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sexta-feira, 4 de janeiro de 2019

ESCRITORES SÃO MUITO ESQUISITOS


Não comentam as condições atmosféricas, se vai chover ou fazer sol. Não falam sobre problemas coronários, pulmonares ou digestivos. Pouco se importam com a vida da vizinha da prima em segundo grau da Tia Cotinha. Não comentam hábitos alimentares ou de vestuário de parentes e amigos. Detestam futebol e esportes em geral (há exceções). Votam na esquerda ou na extrema-esquerda (há exceções). Bebem. Fumam. Trepam. Gostam de ficar horas sozinhos para poderem escrever. São, por vezes, mal-humorados. Conversam com poucas pessoas, quase sempre outros escritores (em meu caso, também com ativistas políticos, budistas, umbandistas e artistas marciais, além das minhas plantas). Ficam profundamente entediados com o cotidiano. Enfim, somos insuportáveis. Se eu gostaria de ser diferente -- vestir terno, camisas de seda, trabalhar 14 horas por dia, votar no P$DB, frequentar danceterias e trocar ideias com a Tia Teresinha? Se um dia eu fizer alguma dessas coisas, por caridade, chamem um exorcista, ufólogo ou psiquiatra, porque eu fui possuído por um espírito do mal, abduzido por alienígenas ou enlouqueci. .

Claudio Daniel

sábado, 24 de dezembro de 2016

CRÔNICA DE UM CAMINHANTE

-- Jornaleiro: posso ajudar o senhor?
-- Eu: não, obrigado, só estou vendo quais são as mentiras de hoje nos jornais.

-- Jornaleiro: é verdade, os jornais mentem muito! E como mentem!

Claudio Daniel

terça-feira, 7 de junho de 2016

PARTITURA


Perplexidade, raios de um sol
que redesenha seu centro;
essa matéria tão delicada,
ferozes epitélios da flor;
deslizando das pupilas,
revoluta, para outro mar,
após tingir o flanco da noite.
Fosse apenas o perambular
em outra relva, seria tema
de chanson; dissociada de mim,
reclinada em lua minguante,
seria musa de retrato fauvista,
excedendo o rubro tigrino.
De todo modo, um dia vou

felinizá-la em partitura.

Claudio Daniel

quarta-feira, 20 de janeiro de 2016


O apartheid social que existe no Brasil há 500 anos acontece também na literatura. São Paulo conhece o Rio de Janeiro. O Rio de Janeiro conhece São Paulo. Os dois conhecem um pouco de Minas Gerais e Paraná. Ponto. O resto do país não existe em nosso sistema literário (com as exceções de João Cabral de Melo Neto, regionalismo da década de 1930 e pouco mais do que isso). Quem conhece a poesia contemporânea da Bahia? A prosa atual do Maranhão? A dramaturgia do Espírito Santo? A ensaística de Sergipe? A crítica literária de Alagoas? Precisamos derrubar os muros.

Claudio Daniel

domingo, 4 de outubro de 2015

Críticos literários cometem erros? Sim, com frequência! Saint-Beuve condenou a suposta "imoralidade" de Flaubert e Baudelaire. Sílvio Romero não reconheceu plenamente o talento de Machado de Assis. José Veríssimo condenou a linguagem “obscura” de “Os sertões”, de Euclides da Cunha. Antonio Candido excluiu o barroco de sua “Formação da Literatura Brasileira” e não compreendeu Sousândrade. Wilson Martins considerava Mário Palmério superior a Guimarães Rosa -- para citar poucos exemplos. A crítica literária, quando não segue determinada teoria literária, com um método particular de leitura e interpretação de textos, obedece a critérios subjetivos de gosto pessoal, e em AMBOS os casos pode cometer injustiças, inclusive pela inadequação da teoria ao texto analisado. Isto não significa que o trabalho do crítico seja sempre insuficiente ou inferior ao texto literário: ele é uma intervenção paralela à obra literária e o seu mérito, quando o crítico realiza bem a sua tarefa, está na discussão inteligente dos procedimentos artísticos adotados pelo escritor, contribuindo para iluminar o entendimento dessa obra. O crítico fracassa quando sua leitura não é capaz de dar conta da proposta do autor analisado, quando valoriza excessivamente autores de segunda ordem, por motivos nem sempre literários, ou quando subestima autores de maior originalidade, por não compreendê-los ou por razões de desavença pessoal, interesse comercial, orientação jornalística ou política literária. Uma atividade de especial importância do crítico literário é a do questionamento, ampliação ou reinvenção do cânone literário, pela inclusão de autores de qualidade injustamente esquecidos, como Augusto de Campos fez com Sousândrade e Pedro Kilkerry, e também pela exclusão de autores sem originalidade e densidade semântica, cuja reputação foi construída a partir de redes de relacionamento social próximas às instâncias de poder universitário, editorial ou midiático (sim, esta é uma referência direta a Ricardo Domeneck, Angélica Freitas e outros autores medíocres inventados por Carlito Azevedo). Em todos os casos, a crítica literária nunca é mais importante que a leitura direta dos poemas, contos, novelas ou romances. Ela própria constitui um gênero literário, quando tem a densidade do ensaio, e pode ser considerada, para além da dimensão argumentativa, como construção estética, como no caso dos livros de Walter Benjamin.


Claudio Daniel 

domingo, 6 de setembro de 2015

Dobre Haroldo de Campos

Conversei com Haroldo de Campos em três ocasiões, em sua casa, a convite do poeta, poucos meses antes de seu falecimento. Ele foi – é – a minha principal referência literária e intelectual, pelo conjunto de sua obra poética, ensaística, tradutória. Dialogar pessoalmente com Haroldo, ainda que por pouco tempo, foi um imenso privilégio. Nessa época, ele estava particularmente interessado na poesia de autores brasileiros de minha geração – Claudia Roquette-Pinto, Angela de Campos, Josely Vianna Baptista, Frederico Barbosa, Arnaldo Antunes, entre outros –, acompanhava as revistas literárias, os livros de autores jovens, opinava sobre o que estava sendo feito naquele momento, com raras atenção e generosidade, sem perder o rigor jamais. Apresentou-me a alguns tradutores de poesia que tinham contato frequente com ele – Michel Sleiman, Trajano Vieira, Yun Jung Im –, aceitou responder a uma entrevista que fiz com ele e publiquei na revista Et Cetera, em 2003, e manifestou o maior entusiasmo quando lhe contei sobre a criação de minha revista eletrônica, a Zunái. Prometeu colaborar na revista com traduções de poesia asteca (ele estudava o idioma nauatl, pouco antes de falecer), mas infelizmente não teve tempo de enviar-me os originais. Escreveu o prefácio para o meu livro Jardim de camaleões – A poesia neobarroca na América Latina e convidou-me para publicar a minha poesia reunida na coleção Signos, que dirigia para a editora Perspectiva, o que aconteceu em 2004, quando saiu o livro Figuras metálicas – travessia poética (1983-2003). Sou imensamente grato a Haroldo por todo o apoio que ele deu a meu trabalho literário e sinto grande saudade de nossas conversas, sempre regadas a vinho do porto e bom humor – ele era bonachão, divertidíssimo, e não perdia oportunidade para contar “causos”, especialmente de certos críticos literários brasileiros. Embora não fosse expert em política internacional, condenou a agressão norte-americana ao Iraque – escreveu poemas sobre isso, publicados no livro Entremilênios – e tinha noção do que estava acontecendo no mundo naquela época, a pretexto do combate ao terrorismo. Do mesmo modo que foi solidário aos sem-terras, por ocasião do massacre de Eldorado dos Carajás, durante o desgoverno de FHC, e apoiou a candidatura de Lula à presidência da república. Haroldo não foi apenas um grande poeta, mas um ser humano ético, generoso, que sabia “ver com olhos livres”. Faz imensa falta à nossa triste época.


Claudio Daniel

sábado, 10 de janeiro de 2015

HINO AO HUMORISTA

Claudio Daniel


Funambulesco;
cospe-às-frinchas;
escorço ao revés —
negror de escárnio;
borra-de-tranca-rua;
resvala-nádegas;
refugo, rebotalho;
regurgita lúmpen
parvoíce intermitente
em voz de batráquio;
símile de bonifrate:
baboso, linguarudo;
engole uma, duas,
três, quatro, cinco,
seis moscas e mergulha
atoleimado no atoleiro.


2014

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

FIM DO MUNDO


À memória de Jakob van Hoddis

Loba ensandecida rumina vermes de escuro escárnio.
Alguém-ninguém atravessa a rua
e em todos os cantos
ouvem-se gritos
feito guinchos
de um porco amarelo.
Cai um aguaceiro
na cidade esquálida
e os bairros alagados atingem as estrelas.
Banqueiros obesos caem do telhado
e se despedaçam.
Numa placa de rua,
lemos: cuidado.
Quase todos têm secreções nasais;
os ônibus correm nas avenidas
a toda velocidade,
entram nos viadutos
e se chocam contra as paredes.
Todas as palavras não são mais que uma superfície de cacos de vidro à entrada de uma cidade maldita.


Claudio Daniel


2014

domingo, 30 de novembro de 2014

PAISAGEM


Árvores saqueiam o arco-íris.
Três banqueiros atiram-se
ao rio e morrem afogados.
Nuvens piscam o olho para o sol,
que enfurece os dentes-de-leão.
Ninguém me oferece uma estrela.
Quando eu morrer, me enterrem
na tua voz.
2014


Claudio Daniel 

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

ANTIMÍDIA VIII



A Colunista do Grande Jornal Diário
equilibra-se
nos indispensáveis
saltos Christian Louboutin
para analisar os fatos políticos
com distanciamento crítico
e objetividade jornalística.
Ela é jovem, moderna, sofisticada,
usa vestidos Patrícia Bonaldi
e bolsa cor de prata Hermès
(Mercúrio é a divindade que rege
as comunicações). Em seu twitter,
dispara o último grito
dos bastidores do Congresso,
com senso de humor peculiaríssimo
e a mais apurada reflexão.
Entre um e outro gole de cherry brandy,
folheia, na revista novaiorquina,
as últimas criações de Domenico Dolce
e Stefano Gabbana, inimagináveis
nessa selva selvagem de mortos de fome.
Vivemos no pior dos mundos possíveis,
diz ao seu personal trainer,
o último círculo do ínfero Hades,
onde desfilam hordas de africanos,
índios, pederastas, crianças ramelentas,
estudantes bolcheviques. Massa mal-cheirosa,
escura, ignara, que nunca leu Paulo Coelho,
Afonso Arinos, Fernando Henrique Cardoso.
É impossível viver com essa gente,
pondera com a sua manicure ucraniana,
é preciso dividir o Brasil em bantustões,
para que a raça branca tenha um futuro possível.
Ela acredita na Divina Providência,
no Destino, nas Forças Vivas da Nação.
E aplica suavemente gotas aromáticas
(Ralph Lauren) em sua nuca,
enquanto espera pela Vinda do seu Fuhrer.

Claudio Daniel


ANTIMÍDIA V



Contra a entranha —
multiplica o medo
no borrão desfigurado;

unhas enegrecidas,
maxilares arrancados,
miuçalha de carcaças.

Nenhuma língua enterrada
na fossa onde caranguejos
copulam com capulhos;

mistério ou talvez corrosão
de ácidos na decapagem
para a despossessão de tudo.

Retrátil, contra teu sangue,
a exaustão do que esfiapa
o símile do pensamento.

Esta pele, tua pele, nenhuma pele:
tudo é número e o número
é legião; meu nome é legião.

2014

Cláudio Daniel 

ANTIMÍDIA IV



desentranha.
voz que vem da carne;
adensamento da voz
que recusa ser centaura.
desmultiplicada,
limítrofe da afasia.
no antilabirinto:
fugitiva do Limbo.
que ninguém escuta:
hermafrodita, hermafrodita.
onde queimam fetais:
é absurda, quimérica.
fala para si, solipsista,
como jargão
de ofícios militares;
soa tantálica, prometeica,
como se saísse
de uma boca costurada;
como ressurgido mugido
de um mamute siberiano.
como se não fosse nenhum
som humano.


2014

Claudio Daniel

quarta-feira, 28 de maio de 2014



A leitura do poema pressupõe o timbre (voz), a duração, a altura, os intervalos, as ênfases e o ritmo das frases. O ritmo é a interpretação do sentido do poema e pode enfatizar o pensamento, o conteúdo emocional ou a música das palavras. O que me interessa na leitura do poema é a porcentagem de distorção e ruído, que criam uma outra camada de texto, que se movimenta por uma lógica que não é gramatical, referencial ou emotiva: é a própria materialidade do som que se impõe, como borrões de tinta espalhadas na tela.

Claudio Daniel

DEIR YASSIM


Nenhuma lápide
para os mortos
em Deir Yassim
episódio rasurado da história
suas casas demolidas
suas ruas desfiguradas
renomeadas em hebraico
120 homens e mulheres
executados
pela garra curva de Moloch
o que tudo devora
na esquina dos ventos
formigas míopes avançam
em sentido anti-horário.
2014 (ano 66 da Nakba)



 Claudio Daniel

sexta-feira, 16 de maio de 2014



Rastro de noites que se fundem em palavras
como jogos marsupiais;
piscina selvagem onde recolho

os despojos de meu rosto.

Claudio Daniel

quarta-feira, 7 de maio de 2014

Garrafas

Juntar as garrafas na prateleira entre aranhas e arames, novelos de barbante e martelos. Empurrar as caixas de pregos, os vidros e la-tas de tinta para colocar os olhos. É preciso esquecer os mapas, cadarços, jornais velhos. Queimar fotografias, lembranças, almana-ques farmacêuticos. Afastar um pouco as caixas de papelão, para depositar o nojo. Empilhar, junto às revistas, os ossos, palavras e ódios. Deslocar toda sombra, que fere como um ácido. Acender o cigarro no maçarico, cuspir catarro com alcatrão e soletrar, com a voz ainda trêmula, as sílabas abertas da navalha.

Claudio Daniel

sábado, 3 de maio de 2014

CABEÇAS


Contar cabeças como janelas
dispostas em diagonal;
uma coleção de lagartos;
palavras sumérias;
trevos de quatro folhas
impressos num álbum.
Cada cabeça tem um nome
que pode ser relógio,
intestino, alfinete, isopor.
Há uma infinita variedade
de nomes estranhos.
Cada cabeça tem um preço
gravado em código de barras.
Geladeiras são mais caras
que testículos; formigas,
mais baratas que saudades.
Cada nome é um preço
composto de letras
em número par ou ímpar;
cada letra tem linhas retas
ou curvas, como os mexilhões.
Isto é tudo o que há para dizer.
Vamos acabar de contar as cabeças.
Para Abreu Paxe, 2007



Claudio Daniel

PAISAGEM-VÉRTEBRA


I
Vozes multiplicam-se;
lanhadas peles
vociferam, guturais.
Escarnece paisagem-
vértebra-canina:
o lento apodrecer
da lua, frágeis estruturas
para o canto, aqui
onde peixes jogam
cartas com os vermes.
Apenas o noturno
pugilato das retinas,
o andar desmembrado
de uma a outra esquina.
II
Desconcerta animosidade
entre polegares,
entre olhos;
desconforto ao cruzar
essa, aquela rua —
como num desgarre.
Algo que arranha
com unhas de corvo,
deixando incisões.
Escurece palavras simples
num dialeto de esgares;
vocaliza o ruído áspero
de uma lixa no espelho,
céu de estrelas aleijadas.
III
Paisagem de linhas
retorcidas
como ferros
de uma paisagem amorfa.
Desavença de cores
no espelho retrovisor;
cicatrizes alinhadas
nos pulsos, em desenhos
de fetos inanes.
Esquinas meretrizam
esqueléticos ângulos
na noite desfocada.
Unhas negras, peitos brancos,
hora sem cor,
autofágica garganta absorve
o asco de tudo.





Claudio Daniel

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Há um vocabulário do verde,
inumeráveis ecos do teu verde
que se desdobram na noite estrelada:
olhos-pés, olhos mãos, olhos-boca, olhos-peitos, olhos-nada.
Cada letra de teu nome tem a sua própria cabeleira,
denso alfabeto que incita à iniciação no segredo de teu segredo.
Tua sombra segue minha sombra em cada passo mínimo.

Qual desmesura
da anfíbia superfície?

Que alfabeto de poros
nessa esfera cúbica?

Em que tempo essa imagem
tatuou-te de ocelos?

Quais fraturas,
Que nós de água desatados?

No inverno
branco e atonal,

calêndulas e nardos
inventam seu próprio
mapa-múndi.

(O Tao é similar a um quadrado infinito, sem ângulos; a uma esfera que contempla a si mesma; a um mágico diagrama no alaúde do músico cego.)
Claudio Daniel
Nervuras na folha, inscrições; imprecisas cifras
de nuvens,
étoiles, epitélios:
tudo é número.
(Sou o tempo, disse-me
com lábios
de sal, ao encantar-se
em labirinto.)

* * *

Rastro de noites que se fundem em palavras
como jogos marsupiais;
piscina selvagem onde recolho
os despojos de meu rosto.

* * *

Seria
o movimento
da memória
erigindo arquiteturas
de pele
em cada cena
vívida?

* * *

Tempo talvez
de reconfigurações?

* * *

Música, libações, dança, dança, dança.

(O esquecido de si vaga sem nome; é feliz como a tartaruga que mergulha a cauda na lama do rio, distante de aforismos e protocolos imperiais.)
Claudio Daniel