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domingo, 30 de dezembro de 2018

CONLUIO



Deus das terras ofendidas, das montanhas abandonadas,
dos tributos que converteram o refúgio em tempestade.
Deus das flores rasgadas, das tribos afastadas de seus avós,
do pasto que perdeu suas sementes para outras esferas.
Em uma próxima geração ressurgem todos os erros.
O poderoso domínio da ansiedade não tarda muito,
nada o impede de converter vigias, arautos e carpideiras.
O dia é testemunho de um milagre humilhado,
de um pomar que não se reconhece em seus filhos,
de uma falsa viagem que nos reconforta por repetir-se.
Deus que a todo instante não se cansa de multiplicar-se,
deixemos um pouco de rastro em cada sofrimento,
para que não sejamos sempre as mesmas vítimas gastas.


 Floriano Martins

in  365 POEMAS & FOTOS | 361





SEM ANTES





A avó veio buscar comida, antes que o sol
parasse de latejar. O sangue da avó
não parava de chegar, e permanecia rascunhando
na pedra os animais do presságio.
A avó mantinha a cabeça sempre para frente,
e abençoava os farrapos que resistiam a apodrecer.
Um dia ensinava canto às corujas. E logo
ressuscitava o encanto das alegorias sacrificadas.
Treze crianças continuavam dançando
enquanto o mistério passava de mão em mão.
O que a avó teria entalhado em sua face,
para que dali não saíssemos jamais?
Que engendro terá deixado passar sem antes
acentuar seus fulgores na pedra de seu coração?
A avó sempre nos dizia que o mundo precário
afugenta os milagres e crê no perdão.

Floriano Martins


sábado, 19 de março de 2016

VESTES

Os panos nus.
Nenhuma imagem sangrando na pele
de tecidos prontos para o afago.
Recito essa nudez com um par de asas.
Um demônio agachado,
colando os lábios nos meus.
De onde me vês serei um córrego de ossos,
calcinado deleite de tuas almas,
umas poucas, as que não souberam
preservar o horror que as antecipa
e compreende.
Rostos engordurados em cerimônias…
E como te postas, demônio,
mordendo-me os seios, como te postas?
Um olhar a escolher ossos.
Carvões astutos e conhecedores da fábula.
Vê bem o que trago comigo,
este corpo minguado em débeis luas.
Preparas uma pele para mim?
Dá-me tuas facas, esporões, chifres,
a ponta imperfeita de teu falo.
Vês como me faço em mil coxas,
viscosas como iscas, e todas soletram
a queda que anuncias.
Os panos
sobre o vazio, nus.
Equilíbrio voltado para o chão,
rostos desfeitos de vítimas que não alcançam mais ofertório, o pé de um deus encontrado em escavações, por onde me sagras,
puto demônio,
por onde
me despedaças desejosa de tua saúde.
Meu corpo em lascas, santuário decrépito
de tua perversão,
cascos me arranhando o tecido da memória, sim,
uma mínima dor palmilha insuspeitas procedências,
e sabes o quanto me dói tua abundância,
o pote que indicas e ansiosa ponho-me a buscar ali a resposta para o aflito cultivo
de dores
por todo meu corpo.
Carrego comigo todas as formas
com que me atacas.
Quais máscaras perpetuamos, as minhas, as tuas?
Meus lábios te queimam a pele.
Óleos acesos enquanto nos desfazemos.
Os panos como papiros, inscrições invisíveis que ensinam a manter quente a cabeça de um deus morto.
Nus.
Com a medida do inferno de cada dobra
do tecido de que somos feitos.

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***
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VESTIMENTAS

Paños desnudos.
Ninguna imagen sangrando en la piel
de tejidos listos para la caricia.
Recito esa desnudez con un par de alas.
Un demonio agachado
pegando sus labios a los míos.
De donde tú me ves, yo sería un arroyo de huesos,
calcinado deleite de tus almas:
unas pocas, las que no supieron
preservar el horror que las anticipa
y comprende.
Rostros engordados en ceremonias...
¿Y cómo te ubicas, demonio,
mordiéndome los senos, cómo te ubicas?
Un mirar para escoger huesos.
Carbones astutos y conocedores de la fábula.
Mira bien lo que traigo conmigo:
este cuerpo menguado en débiles lunas.
¿Preparas una piel para mi?
Dame tus cuchillos, espolones, cuernos,
la punta imperfecta de tu falo.
Ves cómo me hago en mil muslos,
viscosos como cebos, y todos deletrean
la caída que anuncias.
Los paños
sobre el vacío, desnudos.
Equilibrio derrumbado hacia el suelo,
rostros deshechos de víctimas que ya no alcanzan el ofertorio, el pie de un dios hallado en excavaciones por donde me consagras,
puto demonio,
por donde
me despedazas deseosa de tu salud.
Mi cuerpo en astillas, santuario decrépito
de tu perversión,
cascos arañándome el tejido de la memoria, sí,
un mínimo dolor recorre procedencias insospechadas,
y sabes cuánto me dolía tu abundancia,
el pote que indicas y, ansiosa, me lanzo a buscar allí la respuesta para el afligido cultivo
de dolores
por todo mi cuerpo.
Cargo conmigo todas las formas
con que me atacas.
¿Qué máscaras perpetuamos: las mías, las tuyas?
Mis labios te queman la piel.
Aceites encendidos mientras nos deshacemos.
Paños como papiros, inscripciones invisibles que enseñan a mantener caliente la cabeza de un dios muerto.
Desnudos.
Con la medida del infierno en cada pliegue
del tejido de que estamos hechos.

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Poema de Floriano Martins © 2004 ARC Edições
Fortaleza, Ceará

Tradução ao espanhol, por Jorge Ariel Madrazo