Mostrando postagens com marcador rita schultz. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador rita schultz. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 8 de junho de 2016



Eu uso óculos. Não usava. Ando sem paciência. Às pressas. Canso-me, à toa. Tive namorado. Marido. Filhos. Sei dirigir. Carros. Adoro bicicleta. Não sei equilibrar. Caminho muito. No sol das manhãs. Na chuva vou mais longe. Nem em pensamento eu faço ginástica. Mas escrevo. Curto e rigoroso. O dia inteiro. À noite. De manhã. O ano todo. Transbordo. Leio desde sempre até o esquecimento. Durmo pouco. Muito, de vez em quando. Não tenho amigo. Tristeza é cinza no horizonte longe. Rezo. Porque o juízo grita. Sem pecado. Ardo. Gosto de vinho. Da cor branca. Café com pão de queijo. Nasci nas montanhas. De tardezinha tenho saudade. Do quê. De quem. Calo-me dificultosa. Sou esquisita. Que me lembre. No meu peito trago escritas menos ignorantes. Que não conto. Prosa. Tenho falta de sabedoria. E angústias de muitas formas. Se olho para trás, choro. De minha mão nunca escorrem fúrias. Nem de minha boca iras. Não gosto de ir à luta. Volto no corpo quebrada. Trabalho duro. Não vivo sem água. Ar. Terra. Fogo. Mato. Céu. Inferno. É do sangue. O que vier eu cismo. Poesia.

[Rita Schultz]

quarta-feira, 10 de julho de 2013

Os meus dias

 Seu nome era diferente de outros que eu conhecera; perguntei-lhe. Todas as manhãs, quando eu atravessava a pracinha, lá estava ele amanhecendo com o dia, as mãos trêmulas, o corpo curvo confundindo-se com a Terra. Naquela tarde, nós falamos sobre tudo e nos esquecemos de medir o tempo. Ambos estávamos em compasso de colheitas. Contou-me que também viera de longe, há muitos anos. Havíamos quase perdido nossa identidade, vivendo aqui neste lugarejo, cujos poentes são amarelos e brilhantes. Falamos da impressionante solidão que nos estrangula, dos rostos desconhecidos que nos assombram, de objetos que não fazem parte de nossa história, dos retratos de família a nos vigiar de dentro de seus sorrisos estáticos. Lembramo-nos até ao coração de respirar... respirar... secando as lágrimas. Sabíamos ser assim, sem sobras, sem máscaras. Decerto que eu poderia escrever um poema sobre os meus dias, sobre fazer o meu próprio pão, sobre as aulas na universidade, sobre os meus dias ternos e iguais. Decerto que ele poderia revelar-me os segredos destas rosas tão intimamente cultivadas. Decerto que poderíamos tomar aquele café, ou o chá que eu nunca soube se ele gosta. Nunca nos sentaremos em um banco de jardim como este, perfumado a lembranças e simplicidades, a conversas estranhas e necessárias, nem eu nem ele. Há tanto compromisso e tão pouca música! E não creio que sejam suficientes os meus dias para esquecer-me daquele homem de tão poucas palavras, de gestos tão serenos, de tão pouca juventude e tão longa vida. 

Rita Schultz

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Para uma sexta-feira de carnaval




o cão
ligeiro
desliza na curva do lago
- eu rio

piso as flores
no chão caídas
- prenúncio de outono

ao longe
na casinha branca
da montanha
- eu vivo

 

Rita Schultz

sábado, 12 de janeiro de 2013



tomou o café quente e aqueceu a alma
mexeu com o pensamento mais uma vez dentro da xícara
sem resposta insinuou uma pergunta ao pires
acendeu o dia sem riscar nenhuma palavra
sacudiu as cinzas no céu
levantou-se
demorou a chuva no olhar ao longe
fez círculos com a ponta do coração na calçada
e seguiu

quanto a mim
- o vento cantando nos cabelos
guardei a cabeça entre as mãos
e chorei

*
'Paisagens da alma'

[Rita Schultz]

terça-feira, 8 de janeiro de 2013



Eu uso óculos. Não usava. Ando sem paciência. Às pressas. Canso-me, à toa. Tive namorado. Marido. Filhos. Sei dirigir. Carros. Adoro bicicleta. Não sei equilibrar. Caminho muito. No sol das manhãs. Na chuva vou mais longe. Nem em pensamento eu faço ginástica. Mas escrevo. Curto e rigoroso. O dia inteiro. À noite. De manhã. O ano todo. Transbordo. Leio desde sempre até o esquecimento. Durmo pouco. Muito, de vez em quando. Não tenho amigo. Tristeza é cinza no horizonte longe. Rezo. Porque o juízo grita. Sem pecado. Ardo. Gosto de vinho. Da cor branca. Café com pão de queijo. Nasci nas montanhas. De tardezinha tenho saudade. Do quê. De quem. Calo-me dificultosa. Sou esquisita. Que me lembre. No meu peito trago escritas menos ignorantes. Que não conto. Prosa. Tenho falta de sabedoria. E angústias de muitas formas. Se olho para trás, choro. De minha mão nunca escorrem fúrias. Nem de minha boca iras. Não gosto de ir à luta. Volto no corpo quebrada. Trabalho duro. Não vivo sem água. Ar. Terra. Fogo. Mato. Céu. Inferno. É do sangue. O que vier eu cismo. Poesia.

[Rita Schultz]

terça-feira, 3 de julho de 2012


Aquilo que me inquieta
me revela mais do que o que me conforta.
Nas linhas vazias perco as palavras
que descobri com as pontas dos dedos,
o corpo em chamas,
sabendo de águas sem desfrutá-las.

Sei de lama e ferrugem febril
que habita as transparentes florações.
Sei dos cogumelos úmidos na boca,
grãos na folha a boiar poemas.

A palavra me engana:
confeito doce e colorido, ela me atrai,
mas dura e pétrea
e dolorosa de degustar na língua,
revira-se na garganta,
para enroscada no coração.

Aquilo que me inquieta
é o que mais me conforta.

Rita Schultz