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quinta-feira, 13 de agosto de 2020

TEMPO SUJO

 


 

No Brasil, é agosto

o mais cruel dos meses.

Apesar do escândalo dos jasmins

e da solar promessa dos ipês,

a tarde virara uma noite de agudas estalactites.

Não ousei virar o rosto para trás,

pois não pode haver passado onde o futuro é um acinte.

As trombetas talvez soem álacres

diante do impropério de estar vivo. Rasguemos

as ilusões: o horizonte agora é outro.

Na esquina, um pedinte exibe as chagas e o sangue é vil e sujo como a vida. Volto para a casa,

anônimo de mim. Tornei-me enfim adulto.

(Sei que em algum lugar uma criança negra morre

com um tiro na cabeça.)

Não tenho adagas para me rebelar.

E a adega dos poemas está seca. Como os olhos.

Carlos, o tempo ainda não chegou de completa justiça.

O tempo ainda é de fezes, alucinações e golpes sujos.

 

Otto Leopoldo Winck

(De 'Cosmogonias')

quinta-feira, 21 de maio de 2020


Foi quando eu abri a janela
e entendi que a noite acabara.
Da madrugada só restara
a prata velha do orvalho
no mato antigo da estrada.
E um vulto escuro contra o dia
que, incontestável, surgia.
Era o passado? Era o futuro?
Não sei. Só sei que quanto mais
o fitava, mais o perdia.

Otto Leopoldo Winck

INSCRITURAS



Inscrevo estrelas
na córnea dos teus olhos
insones. Carruagens
de fogo nos desnudam.
A vida ora é azul
como brisa,
ora escura,
como blues.
Se corto meu pulso
o que escorre é a nostalgia
de uma era em que tudo era crível.
Todas as estradas do mundo
são insuficientes
para o anelo de meus pés descalços.
Acorda, olha lá fora:
é dia mas uma lua de sangue,
enorme,
derrama seu mênstruo
sobre a cidade.
Inscrevo cometas
na sola dos teus pés cansados.
Depois os apago
com o sal de minhas lágrimas.
A vida é qualquer coisa assim
entre um conto
e um assombro.
Otto Leopoldo Winck

PERSISTÊNCIA



A minha voz
– folha seca, passarinho –,
voando na voragem vã do vento,
quer repouso,
quer silêncio.
A minha voz quer ser pedra
(no meio de todos os caminhos),
quer ser bronze, raiz, altar, cimento,
mesmo sendo tolice,
mesmo sabendo que será pó do mesmo jeito.
É por isso que ela,
cansada no ar,
no vento
e no céu,
cai
de
boca
e
sangra
– na superfície branca do papel.
Otto Leopoldo Winck
(Outro poema dos meus 18 anos, do livro "Flor de barro", encontrável só nos sebos.)

ESACORDE



Acordo em total desacordo
comigo, de acordo
com o ricto sutil no espelho
e o desacorde dos dias.
– Bom dia – saúdo o vizinho,
sabendo que o dia é avaro
e o bem é restrito.
Na valise que arrasto nas ruas
há um deságio de sonhos
e esperanças vencidas.
Acordo em total desacordo
comigo. Mas de acordo
com todos. – Bom dia – responde
o imbecil do vizinho.
Otto Leopoldo Winck

segunda-feira, 18 de maio de 2020



"Às vezes eu penso que a gente pode ter num momento, numa fração de segundo, numa fração de fração de segundo, a compreensão do universo. É um poente, uma brisa, um cheiro que traz de volta a infância, o sorriso da garota que senta ao seu lado. De repente, a gente compreende tudo. Coisas aparentemente sem valor enchem-se de sentido. Outras, que pareciam centrais, revelam-se vazias. Mas aí aquele instante passa. Na fração de segundo
seguinte a ignorância retorna, invencível. Nossa estrutura é incapaz de reter a verdade."

Otto Leopold Winck.  Jaboc

O FIM DE TUDO



 O fim de tudo
é como
um livro lido:
depois da trama,
vem sempre o fecho.
O fim de tudo
é como
um palco mudo:
depois do drama,
cai sempre o pano.
E eu, aqui na cama,
ou no teatro,
não mais me engano:
no fim, o sonho
é melhor que o feito
e o boato maior
que o fato.
Não me iludo:
depois de tudo,
vem sempre o nada.
(E você,
aí na rua,
não tem mais Ítaca
para voltar.)
Otto Leopoldo Winck




"- Veja a Virgínia, por exemplo: novinha, gostosa, delicada. Pode se dar ao luxo de efusões líricas. Eu e você não, Minhoca. Ou fazemos uma literatura cerebral, para crítico poliglota decodificar, ou uma literatura recheada de esperma e porrada, o que dá na mesma, não dá? O ser humano macho, branco, adulto e ocidental é só isso: cérebro e colhões. Elucubrar e foder, é somente isso o que ele sabe. Não tem coração, porque o amor é foda, Minhoca, o amor é foda. E não há nisso nenhum trocadilho."

Otto leopold Winck

Jaboc', capítulo XXIII

A VIDA NÃO CABE NO POEMA



A vida não cabe no poema.
A vida é conta, desencontro, correria.
O poema, ora,
o poema são palavras no papel.
É verdade que palavras e papel
também são vida, ou melhor, fazem parte do que chamamos
vida, como pão, boleto, escola e menino de rua.
Que seria da escola sem o papel?
O boleto vem impresso aonde?
E o menino vai catar o quê para comprar o pão?
(Pão que, aliás, se compra com papel-moeda.)
Isso sem falar das palavras.
Com elas
posso pedir a conta
do bar
ou do lugar aonde trabalho.
Com elas
posso dizer te amo,
escrever teu nome,
ou te xingar filho-da-puta.
Mas apesar de tudo isso
– ou por causa exatamente disso –
a vida,
ah, a vida,
não cabe no poema.
A vida raramente rima,
quase nunca tem metro,
e amiúde desborda de qualquer papel.
O poema,
ao contrário,
é muito pequeno,
muito limitado é o poema,
ainda que epopeia.
Mas é com ele,
o poema
– este pobre artefato de palavras – ,
que eu intento reter a vida
ou
o que me resta dela depois que eu a perco.
Otto Leopoldo Winck


De agora em diante
não vale só o verso.
Vale o reverso, o remorso, o remendo.
Vale o sorriso e o siso. Mas vale também
o choro, o corte, o sangue no branco do olho.
Sim, ainda valem as flores, e muito mais os amores.
Mas o que conta agora são outras cores:
o céu sem estrelas, o sol ardendo nos olhos
e um travo na boca.
Sim, eu sei, vale o verso, a lágrima, a água límpida do canto
mas vale mais a faca
nos dentes, o aperto no peito. Vale o gesto do abraço
mas vale também o braço erguido do adeus.
Vale o beijo e vale o escarro. O pejo, o escárnio, o asco.
Vale a mão que planta no chão, a mão que recolhe
o fruto maduro, mas vale também o punho fechado
contra o céu de chumbo.
São tempos diversos, estes.
Otto Leopoldo Winck


"Que fim levaram todas as flores" também é um roteiro lírico de uma Curitiba perdida, só parcialmente recuperável pela memória ou pela literatura: bares, boates e prostíbulos da época (vocês não imaginam a pesquisa que foi preciso!)  desfilam por suas páginas:
"Minha rotina: acordava, geralmente sobressaltado, com o despertador estridente, às sete horas. Me arrastava até a Barão do Rio Branco, ali perto, e, cabeceando de sono, varava a manhã – as aulas do Lessa e os seios de Vera eram, agora, as únicas coisas que me interessavam. Sempre que podia, almoçava com Adrian e Elisa, que me conseguiam fazer entrar, sorrateiro, no restaurante universitário. Depois, na cantina da Reitoria, tomávamos um café – ou então ficávamos flanando pelas redondezas, em inflamadas conversas. Sempre havia um livro novo, um evento novo, uma ideia nova para debatermos. Quando não almoçava com eles, comia nos restaurantes populares da Praça Zacarias. Depois dava uns rolês pelo Centro, olhando as vitrines, as livrarias, as manchetes dos jornais, os cartazes de cinema, ou então espreitando, a uma distância segura, algum par de coxas que se sobressaía debaixo de uma minúscula saia. Tinha dias em que me aboletava em algum banco do Passeio Público, e aí, debaixo das árvores centenárias, dividia-me entre um livro e a contemplação, com olhar quase científico, dos tipos que por ali transitavam. Pelas quatro retornava à pensão e aí, sem televisão, sem rádio, sem toca-discos, me debruçava mais uma vez sobre brochuras, plaquetes e revistas. Às vezes passava à tarde na Biblioteca Pública, na Cândido Lopes, numa verdadeira disciplina de leituras. Marx não gostava de Balzac? Então dá-lhe A mulher de trinta, Ilusões perdidas, Eugenia Grandet... À noite, depois de uma média e um pão d’água na chapa com ovo frito, saía para a boemia: um cinema, um teatro, um café, um bar, muito bares: o Zunzum, na Duque de Caxias, a Velha Adega, na Cruz Machado, o Guairacá, ao lado do Palácio Avenida, o Cometa, na Quinze – e mais caminhadas em confabulaçõs intermináveis agora só com Adrian (por conta da tia austera, Elisa mal saía à noite). Algumas farras terminavam em vômitos de rabo-de-galo, gim e hi-fi nos bancos das praças Osório ou Tiradentes. Quando, altas horas, a fome nos assaltava, a salvação era o Okey, na Travessa Jesuíno Marcondes, o Bar Palácio, na Barão do Rio Branco, ou então, novamente na Quinze, o Mignon e o Triângulo, que disputavam a fama de terem trazido o primeiro cachorro-quente para Curitiba – com uma ou duas vinas, não importa. Mais tarde incluímos nessa peregrinação as boates e as casas de tolerância. Como não tínhamos cacife para a famosa Stardust, na Osório, e a lendária Marrocos, na Marechal Deodoro, já havia fechado as portas depois que seu dono fora assassinado por um cliente injuriado, atracávamos na Boate Tropical, no Passeio Público, com atrações que incluíam striptease, ainda novidade na cidade, ou então em lupanares mais modestos, como a Casa da Otília, na Fernando Amaro, com suas luzes multicores sobre a porta de entrada. Eu, por conta de minhas dificuldades monetárias, restringia-me quase sempre ao papel de espectador: um espectador muitas vezes triste, cônscio de sua sordidez e da sordidez intolerável do mundo. Quem sabe um dia a revolução resolvesse esses problemas: as paixões do baixo-ventre e os amores impossíveis."

Otto Leopold Winck

Volto a um velho tema, a uma velha obsessão. A volta pra casa. A volta pro lar. Depois de uma longa jornada. Depois de uma longa guerra. Aí está Ulisses diante do lar. O portão está derruído. A velha casa em ruínas. O mato cresce por toda parte. Nenhum sinal de Penélope. Nem Ulisses é o mesmo: seus traços estão cansados, suas melenas longas e brancas. Não há quase nada do velho guerreiro.
Assim é a vida: não há um porto seguro pra retornar. Tu nunca voltarás à infância. O passado está enterrado. Os ponteiros do relógio só andam pra frente. A areia da ampulheta não retornará nunca. E ainda que tu te banhes no rio da memória, tu já não és o mesmo. E assim como o passado, que não existe mais, o futuro também não existe -- não existe ainda ou não existirá nunca. Um dia deixarei de atualizar esta página -- ou porque terei enchido o saco desta rede social ou porque estarei morto. Sim, morrerei um dia. E este dia pode ser amanhã. Basta atravessar a rua sem reparar no expresso que vem ou contrair uma versão agressiva do covid... Tu também morrerás um dia, hipócrita leitor (para parafrasear Baudelaire). E então o que temos? Temos só o agora, o instante que corre -- e às vezes isso é suficiente para tornar uma vida gloriosa. Ulisses, não olhes pra casa que foi. Construa uma casa de luz no dia de hoje. Fomos feitos para este dia. E é glorioso estar vivo.

Otto Leopoldo Winck

sábado, 9 de maio de 2020


Como uma puta louca
a lua nasceu atrás dos prédios
na louça azul do céu de maio.
Não houve desmaios.
Mas, caralho, a lua assim,
tão grande, tão branca, tão nua,
é muito lírica.
Otto Leopoldo Winck

RAÇADOS



Na verdade
Deus escreve torto
por linhas igualmente mal traçadas.
Todo anjo é barroco
e os santos
foram expulsos da República
juntamente com os poetas.
Na verdade
nenhuma luz é pura
e em excesso sempre cega.
Por isso tenho andado à sombra
e pelos caminhos mais escusos.
Sol e lua, carrego-os no bolso,
com um magote de estrelas
– cuidando que ninguém o saiba.
E o canto que ora canto
é feito de barro e madressilvas
em escalas variadas de silêncio.
Otto Leopoldo Winck

O ÚLTIMO NEFELIBATA



Todo mundo é meio nefelibata em Curitiba. Meio pitagórico, meio vampiro, meio cachorro louco. Eu também. De dia durmo, rumino, medito. De noite saio, tomo uns tragos, frequento becos, bocas, contemplo a lua – quando ela dá as caras, é claro. Já fui professor de cursinho, redator publicitário, corretor de seguros, vendendor de móveis usados. Já vendi plano de saúde, assinatura de tevê a cabo, filtro dágua de barro. Até apontador de jogo de bicho já fui. Como não tenho mais idade para fazer malabares e ainda me sobrou um pouco de vergonha na cara para pedir esmola, estou aí, arrolado nas estatísticas dos sem ocupação. Mas não pensem que eu sou um desocupado. Trabalho duro. Teimo, limo, sofro, suo. Passo os dias – é preciso acentuar – compilando meus poemas. Trinta anos de produção. Não é fácil, meu amigo. Trinta anos alinhavando palavras, catando rimas, escandindo sílabas, marcando cesuras. São páginas e páginas de papel almaço, cadernos escangalhados, folhas datilografadas ou digitadas e impressas nas lan houses mais ordinárias da cidade. A maioria não presta. Sei disso. Depois de muito esforço, quem sabe eu consiga o suficiente para um opúsculo. (Opúsculo, gosto dessa palavra.) Falam de morte, de bruma, de brisa, de lua. E de mãe. É, e de mãe. Freud explica. Ou o diabo. Ah, esqueci de contar: moro com a minha mãe, num apartamento encardido do Alto da Quinze. Ela é aposentada do estado. Com o que ganha, pagamos aluguel, condomínio, luz. O telefone está cortado. Meu celular não sabe o que é crédito há uma cara. Como a aposentadoria dela é uma merreca e eu, como você viu, estou sem renda, é visível que para comer está difícil. Espremendo daqui e dali, fazendo mágica e reza brava, dá para um comer. É claro, sem luxo, pieroguis, estrogonofe, torta alemã, como antigamente. Para dois, ah, isso não dá. Por isso ela vinha dizendo, a velha: ou é tu ou sou eu. Não dá para os dois. Como tu não bota nada dentro de casa há muito tempo, tu cata as tuas coisas e cai fora. Eu dizia: peraí, mãe, pega leve. Não é fácil falar essas coisas, meu irmão. Mãe é sempre mãe. Pode ser velha, pode ter sido puta, mas é mãe. Deixa eu tomar mais um gole, está muito frio, essas noites de Curitiba são o diabo. Como eu tenho essa grana? Olha, meu amigo, a gente pode pasar fome, necessidade, mas sem os vícios a gente não passa. Às vezes rola um bico, um trampo, um trambique. Às vezes, no maior desepero, passo a mão em alguns livros lá da estante e vendo num sebo. Já tive uma senhora biblioteca, prateleiras e prateleiras de lombadas com títulos em francês, inglês, italiano, além dos brasileiros e portugueses de minha estimação: Antônio Nobre, Cesário Verde, Cruz e Souza e o pobre Alphonsus. Agora, não passam de algumas dezenas. Mas quando, assim mesmo, estou sem um puto, ah, aí eu apelo. Na bolsa da velha confisco um trocado. Fico sem remédio, sem comida – um pastel dá para o gasto – mas não fico sem o meu trago. Pobre velha, hão de chorar por ela não digo os cinamomos mas pelo menos os chorões carpideiros da Fernando Moreira. É, meu chapa, estou decadente. Je suis l’émpire à la fin de la décadence, saca? Na verdade, sou decadente: estrela caída, albatroz sem asa, flor do absinto. Sempre fui. Décadence avec élégance. Foi-se a élegance – já fui dândi, echarpes longuíssimas, cabelos à Oscar Wilde –, ficou a décadence. Mas eu não contei tudo. Deixa beber mais. In vino veritas, não é assim? Agora, com o conhaque, a verdade é mais letal. Bom, como eu ia falando, esta noite, ao sair de casa, fui me despedir da velha e não escutei o seu natural grunhido. Recuei, chamei-a novamente. Nada. Silêncio absoluto. Entrei no quarto (eu durmo na sala) e mais uma vez nenhum sinal. Ela teria saído para comprar um cigarro, ir à igreja, ao supermercado, sem que eu percebesse? Não, já era tarde e ela não costuma sair de noite por medo do sereno, da friagem, dos craqueiros. Entrei então no banheiro, pé ante pé, temendo o pior, sabe-se lá, a velha é louca. E vi. Atrás do box quebrado, lá estava ela, pendurada do cano do chuveiro (chuveiro elétrico; detalhe: queimado). Não aguentei. O baque foi grande. Saí para espairecer, dar umas voltas, bater perna, enquanto o corpo esfria. Com o frio que está fazendo, meu irmão, esfria logo, logo. Aliás, o corpo dela nunca foi muito quente. Calor ali só no ódio votado ao filho. Então é isto: saí para relaxar. Gola erguida, chapéu enfiado nos olhos, o rosto contraído contra o vento gélido, sigo pelas ruas, ruelas, vielas, as mais escuras, as mais desertas. Medo de algum maluco, algum drogado? Absolutamente: na mão crispada dentro do capote, a faca. Um dia um piá veio se meter a besta e ficou estirado na calçada, sangrando. Já disse, sou meio louco, vampiro, degenerado. Minha vida é assim. Entro num boteco, peço uma dose, engulo alguns rollmops quase apodrecidos, pago, pego as moedas sobre o balcão, saio de novo. O vento me corta o rosto e, somado ao álcool que começa a circular nas veias, me dá um estranho prazer. A mão no bolso, apalpo o cabo da faca. Logo encontro outro cabo, maior, latejante, aflito por uma bainha sorrateira. Mas não há nenhuma polaca na rua capaz de me satisfazer por vinte pratas. Amigo, a vida é dura para quem nasceu poeta e sem vocação alguma para ganhar dinheiro. Prossigo meu caminho, que é caminho nenhum, transeunte sem rota, sem norte, sem aura, às avessas. O passo veloz, corto as ruas, as esquinas, os canteiros. Alcanço o Largo da Ordem, a essa hora hora ainda povoado pela burguesia adiposa de Curitiba. Atravesso a Praça Tiradentes, escura, um casal bolinando num banco, um mendigo dormindo no outro. Desço pela Rua das Flores, cruzo por punks, ratazanas atravessam o calçadão quase deserto, salvo dois ou três notívagos. Passo pela Boca Maldita, agora calada, seus aposentados dormindo e sonhando com outra Curitiba que os anos não trazem mais. Atinjo a Praça Osório e saúdo – salve, salve, meu príncipe – o busto de Emiliano Perneta na herma entre os pederastas. Todo mundo é meio taciturno em Curitiba, meio poeta, meio louco, meio simbolista. Deve ser o fog londrino que por descuido de São Pedro veio parar também aqui – ou então é o espectro do Dario Veloso ou do Rocha Pombo que não nos deixa em paz. Quanto a mim, sou inteiramente sombrio, hipocondríaco, merencório, como se dizia antigamente. (Merencório, gosto dessa palavra.) Nasci sob o signo de Saturno, odeio sol, odeio luz, odeio sorriso de criança. Jardins, triciclos, balões coloridos? Estou fora. Chás em academias, ciclos de leitura, cafés com viados metidos a intelectuais? Também estou fora, camarada. Dou a volta, subo pela Visconde de Guarapuava, chego à Fernando Moreira, observo os supracitados chorões sobre o córrego que não vê peixe há muitas décadas e me recordo da enforcada. Meu velho, eu me preveni. Do último trampo me sobrou uma grana, com a qual eu fiz um seguro para ela. Com o cobre edito o opúsculo. O título? O último nefelibata. É isso aí, cara, eu sou o último nefelibata, o último autêntico dessa capital provinciana que já teve dias melhores e que por um mero acaso, já disse, um puro capricho dos deuses, veio parar nesse país entre os tristes trópicos. Subo agora pela Cândido Lopes, ali a Biblioteca Pública, museu dos paranistas. Mais uma dose. Pelo menos eu vou ficar com o seguro. Menos mal. Para ela eu acendo uma vela, afinal era minha mãe, doidivanas, decrépita, mas minha mãe, uma vela bem grande, do tamanho dela, preta, que é para ela não sair do inferno. Uma estadia no inferno? Não, a eternidade. Ela disse: com a titica que eu ganho só dá para um, endendeu? Só dá para um. Como tu não serve para nada, nem para consertar a bosta de um chuveiro, tu cai fora. É duro ouvir isso da mãe da gente. Bom, a conversa está boa mas eu vou andando, tenho que dar parte na delegacia. Seu delegado, que horror, a minha mãe se matou, se dependurou do cano do chuveiro em seu último cachecol. É conveniente chorar um pouco. Mas bem pouco. Ninguém chora muito por uma velha louca. A noite, a brisa, a bruma, o álcool me dão uma estranha sensação, como eu disse. À mente me vem versos, árias, imagens. Quero morrer assim: uma garrafa de conhaque de um lado, um livro do Edgar Allan Poe do outro. Tedium vitae, spleen, nevroses, como se falava. (Nevrose, gosto dessa palavra.) Já disse: sou meio louco, vampiro, cão danado. Já fui pitagórico, rosacruz, bati ponto no Templo das Musas, já bebi sangue de galinha no cemitério. Agora estou mais cool, o meu divertimento é tomar um conhaque e andar a esmo pelas ruas de Curitiba, saudando os mendigos, as prostitutas, os invertidos. Sou poeta e portanto inadaptado à vida. Sem um trago, meu velho, não dá. Não dá para aguentar o frio, não dá para aguentar a vida, não dá para aguentar a velha me dizendo todo santo dia, como se eu tivesse dezessete anos, que se eu não arranjar mufunfa alguma ela me enxota de casa. Que Deus a tenha. No inferno não vai precisar de chuveiro elétrico. Nau sem rumo, barco embriagado, estou de volta ao São Francisco. Me apraz contemplar as fachadas desses casarões centenários na névoa das três e quarenta da matina. Pouca gente na rua agora, um guarda noturno, um cachorro sarnento, um velho fedido dormindo na rua. Mas devo seguir, despetalar até o fim a última flor do mal. Me desvio de um crioulo bêbado, atravesso a avenida, os faróis do carro são duas grandes nebulosas. Chego a este bar, quatro mesas, três fregueses e encontro você – que me fez a gentileza de ouvir esta história. Foi muito boa a conversa, meu chapa. Deu para espairecer. Mas devo seguir viagem. Cumprir meu destino. O corpo já deve estar frio, gelado, ficando azul, os olhinhos saltados. Muito prazer. Deixa que esta eu pago. Faço questão. Não está lembrado? Eu tenho uma chelpa para receber. Com licença, preciso ir à delegacia. Que maçada essas coisas, velório, enterro, apertos de mão. Parente velho só serve mesmo para morrer. Eu nunca fui muito prático. Fazer o quê? É a vida. As pessoas nascem, as pessoas morrem. Entre uma coisa e outra elas pagam contas, tomam remédios, suportam filas e se desesperam. Algumas, as mais sensíveis e delicadas, fazem versos, como eu. Versos inúteis que não publicam. Ah, mas dá na mesma, foder ou ser fodido, escrever ou ser escrito, poeta ou salafrário. Agora eu vou. Encaro o delegado e conto que a velha se matou. Afinal, foi ela que disse: ou é tu ou sou eu. Não dá para os dois. Ou danço eu ou dança ela, meu irmão. Como eu sou mais esperto, dançou ela. Todo mundo é meio psicótico em Curitiba. Menos eu.

Otto Leopoldo Winck

quarta-feira, 18 de março de 2020

Frágil




feito de sonhos
& lembranças
me arremesso
no teu colo
feito um pássaro
assustado

Otto Leopoldo Winck


entre uma noite
e outra
um ligeiro fulgor:
esta é a vida
isto é tudo
que temos
e somos

por isso vamos dançar
ébrios da luz
dessa chama breve

que a vida
é este pouco
este quase nada
isto é tudo
e este tudo basta:

uma chama
um chamado
uma dança
de duas breves
borboletas

Otto Leopoldo Winck


há um corpo no chão
entre transeuntes que passam apressados
observam curiosos
se desviam
fazem perguntas
é só um corpo
mais um entre tantos

um corpo morto
um corpo negro
um corpo jovem

é bom saber que a polícia está fazendo o seu trabalho

Otto Leopoldo Winck


Lua. Uma é a lua que vejo, outra a lua que escrevo. E nenhuma delas tem relação com a lua real para além da visão e da escrita. O que isto quer dizer? Que a literatura não tem nada a ver com a vida? Não necessariamente. A literatura ora vampiriza a vida, ora a ilumina. Representação e transfiguração -- eis o efeito da literatura. O poeta é pintor e xamã. Testemunha e bruxo. Lua. Que lua é esta?

OLW


Curitiba é uma província.
Diminuta, tacanha, ensimesmada.
Mas não na literatura: na literatura Curitiba é um gigante.
Já houve tempo que a literatura em Curitiba se reduzia a alguns pálidos satélites em torno de um ou outro luminar: Emiliano, Newton Sampaio, Dalton, Leminski...
Esse tempo acabou: hoje Curitiba é uma galáxia, uma nebulosa, uma constelação onde luzem aqui e ali dezenas de asteroides de primeira grandeza.
Ainda há uma certa autofagia, uma excessiva timidez, um medo de se apresentar e dizer "oi, tô aí", mas, fora isso, onde outra cidade com tantos poetas, prosadores, ensaístas e tradutores de responsa?
É esta Curitiba que eu viajo.
Não a do Moro, do Grega e da bancada do camburão.

Otto Leopoldo Winck (10 de março de 2018)