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quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

CONHEÇO VOCÊS PELO CHEIRO

ANTOLOGIA PESSOAL 11

Conheço vocês
pelo cheiro,
pelas roupas,
pelos carros,
pelos aneis e,
é claro,
por seu amor
ao dinheiro.
Por seu amor
ao dinheiro
que algum
ancestral remoto
lhes deixou
como herança.
Conheço vocês
pelo cheiro.
Conheço vocês
pelo cheiro
e pelos cifrões
que adornam
esses olhos que
mal piscam
por seu amor
ao dinheiro.
Por seu amor
ao dinheiro
e a tudo que
nega a vida:
o hospício, a
cela, a fronteira.
Conheço vocês
pelo cheiro.
Conheço vocês
pelo cheiro
de peste e horror
que espalham
por onde andam
– conheço-os
por seu amor
ao dinheiro.
Por seu amor
ao dinheiro,
deus é um
pai tão sacana
que cobra por
seus milagres.
Conheço vocês
pelo cheiro.
Conheço vocês
pelo cheiro
mal disfarçado
de enxofre
que gruda em
tudo que tocam
por seu amor
ao dinheiro.
Por seu amor
ao dinheiro,
é com ódio
que replicam
ao riso, ao gozo,
à poesia.
Conheço vocês
pelo cheiro.
Conheço vocês
pelo cheiro.
Cheiro um e
cheirei todos
vocês que só
sobrevivem
por seu amor
ao dinheiro.
Por seu amor
ao dinheiro,
fazem até das
próprias filhas
moeda forte,
ouro puro.
Conheço vocês
pelo cheiro.
Conheço vocês
pelo cheiro
de cadáver
putrefato que,
no entanto,
ainda caminha
por seu amor
ao dinheiro.

Ricardo Aleixo

do livro impossível como nunca ter tido um rosto
(Edição do autor, 2015)


sexta-feira, 7 de outubro de 2016

Bem aventurada é a casa em que se pode, numa sexta à noite: 1) ouvir Edu Lobo cantando que o coração dele é "noturno feito um morcego"; 2) tomar cerveja sem milho transgênico; 3) comer acarajé; 4) amar para sempre uma mulher que custou tanto a chegar mas que enfim chegou.

Ricardo Aleixo

sábado, 14 de novembro de 2015

Não totalmente francesa


Soam
sob o silêncio
da noite da cidade
de Paris
A língua-fetiche
de Jeanne Duval
- a "Vênus negra"
de Baudelaire
a língua
dos poemas negros
de Tzara
a língua da ilha-litania
de Aimé Césaire
A língua-balafong
de Sèdar Senghor
a língua franca
de um Orfeu Negro
ou muitos
conforme ouvida
por Jean Paul Sartre
a língua sem máscaras
brancas
de Frantz Fanon
A língua-música
sem vibrato
de Miles Davis
a língua toda sol
de Henri Salvador
a língua-sound system
do MC Solaar
a língua-exílio
de Richard Wright
a língua do canto-exílio
da Josephine Baker
figurada em fio de ferro
por Alexander Calder
a língua-duplo exílio
em terra estranha
de James Baldwin
a língua-zona de fronteira
de Patrick Chamoiseau
a língua dos três rios
que correm nas veias
de Leon-Gontran Damas
a língua errante
do caos-mundo
de Édouard Glissant
A língua da estrela
que brilhou uma só vez
de Depestre
a língua da estrela púrpura
de Rabearivelo
a língua dos pequenos
contos negros
também para crianças brancas
de Blaise Cendrars
A língua da Marselhesa
convertida em samba
por Clementina de Jesus
no Olympia
anterior à fadiga
de todas as línguas
A língua dos que
ninguém nunca ouve - não
totalmente francesa

(poema do Ricardo Aleixo, no livro Modelos vivos, 2010)

quinta-feira, 28 de maio de 2015


Como todo mundo que me conhece sabe, o arroz com feijão entra nesta casa graças a ocupações que o mundo do trabalho, "talvez por ignorância, ou maldade, bem pior", apenas ignora: a poesia, a performance, o design sonoro.
Cada novo trabalho, nesses campos, representa como que um recomeço. Para além da escassa interlocução crítico-criativa, sozinho aqui nesta minha reclusão benfazeja, existe a necessidade de contínua atualização quanto ao uso dos equipamentos a serem usados, o que torna tudo muito confuso e aparentemente sem rumo, por vezes.
Assim, é de encher os olhos e o coração um email profissional - relativo a um esboço de rascunho da hipótese de projeto de design sonoro para uma animação que apresentei ao contratante na segunda-feira passada -, recém-enviado, que começa assim: "estou emocionado, está muito bom. estou pregando, ainda grosseiramente, pois você ainda vai regravar... então colo nos vídeos e está batendo demais."

Uma "pausa de mil compassos" em memória dos melhores pai e mãe do mundo, por terem me incentivado a ouvir a intuição e a escolher, para ganhar a vida, só o que me fizesse (muito) feliz.

Ricardo Aleixo

quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

faxina

Ricardo Aleixo


comida quase pronta
vinho branco
"a bad donato" no talo
vontade de escrever

coração leve

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Ricardo Aleixo

O melhor, nesses casos, é não demonstrar medo, senhora.
Mas... Sentir, eu posso?
Aguarde mais um instante, por favor, senhora, que eu vou consultar o sistema.
Sim, eu aguardo.
(...)
Senhora, obrigada por aguardar. Só mais um instante, por favor. Pronto.
E então? Posso?
Pode, senhora, mas, como já informado, não deve demonstrar publicamente o que sente.
Não demonstrarei. Já é um alívio poder sentir... medo. É quase uma alegria, sabe?
Desculpe, senhora, mas não sei. Em que mais posso ajudá-la?
Por ora, é isso, filha. Muito obrigada.
O sistema agradece. Tenha um bom dia.

Você também.

domingo, 30 de novembro de 2014

Ricardo Aleixo


A pergunta é: por que continuo a insistir em fazer tudo (em poesia/arte) sozinho? Resposta (serena, nem um pouco desencantada): por opção (ou ilusão de) e por (quase absoluta: existem, afinal, as raras boas parceiragens) falta de opção. Como dizia minha mãe, quem quer, faz; quem não quer, manda ou pede. Eu vou e faço. Até prova em contrário, faço eu muito bem.
Ricardo Aleixo


Desce do carro com o som no talo. Agora há pouco. Ouve o quê? Sertanejo, é óbvio. Deve ser pouco mais novo que eu. Deixa a porcaria tocando enquanto entra na padaria. Como um xerife. Todo bíceps. Pernas arqueadas. E óculos escuros, apesar do tempo fechado. A sonzeira é parte indissociável do carro - tal como o "possante" é, por certo, uma extensão de sua nunca suficientemente confirmada virilidade. O pior de tudo: pensar que a macheza mais escrota - porque embalada em discursos de solidariedade com os feminismos - é capaz de artifícios que deixariam no chinelo o pobre diabo que acabei de descrever.
Ricardo Aleixo


Isto foi escrito (Barthes o fez) para nós: "Se fosse possível imaginar uma estética do prazer textual, cumpriria incluir nela: a escritura em voz alta [em itálico, no original]. Esta escritura vocal (que não é absolutamente a fala), não é praticada, mas é sem dúvida ela que Artaud recomendava e Sollers pede. Falemos dela como se existisse."

SOBRE ESCREVER



Escrever porque esta é,
sem sombra de dúvida,
a melhor hora
para escrever.

Não escrever porque esta,
verdade seja dita,
é a melhor época
para não escrever.

Escrever porque esta,
convenhamos,
não é a melhor ocasião
para escrever.

Não escrever porque este,
antes e acima de tudo,
é o melhor turno
para não escrever.

Escrever porque este,
só um cego não vê,
é o melhor tempo
para escrever.

Não escrever porque este,
apesar dos pesares,
é o melhor mês
para não escrever.

Escrever porque esta,
até segunda ordem,
não é a melhor noite
para escrever.

Não escrever porque este,
em última instância,
não é o melhor século

para não escrever.

Ricardo Aleixo

domingo, 23 de novembro de 2014

Um poeminho-lembrete:

Pé no caminho
andando a esmo
dono de nada
nem de ninguém

só de mim mesmo

Ricardo Aleixo

sábado, 30 de agosto de 2014

Ricardo Aleixo


Inteligente mesmo é a mulher que sabe que não é verdade que (ouvi esta no metrô, ontem à noite) "todo homem, no fundo, tem medo de mulher inteligente". Eu, hein? Pois se não ter medo é justo a exigência que se faz a quem quer que deseje chegar a qualquer fundo... Inteligência é sexy.

sexta-feira, 29 de agosto de 2014

A TRÊS POR QUATRO

Ricardo Aleixo

Aos 18 já escapara
do Exército
e estava a poucos
meses de escapar
de vez da escola -
dividido entre
o jogo de bola
e o da poesia.
Dali até agora
do que mais
(e
como?)
escaparia
aquele tosco
Maiakovski

de periferia?

domingo, 24 de agosto de 2014



Foi assim com a minha mais velha, depois com a do meio, não tinha por que fazer diferente com o terceiro. É só dormir no meu colo, que eu chego bem perto do ouvido e repito uma duas três vezes, no limiar do silêncio: "Nunca deixe ninguém entrar na sua cabeça, anjo. Nunca, entendeu? Ninguém." Acho que meu pai fez isso comigo, também. Ou será que foi minha mãe?

Ricardo Aleixo

sábado, 23 de agosto de 2014

A RECUSA DA MUSA



A RECUSA DA MUSA
& tem
agora
a história
da musa
que escolheu existir
de verdade ("gosto
de existir")
em lugar de morar (morrer?)
para sempre num
hipotético ("te escrevo

um?")

Ricardo Aleixo

terça-feira, 19 de agosto de 2014

Ricardo Aleixo


Encontro o amigo de infância próximo ao supermercado. Ele me pergunta se estou indo às compras. Eu: Sim, vou comprar coisa pouca, alguns víveres. Ele ri da palavra e diz que eu não mudei nada. E eu mudei foi muito, ele nem imagina o quanto.

ENQUANTO LIDO



quer coisa mais estranha
que um poema
enquanto nasce? enquanto
se contorce
desprovido de sentido?
enquanto pura pele
muito lisa e sem
memória? enquanto
ao mesmo tempo
excesso e falta?
enquanto vísceras
à mostra?
enquanto ar
ritmia?
enquanto riso
besta? enquanto
rua de mão dupla?
enquanto
beco sem saída?
enquanto rosto
informe?
enquanto afasia?
enquanto líquidos
no ventre?
enquanto visão
de vultos? enquanto
respiração
difícil? enquanto plena
hesitação?
enquanto impulso de
desistência? enquanto
vermelho sangue
aos jorros? enquanto placenta?
enquanto rigor
mortis? enquanto dia
claro?
enquanto noite adentro?
enquanto sem
futuro?
quer coisa
mais estranha
que um
poema enquanto

lido?

Ricardo Aleixo

sexta-feira, 6 de junho de 2014

Ricardo Aleixo


Tão tenso é, sempre, o pouso do avião, que há coisa de uns 4 anos, num voo para Fortaleza, o comandante arrancou aplausos dos passageiros ao anunciar que "dentro de mais alguns instantes" a aeronave... acariciaria o solo. Deviam ensinar todos os comandantes de todas as companhias aéreas a anunciar o momento do pouso como fez o poeta-piloto acima mencionado. Digo mais: deviam, ainda, pagar gratificação adicional para aqueles que têm que encarar - por certo fingindo calma - a descida no aeroporto de Congonhas, com todos aqueles prédios como que avançando contra o medo que faz do corpo inteiro da gente a sua casa.

quinta-feira, 27 de março de 2014

MINHA IRMÃ




vida que
segue

enquanto
a vida não

consegue
ser irmã

mas a irmã
consegue

Ricardo Aleixo



sábado, 18 de janeiro de 2014

AGORA ATÉ ISSO?





Nossa tristeza veio de longe, irmãozinho. De muito longe, maninha. Na barriga dos tumbeiros. De certo é por esse motivo que ela se cansa logo, mal cisma de querer se adonar do terreiro grande que se chama que se chama que se chama o coração da gente. Já nossa alegria, que embarcou no mesmo porto, bem muito antes da outra, mas por sua própria decisão, anda pra cima e pra baixo, pra baixo e pra cima com aquele jeito de quem nem ainda acabou de chegar da longa viagem, toda nem cabendo em si de tanta forte leveza. E pode?, me respondam você e você: pode lá não ser assim como tem sido e sempre será? A vida? Pode é nunca. Ou agora até isso passou a poder?

Ricardo Aleixo