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segunda-feira, 25 de março de 2019


(para Luiza Melo)

não sei se giddens estava certo
: modernidade é uma crença
: não sabemos como funciona
mas queremos muito que sim

a chuva daqui também molha
o frio me exige teu jeito
exílio é um nome imperfeito
que quer nos dizer que demora

a casa, a gata, os cheiros
- lento como cigarro aceso
calor de incenso e cobertor

se giddens estiver certo, voo amanhã
pro teu lado - não sei como funciona
mas o avião voa, amor.

 Marcelo Labes

25 de março de 2018 ·




imagino que vocês tenham sabido
que esse país inteiro foi falido sob
as circunstâncias de nem bem uma
semana atrás: já não são possíveis

poemas de amor ou de circunstância
- então escrevo sobre a distância
que agride mais do que imaginava
fosse capaz neste país feito de homens

e livros, mas feito de mortes, de tiros
a esmo contra quem que se ponha
na frente deste trem desgovernado

aqui faz frio e não há o que comemorar
nem o outono, nem a poesia ou a primavera
- que já começa em algum outro lugar.

Marcelo Labes

20 de março de 2018 ·


(para o Caio, pela deixa e pela distância; para o Matheus)

sexta-feira, 28 de dezembro de 2018


do subúrbio levo esse cansaço
essa umidade apesar do sol
mofo se diz nos travesseiros
hoje chove de novo eu digo

adeus adeus paisagens adeus
morros se o sol só aparece para
destratar a pele clara os olhos
claros meu pai e suas marcas

da paisagem resta apenas uma
ideia quem sabe um cheiro de
grama cortada de mato com chuva

de merda de vaca de cachorro
molhado do subúrbio levo apenas
esse cansaço e essa tristeza.
Marcelo Labes


sábado, 10 de fevereiro de 2018


os policiais que miram nos jovens
negros e revistam as bolsas e mostram os cacetetes
e mostram quem manda os cães do estado
mostrando quem manda neles e eles mostrando
que obedecem
porque os cães são obedientes e bem alimentados

o casal com o carrinho de cerveja ela tão jovem
saia jeans evangélica e o marido tão jovem
anunciando a oferta de três latas por dez reais

os funcionários do bob's devidamente uniformizados
saíram em dupla com dinheiro na mão em busca
de troco o troco exposto na mão eles passam e correm
no meio do bloco de carnaval

um homem negro vestido de rei africano na escadaria
do rosário o maracatu o rei africano o rosário

a caixa do posto de gasolina que responde ao
bom carnaval com sim, claro, aqui atrás do balcão
e a senhora pergunta se ela trabalha direto e ela
responde que sim, trabalha direto e abaixa a cabeça
e sorri

a praça xv cercada de tapumes fecharam a praça
os moradores da praça distantes dos braços
da figueira que promete coisas depois de 7 voltas
ou outras voltas promete coisas a figueira de braços
abertos e vazios

um homem velho sentado embaixo da marquise
da loja de departamentos enquanto a chuva
porque não tem figueira nem abrigo ou casa

carnaval, o carnaval, o carnaval
eu fico triste quando chega o carnaval
cantado no elevador botão nove apertado
gustavo e luiza comigo

a porta a dois segundos de abrir
para depois voltar a fechar.

Marcelo Labes