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sexta-feira, 18 de agosto de 2017

A maternidade entardeceu-me
O verão quente da juventude
Passou...
Chegou o outono
E seu fim de tarde
A barriga cresceu
Tornou lua cheia
Os seios grandes
Bicos abertos
Esguicham leite
O rosto redondo
Os lábios grandes
E a fúria da luta
A cria chegou
Com promessa de futuro
Com fome de presente
Estava tudo pronto
Meu colo e minhas noites
Nossas mãos e nossos olhos
Não havia o que temer
Depois de tudo, juntas
O mundo é pequeno
Imenso é o nosso amor
De carne, alma, e silêncio
Pequena é a vida
Imenso é o tempo
Sem fim.
(Mariana de Almeida)


segunda-feira, 10 de abril de 2017

Abismos.


Queria consertar minha cabeça
Queria programar meus sentimentos
Queria sentir fome na hora certa
Queria despertar exata como os despertadores digitais
Queria trocar dor por diversão
Queria fazer sentido, alguma conexão
Parecia tão fácil....
Queria consertar minha cabeça
E não perfurar o meu estômago
Queria organizar meus pensamentos
E não desmaiar de vertigem
Queria não entender
Queria não sentir
Queria não ser...
Tentei o que estava ao meu alcance
Prozac, cigarros, sertralina, rivotril
Mas nada deteve minha ira
Nada me curou de pensar
O abismo tão próximo aos pés
Um passo em falso seria suficiente
Para nunca mais sentir.

(Mariana de Almeida)

domingo, 5 de março de 2017

Cenas do cotidiano.


Nos adicionamos
Através de amigos em comum
Trocávamos mensagens in box
Cinco minutos de papo
E foram o suficiente
Para irmos direto ao ponto
Química virtual total
Quase nos comemos ali mesmo
Pela tela do computador
Entre palavras mal digitadas
E desejos confessados
Delirávamos e às vezes trocávamos canções
Nosso bom dia era assim
Eu mandava um Led para ele
E ele respondia com Billie Holliday.
Então marcamos um chopp
Sexta-feira a noite
Foram três chopes, algumas risadas
E sexo de primeira por toda a madrugada
Falamos poucos e fizemos muito
O dia amanheceu e nos separamos
Sem dor, a noite foi boa, simples assim.
Agora, depois de mais de um ano
Nos reencontramos na fila do supermercado
Ele sorriu e nos abraçamos forte
Perguntou como vai a minha vida
Eu respondi daquele jeito de sempre
"Um dia de cada vez..."
Ele me contou que está com câncer
Tratando e resistindo
Perguntei se podia ajudar em alguma coisa
Ele disse que sim
Que precisava as vezes ter alguém para conversar
Trocamos de novo telefones
E agora conversamos sobre tudo
Inclusive sobre aquela noite louca
Em que nos entregamos
Sem esperar nada em troca
Sem jamais imaginar o que seria
do amanhã
E rimos, rimos de tudo
As vezes queremos chorar, é fato
A vida está fudida para todo mundo
Ele disse que agora
Tem um motivo a mais para se curar
E que tudo vale a pena
Nascer, morrer e renascer
Quantas vezes preciso for.

(Mariana de Almeida)

segunda-feira, 31 de outubro de 2016

Ser Poeta.
Lutei
Lutei como pude
Neguei
Neguei diariamente
Escondi
Escondi todos os livros
Rasguei todos os versos
Abafei todas as canções
Gritei
Meu deus como eu gritei
Eu queria matar
Que desejo quase incontrolável
Mas a serpente
Sempre à espreita
O bote a minha espera
Ouvia ela sibilar
Sua língua bifurcada
Não me deixaria safar
A morte era certa
Seria impossível escapar
Desde menina
Minha sina era denunciar
O que não se pode contar
Nas cenas de novela
Que vão ao ar para te lograr.

(Mariana de Almeida).