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terça-feira, 18 de dezembro de 2018

A COR DO RIO




Decapitava a noite
seu frio mármore
estremecido de gozo

livre esvaía-me
na torrente do ego
que desdobrava
seu retorno em
palavras amarelas
de suas recordações.

Justifique-se a lua
de suas ordens....
recebi a aquarela
- não soube pintá-la
ou imitá-la –
já não percebia, em meu
sangue, o facínora que
habitou, a contragosto,
a força do ventre.

Com meu jogo de punhais
entardeci na tarde
a apontar as pontas sortidas
verdes azuis brancas
aonde fáceis e formas
espirravam-se ao redor
de projetos – outra etapa.
A liberdade, dizia-me,
desliza e não avisa
ergue-se a qualquer momento
vaidosa e ímpia e sozinha
impura na saga e na sede.

És feita. Assim como
se decora toda cartilha
toda mansa mal aceita
envergada inesperada
embrulhada e semente.

Os quadrantes são diversos
e light. Light?
Sombra e Universo
Samba e Sândalo
torneio os espasmos
enviados ao além
Dispara
o sabre é a pistola
e prata e prata
verga ao destino
a vontade –
todavia indômita
por sobre o cálice.

Cisma a cínica das tuas farpas.

Os floreios do jardim
não são um porto,
nem é a voz o começo
do trajeto.
É só a ribanceira
aqui danada de insegura
na cor do rio a rudeza
de nossos desatinos.

 Jandira Zanchi

sábado, 30 de setembro de 2017

GUME DE GUEIXA

  
Sou uma única mulher
quando a trombeta anuncia
um inverno sem tropeços.

Os legionários da palavra
espiam sua falta de dados
como me fiz por nenhum motivo
conheço o luxo de ser nua e insofismável
inquestionável é a questão e o próximo dia.
Também invoco nas santas armações
da luta contínua por porto algum
as desculpas estilhaçadas em farpas
dos ausentes cansados em dentes de ogro.

Mas me canso descanso de meu fel.
Ardia na boca do estômago a fúria da pretensão
– esqueci-a retaliada no sofá branco e bagunçado –
deve haver algo melhor do que essa faca
gume de gueixa
a ponta de prata que rebola a qualquer ultraje
para dentro através da margem.

e porém... como dizia tenho azia
dor de baço e um cansaço...
aí retomei a pena e o pó dos livros
a lide das pernas e a busca do pão
pensei no amor como um condimento vespertino
dos enfeites adiei o aprumo e por três ou quatro
minutos dos restantes sorri e adormeci
ali ao pé do carvalho planto, morena,
serena e de orvalho em pé e sombra
afogada e deslumbrada
– o nome daquele é o mesmo deste?
Estes os problemas e sua função.


 - JANDIRA ZANCHI

sexta-feira, 21 de abril de 2017

RENASCIMENTOS


Tenho, em mim, uma roseira de frutos doces e amaciados
de manhãs inertes - celebrados sem artifícios ou colorações –
poderiam ser encontrados em dias de pouca luz
daqueles esquecidos nos poentes de mármores vazios
quase ao desalento, ricos de madeixas escuras e perfumes de cristal,
tão idôneos em sua ligeireza que entre eles se descobre a água
como um metal de cheiro e calor em seu leito de alvorada.
Foram renascimentos e escutas de uma eternidade vazia
quase opaca na retidão de suas fronteiras, muita saída a sal
e nuvens, circunspecta no eixo maciço da navegação em terra
fria – mesuras e ciência do cotidiano – pássaros e sombras,
fusos e rocas de sabedoria
quase vergando
da alma
a sombra de sua pedra angular - finitude.
Foram nesses estremecimentos de ventos e voltas que estendi
cem contas de fadas e foram uns discursos de meio tempo
regados ao líquido e à nata por ali estremecidos dos corredores
estrelas e parcimônia das vantagens do esplendor da vida
a luta da subsistência
estiagem verde e marinha em beijos salinas
versos que se criam monásticos elásticos
prenhes do desejo branco da liberdade
quando ainda não havia o tempo, o fio e o medo
só essa valente sina de semáforos e luzes
aspirando o anjo em seu pouso branco
outono dedilha sua ventura na laje e no apego.


Jandira Zanchi (A Janela dos Ventos)

CELLO


é infinitesimal o segundo do décimo de tempo
em que me rendo à paisagem tardia desses olhos fixos
auréolas escuras de vigésimo de instantes
- antítese no som de cello de Bach e adjacências -
nem todas as reminiscências são castanhas em dó ou Sol
antes, enviesadas, cortam um céu de vadios
e vacilantes arquejos sonados
das suítes ressonadas
pautas embriagadas de fé e fúria
- antes do amor é a fuga -
a esperança única de horizonte inteiro e virgem
adormecida nos cristais perfumados da vigília oriente.

Jandira Zanchi (Área de Corte, Patuá)

VENENO


por entre as fronhas fortuitas dos anos
-como um bezerro -
bebi o lácteo veneno da dor.

Jandira Zanchi (Área de Corte, Patuá)

domingo, 28 de agosto de 2016

CONTRATEMPO

Jandira Zanchi

e continuando com Meio Dia/Sol Poente:

2. CONTRATEMPO

cenários a vácuo
enfileiram- se
maníacos manipulados
mediados
na vazão, quase sinistra,
do vão sustentáculo
- matéria/simbiose/quase osmose
(materialmente vago)
nobre conjunção aleatória
sem predicados e ou quem sabe
vague por esses tempos anulados
de certidões e certificados
circunstâncias fundidas no ferroso
cobre amianto.... da dúvida?
esperança tolerância abundância redundância
caímos por esse fio sem corte afiado
na masmorra virulenta do vernáculo
uma completa ciranda evidente
círculo concêntrico excêntrico
para destituídos de rendas e pompas
anunciarmos nossa nudez
frio fria flagrante
decência de códigos e fibras
espectadores ou atores
são externas as malhas
melífluas ou indiferentes
acidentalmente convenientes
gotas derramam-se no lago, pretensioso,
desse poente/nascente (conjugam-se valores
e validades esculpidas em ondas violáceas
invadindo e ligando os fios cosmonautas
do espaço- contratempo).


segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

QUERUBINS


Folhas
amantes
amaciadas
riscadas
em langorosas
nuvens
dançantes
mato crescido
em torno
às avenidas
fuzis de luzes
perturbadas
de vertigens
ainda me sinto
como os querubins
olhos de lince
azuis de gritos
gritados na liberdade
Amém aos enrodilhados nas marés dos homens.

Jandira Zanchi (Balão de Ensaio)

domingo, 6 de dezembro de 2015

RECORTES


O destino
– não se apressem –
é lento e costurado
de raízes e vento
amealhado de recortes
em vais vens
de rendas e sedas
canto de pássaros azuis
e flores amanhecidas
gorjeios de crianças
e cismas de mocinhas
risadas de fim de noite
entre estórias sem fim
mãos santas de senhoras
refazendo o ponto do assado
o sonho, no esteio da tarde,
escorrendo seu mel.


Jandira Zanchi (A Janela dos Ventos)

segunda-feira, 19 de outubro de 2015

A COR DO RIO


Decapitava a noite
seu frio mármore
estremecido de gozo
livre esvaía-me
na torrente do ego
que desdobrava
seu retorno em
palavras amarelas
de suas recordações.
Justifique-se a lua
de suas ordens....
recebi a aquarela
- não soube pintá-la
ou imitá-la –
já não percebia, em meu
sangue, o facínora que
habitou, a contragosto,
a força do ventre.
Com meu jogo de punhais
entardeci na tarde
a apontar as pontas sortidas
verdes azuis brancas
aonde fáceis e formas
espirravam-se ao redor
de projetos – outra etapa.
A liberdade, dizia-me,
desliza e não avisa
ergue-se a qualquer momento
vaidosa e ímpia e sozinha
impura na saga e na sede.
És feita. Assim como
se decora toda cartilha
toda mansa mal aceita
envergada inesperada
embrulhada e semente.
Os quadrantes são diversos
e light. Light? Sombra e Universo
Samba e Sândalo
torneio os espasmos
enviados ao além
Dispara
o sabre é a pistola
e prata e prata
verga ao destino
a vontade –
todavia indômita
por sobre o cálice.
Cisma a cínica das tuas farpas.
Os floreios do jardim
não são um porto,
nem é a voz o começo
do trajeto.
É só a ribanceira
aqui danada de insegura
na cor do rio a rudeza
de nossos desatinos.


Jandira Zanchi (Gume de Gueixa, Patuá, 2013)

sexta-feira, 28 de agosto de 2015

LIBERTINA


miro no sol
acerto na lua
e nas suas anáguas
brancas de liberta
e libertina
enredo meus dias.


Jandira Zanchi 
(A Janela dos Ventos)

domingo, 19 de julho de 2015

SEXTO DEGRAU


mácula
na margem
febril inverno
sem lentes
poentes
na ausência de estrelas
é fresco o vapor
das vespertinas do sul
amansamos o cavalo do leito
erguido e crucificado a cada retomada
cruzamos nossos passos
harmonizamos nossas preces
- iguais e descontínuas –
para ergue-las como mitos
maníacos ou valentes
uma gala de artifício
até o sexto degrau.


JANDIRA ZANCHI

terça-feira, 4 de agosto de 2009

Poemas

Poemas são serpentes
oráculos de mesa
ralos e reles
nas faces sem ossos
de homens fronteiriços

cânticos que desnudam
espadas
em suas penas tão próximas
ao aço e à fúria

macias crisálidas de outono
quando perfumam-se as águas
das nascentes morenas
de mais uma esperança.

Jandira Zanchi