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quarta-feira, 11 de setembro de 2019

Soneto para o grupo AC/DC


De Glauco Mattoso

Diz "rei morto, rei posto" o velho dito.
No rock, um vocalista jamais é
assim tão necessário, e, se o Mané
bateu as botas, seja o Benedito!

Se, antes de Cristo, estava bem escrito
que a música do Demo leva a fé
daqueles que duvidam de Javé,
depois tais escrituras já nem cito.

Se temos sete cães e um osso só,
sai briga, e se o cachorro o pêlo preto
tiver, pior ainda: é pau, sem dó!

Se salva quem prefere o inferno ao gueto:
melhor ser um buldogue que um totó
qualquer, melhor a emenda que o soneto!
De Paulo Henriques Britto, um seu poema, "II":

Tão limitado, estar aqui e agora,
dentro de si, sem poder ir embora,

dentro de um espaço mínimo que mal
se consegue explorar, esse minúsculo
império sem território, Macau

sempre à mercê do latejar de um músculo.
Ame-o ou deixe-o? Sim: porém amar
por falta de opção (a outra é o asco).
Que além das suas bordas há um mar

infenso a toda nau exploratória,
imune mesmo ao mais ousado Vasco.
Porque nenhum descobridor na história

(e algum tentou?) jamais se desprendeu
do cais úmido e ínfimo do eu.


sexta-feira, 31 de março de 2017

CONFESSIONAL


Amar, amei. Não sei se fui amado,
pois declarei amor a quem odiara
e a quem amei jamais mostrei a cara,
de medo de me ver posto de lado.
Ainda odeio quem me tem odiado:
devolvo agora aquilo que declara.
Mas quem amei não volta, e a dor não sara.
Não sobra nem a crença no passado.
Palavra voa, escrito permanece,
garante o adágio vindo do latim.
Escrito é que nem ódio, só envelhece.
Se serve de consolo, seja assim:
Amor nunca se esquece, é que nem prece.
Tomara, pois, que alguém reze por mim...
GLAUCO MATTOSO

São Paulo (SP).

sexta-feira, 28 de junho de 2013

SONETO BÉLICO



As armas, munições, armazenadas
são muitas vezes mais suficientes
para extinguir da Terra seus viventes,
e continuam sendo fabricadas.

Revólveres, canhões, fuzis, granadas,
torpedos, mísseis mis, bombas potentes,
festim, balas Dum Dum, cartuchos, pentes,
martelos, foices, paus, facões, enxadas.

Romanos, que eram bons de guerra e paz,
disseram: "Si vis pacem, para bellum.":
Parece que os modernos vão atrás.

Não quero exagerar no paralelo,
mas quando menos ronda a bota faz,
mais folga ostentará o pé de chinelo.

[Glauco Mattoso | Geléia de rococó]


SONETO DEMOCRÁTICO



Você pode enganar a toda gente
durante meses, anos, certo prazo.
Você pode enganar, num outro caso,
um grupo limitado, eternamente.

O que não se permite nem consente
é alguém manter no mais completo atraso,
cagando em cima, usando como vaso,
populações de todo um continente.

Países democráticos depuram,
ou pelo menos devem depurar
as falsas plataformas dos que juram.

Ostenta a tentação de inaugurar
a laia perdulária. Não perduram.
Será? Mas ninguém pode assegurar.


[Glauco Mattoso | Geléia de rococó]

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

SONETO DA ARANHA UNIVERSITÁRIA





Ser "universitária"é, da cidade,
suposta condição: mais se assemelha
a um bosque entre edifícios, que já invade
os bairros adjacentes e os espelha...

Enquanto está a metrópole vermelha
de barro ou de poeira, a qualidade
do verde ali não tem área parelha,
que menos se polua ou se degrade...

Mas nem por isso seus alunos têm
maior senso ecológico: também
seus carros soltam fumo e roncam alto...

Apenas uma aranha cabeluda
no mato tece a teia: não estuda,
mas sabe que distância quer do asfalto...

[Glauco Mattoso | A aranha punk]

SOBRE UM ALCOÓLATRA AMARGURADO





Tornei-me um beberrão e, na bebida,
procuro me esquecer daquela ingrata
que amei. Mas a saudade me maltrata
demais, e não tem jeito a minha vida...

Primeiro, foi com vinho. Só quem lida
com marcas consagradas sabe a data
correta duma safra. Só quem trata
da adega, como eu trato, não duvida...

Mas a separação me desleixou:
passei a beber vinho de segunda,
vermute, e até cachaça! E grogue estou!

Se, ao menos, fosse aquela vagabunda
também boa de copo... Bem, não vou
fazer mais conjetura que confunda...

[Glauco Mattoso | Cancioneiro carioca e brasileiro]