, 26 de maio de 2019

CHIAROSCURO



Bárbara Lia

Hora suspensa. Horizonte de sangue.
Despediu-se o sol, não brilha a lua.
Barcas estremecem em marés de fogo.

Sinos dobram a Ave-Maria.
O Bem chora a evaporação do dia.
Lágrimas de anjos pela humanidade crua.

Encontro e fuga de almas no ocaso,
Bebendo o sangue solar – poção
De luz para os dias de aço.

Crepúsculo incendiado.
Átimo de esperança: Um Serafim alado,
Flauta de estrelas flana acima de algas e corais.

Toca a música divina estremecendo cristais.
(Jazz, blues, salsa cubana, sinfonia?)
Som azul unindo sangue celeste e marinho.

Serafim, flauta e sol
Evaporam em silêncio de prece.
A branda noite abraça o arrebol.

O eco da flauta aos puros adormece.

in O sorriso de Leonardo / 2004


segunda-feira, 13 de maio de 2019

EM CARNE VIVA




Um poeta em carne viva
abriga a terrível pulsação
de um coração-estrela
e um silêncio
encravado nas entranhas
como filho bastardo
que nasce
à revelia do seu canto

Um poeta em carne viva
pisa as pedras
imaginando-as
seda da China

Um poeta em carne viva
é um louco no tribunal
das almas de chumbo:
culpado sempre

Culpado de ser humano da fala ao falo

Bárbara Lia

Tem um pássaro cantando
dentro de mim

2011

sexta-feira, 28 de dezembro de 2018

Jardim do Caos



IV

Homem Vitruviano de Leonardo
Tecido nas linhas finas da mão
Cinco pontas estiradas e a
Eternidade traçada no chão

Livres mulheres assinaladas
Atiradas ao reles jardim
Das harpias descarnadas
- feras sem dentes
que devoram inocentes -

Alguma razão que as estrelas guardam:
As mulheres de rara estirpe – livres -
São alvos de feras. Sempre acossadas
Por harpias que não iluminam nada.

Bárbara Lia
tem um pássaro cantando dentro de mim


quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018


Eu tinha certeza que o taxista era Jamil Snege. Tarde de verão e o agito da cidade antes do carnaval. Uma rua qualquer no Centro e você precisa ir de táxi, ainda que perto, ainda que ninguém entenda. O pé dói. Ponto final. O trajeto curto demais torna tudo mais surreal. Quero perguntar algo e temo que quebre o encanto. A camisa é tal qual aquela da única vez que o vi, saindo com um amigo da Livraria Ghignone, fumando um cigarro, a outra mão no bolso. Lembro que estanquei o passo em plena Rua das Flores e pensei: é o escritor. Fiquei com aquela imagem, com aquela vontade de não ser tão tímida, de atravessar metade da rua, falar com ele. Mas ele seguiu conversando e eu segui minha vida. Não demorou muito para saber de sua morte. Agora eu tinha certeza que era o Jamil Snege ali a me conduzir, com a mesma roupa, a mesma silhueta calma. Tive medo que ele começasse a praguejar contra o Lula ou falar de religião, como fazem os taxistas. Implorava aos céus que ele não quebrasse o encanto e me fizesse crer que nas tardes de verão Jamil Snege desce à terra e conduz, de forma invisível, os escritores invisíveis da sua Curitiba. "Como tornar-se invisível em Curitiba?" - Snege sabia. Para minha alegria e êxtase ele diz apenas: o sol está mais quente hoje. Sim, tudo está mais hoje, para minha alegria eu pude manter aquela fantasia. Quase disse a ele sobre sua célebre dedução que - para tornar-se invisível em Curitiba basta ter talento - quase disse: nada mudou... Mas, apenas desci e o vi desaparecer, a camisa azul clara, os cabelos brancos e esta certeza de que a magia existe, a gente a encontra ali, na próxima esquina, ao acenar para um táxi.



Barbara Lia

quinta-feira, 2 de novembro de 2017

OS MENINOS E EU

Os meninos empinavam pipas;
eu, pássaros.

Os meninos folheavam revistas
de garotas nuas;
eu, assistia ao namoro dos sapos.

Os meninos iam ao cine;
eu, atravessava a pé
o igarapé.

Os meninos desenhavam piratas
tesouros, navios;
eu, a escafandrista solitária.

Agora
solidão nos devora
em negros prédios
meio à elite ignara

Os meninos vestem
negro/desencanto
seguem com cifras
nas pupilas vítreas

Tão tristes os meninos,
reclusos, bebendo
o índice Dow Jones
junto com café.

Trocando de amantes
a cada inverno.
A alma pesada os faz andar
em cadência de elefante.

Eu,
desenho gravuras
em tons rosa chá
teço minhas roupas
danço minhas músicas
escrevo meus poemas.

Não atravesso
o vidro frio do templo
moderno
- shopping center –

Não atravesso
a porta de cedro
do antigo templo

(enquanto o Vaticano
não doar aos pobres
todo o ouro seu)

Vivo nas esferas
desço ao chão
para pisar águas
dos igarapés.

Adormeço
no berço-arraia
que me embalazul
no “mar/
belo mar selvagem...”


BÁRBARA LIA

segunda-feira, 30 de outubro de 2017

Esfarrapado e imundo



(...)

dei de cara com ele, enfim,

mendigo extraviado

que implora pra ser notado.

Eis o amor,

despejado

humilhado

não vive em estrelas

nem mar profundo,

nem no limite do mundo,

está sempre no meio do caminho

pedra

poema

estirado

cão sublime à espera

de um dono franciscano

que o acolha

com todas as chagas

e enganos.


Bárbara Lia
fragmento da poesia - sonhos em preto e branco

sábado, 21 de outubro de 2017

DEUS SORRINDO NA VARANDA



O quintal de Deus é o céu.

Um paraíso em uma ilha.

Alcançaremos quando formos náufragos.

Aguaçal encoberto de dor,

nascituro rompendo em harmonia

a eternidade - Deus sorrindo na varanda.

BÁRBARA LIA



quinta-feira, 3 de agosto de 2017

Diálogo com Paul Klee

Diálogo com Paul Klee - prosa poética no site mallarmargens
Bárbara Lia
escrevo um livro a dialogar com Paul Klee
como repercute a dor no artista
Klee morreu em 1940 vitima da esclerodermia
no site mallarmargens, minha mínima homenagem a Paul Klee



sábado, 29 de julho de 2017


Cigarras no apocalipse
São poetas em desalinho
Gestados no ventre escuro
Ninfas subterrâneas
Emergem em canto e vôo
Ao som da trombeta
De um anjo sem olhos.


Bárbara Lia _ fragmento da poesia _ Cigarras no apocalipse (21 gramas/2010)
“Até que os serafins acenem com seus chapéus brancos” _ Emily Dickinson _



Não nasci para resfriar o mundo
Neste lerdo cortejo de omissões
Estas palavras interditas
Suspensas

Não vim quebrar as pernas do sol
Silenciar cada bemol
Não vim para arrebentar o anzol
Do velho de Hemingway.

Sou mar e trovão no coração
Nasci para amar sem lastro
Para dançar no pátio
It is my way


_ Bárbara Lia _ A flor dentro da árvore
solidão _ brisa de maçã
paraíso em câmera lenta
aprendi a caminhar no vácuo
_ oco sem fim _
das almas inóspitas

Bárbara Lia


Fique em silêncio
como um ramo seco
Vem aí
uma primavera
te florindo


Bárbara Lia

SOPRO DE DEUS



Sigo distraído e breve – piedade na alma,
opulência no calabouço.

Sigo sereno, neblina me abraça.
Meu corpo um jarro de esperanças.

O amor – única navalha que me corta.
Aprendi que somos sopros de Deus – instantes.

Bárbara Lia/