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quarta-feira, 13 de novembro de 2019

segundo Borges


  

Segundo Jorge Luis Borges
por muitos anos
o autodidata Constâncio
dependeu do opaco livro de memórias
que pouco o ensinara

orçou o que aprendera
subtraiu o estado opinativo
viu que havia prosperado com a riqueza que forjara
agregou a si valores
razoou para o razoável

olhou adiante
agiu conforme as exigências
e por vários anos Constâncio
foi um grande homem
vivendo da adulação de sua propriedade intelectual

é o que consta no livro de memórias de Constâncio
segundo o nada confiável
senhor Borges.



Edson Falcão

quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

e quando a mão
que também escreve
desmanchar
não se irá pensar
em consertar a escrita
cada coisa a seu tempo
contemplaremos o necessário
aprenderemos a consertar
vamos consertar a mão.

Edson Falcão


Açudes

As bocas desses homens
aos açudes secos do sertão se assemelham
os rostos que se quebram como o chão pisado
suas bocas murchas e as rachaduras de suas mãos
ao solo seco se parecem
há quem pense que já nasceram com vocação para solo
com vocação para chão.

Edson Falcão


segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

latifúndio

A memória dá um tiro longo
visita casas de chuva
um menino sem rosto

seus olhos percorrem praças
desconhecidas praças

adivinha ele a futura fala
adivinha a árvore a direção dos galhos
flor fruto

procura os marcos
trampolins
o mudar abrupto

olha para um começo de vida
sua única propriedade

um vasto campo de visão
seu latifúndio.

Edson Falcão.
A Fachada e os Fundos.

Ladrões de caneta

A caneta com a qual escrevo
é presa por amarras como nas casas de comércio
onde não se levam canetas
nem se faz delas o que se quer
as amarras de minha caneta
têm a distância do meu passado.

Queria ter a coragem e a astúcia
daqueles meninos que roubam apenas
para desafiar o fio que os prende ao passado.


Edson Falcão.
in  A Fachada e os fundos.Curitiba 2010

domingo, 8 de dezembro de 2013

O Leitor cansado

Suponhamos  a dissolução
dos labirintos
suponhamos um leitor
sem esquinas
clara flexibilidade da linha do anzol
deixemos a imprevisível mulher cubista
o losango de sua pele
a qual abraçamos com muito custo
a qual seus dois olhos
vemos apenas por jogos de espelhos.

Edson Falcão



quinta-feira, 21 de novembro de 2013

O rato que rói meu rosto

1
a cidade fora da duração é um ponto
a noite é imperfeita
em qualquer lugar
não só aqui na altiva gruta de Santa Maria
carregada de perfeição
numa memória singular
envolta na irrealidade

por não ter o que dizer
digo esta cidade
que está sempre dita em mim.

Edson Falcão.A fachada e os fundos. 2010. p48

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

A Fachada e os Fundos


 Edson Falcão

Rompi com os afazeres da pressa
e carrego afazeres do sossego
embora ainda arraste
ossos de minha geração
sigo

embora ainda use
ossos de minha geração
como cabide de meus ossos
falo do ato de azulejar os fundos da casa

é momento de estranhar
o estado limpo das coisas
nos fundos da casa
como houve um momento
de falar do alegre azulejar da fachada
e suas falsas coisas limpas

como já cantei
o tempo agindo em nós
através de suas máquinas e
subterfúgios
como já cantei redondos verões
que não me trouxeram nada

sábado, 23 de julho de 2011

Estanos em obra

Abriram um diálogo na rua
que cruzo para chegar em casa
parecia o gás chegando o telefone chegando
o fim dos buracos
ou algo a ver com o progresso bem ajustado
e o caráter prático da vida

agora que saí do marco zero
estaca zero
não chego nem volto
não há como contornar e
se torna óbvio que é apenas um vazio

aqueles amigos que achavam que não conseguiriam
avançar para além do marco zero
estaca zero
já sabiam deste buraco diálogo conversa erosão.

Edson Falcão
A fachada e os fundos.