Mostrando postagens com marcador irinêo baptista netto. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador irinêo baptista netto. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Travessias





John Gregory Dunne morreu um pouco antes do jantar, sentado no sofá da sala enquanto sua mulher preparava a comida na cozinha. Os dois estavam conversando e ela então perguntou se ele queria um drinque e a resposta não veio. O coração de Dunne parou no intervalo entre um comentário dele e a pergunta dela.

A viúva, Joan Didion, escreveu um livro sobre o luto e o chamou de O Ano do Pensamento Mágico. “Mágico” no sentido de sobrenatural. Ela passou meses “esquecendo” que o marido havia morrido, pensando que ele chegaria da rua a qualquer momento, ou que estava em algum cômodo da casa. A sensação era de que ainda estava vivo. E várias vezes ela precisou “lembrar” que ele estava morto.

   
Didion é uma ensaísta importante nos EUA. Numa conferência que fez anos atrás, explicou que escreve para descobrir o que pensa. Sem escrever, não conhece o que passa por sua cabeça.

Depois que você termina de ler, a impressão que o livro deixa é que Didion fez uma travessia. Ela conseguiu assimilar a perda do marido. Não significa que tenha conseguido superá-la. Não se trata de algo superável.

Há pouco, a Nova Fronteira publicou Noites Azuis, livro apresentado como a continuação de O Ano do Pensamento Mágico. O fato é que a filha adotiva de Didion e Dunne, chamada Quintana, morreu com várias complicações de saúde, aos 39 anos, 20 meses depois do pai. Tragédia vem sempre acompanhada.

Noites Azuis trata da morte de Quintana e é muito mais doloroso que o livro anterior.

A autora busca referências para lidar com a perda da filha e se lembra de uma amiga da família, Natasha Richardson, filha da atriz Vanessa Redgrave (que faria no teatro o monólogo inspirado em O Ano do Pensamento Mágico). Natasha morreu num acidente banal de esqui, deixando marido e filhas. É um exemplo, para ela, de uma morte sem sentido, na hora errada. Que levou a pessoa errada.

Ao longo do texto, Didion elabora longas digressões, resgata eventos do passado da filha, questiona sua competência como mãe, mas sempre retorna ao ponto em que está: sem a filha. É o efeito da repetição de frases como “Quando falamos em mortalidade estamos falando de nossos filhos” e “Que dor maior pode haver para os mortais do que ver seus filhos mortos?”.

Didion tenta assimilar o fim da filha. Ela quer dar sentido à situação toda, dá para ver a necessidade que tem de manter a cabeça fora da água, o esforço que faz para administrar a angústia constante de se ver sozinha, tendo sobrevivido aos outros integrantes da sua família.

Mas ela não consegue e é isso que faz o livro ser incrível: ele mostra que algumas travessias simplesmente não são possíveis.

 
Irinêo B.Netto
 
 Fonte.Gazeta do Povo

domingo, 30 de maio de 2010

O curioso caso das bancas de revistas

Internet e mudanças nos hábitos de leitura podem roubar clientes dos jornaleiros, mas ainda não se encontrou um substituto para o que só eles oferecem: a conversa




O lugar é um pouco maior e mais retangular do que um elevador – mas pense nele abarrotado de jornais, revistas e doces. A geladeira de refrigerantes deixa o espaço ainda menor. À esquerda de quem entra, sentada numa cadeira que a deixa pequenininha, está dona Lola. Ela admitiu primeiro ter mais de 70 anos e só contou a idade exata depois que o jornalista prometeu guardar segredo. “Fica entre nós”, disse, dando uma gargalhada espontânea.



Leonor Santos Zem, dona Lola para os mais próximos (que são todos os que põem os pés na banca), viveu sempre entre papéis. Entrou para o ramo aos 13, ajudando os pais, e é hoje a jornaleira mais antiga de Curitiba, com mais de 60 anos na lida. “Dona Lola!”, disse o rapaz que surgiu na porta, interrompendo a entrevista. “Ué, o que a senhora fez aqui?”, indicou o topo do nariz.



“Eu caí na rua!”, respondeu dona Lola e riu da própria resposta. “Ainda bem que não quebrei os óculos!” O episódio é uma amostra do seu temperamento: ela sabe tirar de letra situações difíceis. O rapaz conversou mais um pouco e foi embora. Dona Lola poderia abraçar a aposentadoria e largar o trabalho, mas diz que não toleraria a rotina sem ele. Gosta demais de conviver com as pessoas que passam pela banca, quase na esquina das ruas Marechal Deodoro e Monsenhor Celso, a poucos passos do Bradesco, no Centro.



A reportagem conversa com dona Lola para entender o que as bancas de revistas representam hoje, com a internet roubando leitores das publicações em papel. Ela desvia o olhar para acessar a memória e levanta da cadeira antes de começar a falar. “Ih, a internet... Hoje, tudo é internet, internet, internet...”, disse.



Talvez seja estranho para quem tem menos de 30 anos, mas, duas décadas atrás, quando alguém precisava saber a língua oficial da África do Sul (na verdade, são 11, incluindo o africâner), podia recorrer à banca. Havia revistas e almanaques para responder a uma quantidade im­­pressionante de dúvidas. Hoje, há o Google, ou a Wikipedia (consultada aqui sobre a questão da língua sul-africana).



Apesar das mudanças nos hábitos de leitura, as bancas continuam sendo referência. Não como antes, claro, mas continuam.



Olhe para uma banca. Nada do que ela vende é exclusivo. Jornais, revistas, doces, cigarros e recargas de celulares. E figurinhas da Copa do Mundo (jornaleiros fazem hurras para elas).



São 193 bancas em espaços públicos da cidade. Se somar as revistarias – que vendem os mesmos artigos da banca, mas ocupam espaços diferentes como shoppings ou supermercados –, o número passa de 600. A questão é: por que as pessoas vão a uma banca e não a outra? Ou por que alguém vai a qualquer banca?



Uma das respostas é dona Lola. Mas também é a amiga dela, Aurélia Miranda de Souza, que fica atrás do balcão e ajuda Lola.



Na banca do Largo Doutor Theodoro Bayma, no Batel, a resposta é Mario Henrique Blas­­kievicz e também Hideo Koma­tsubara, o seu Hideo.



Você pode ler o que quiser na internet, mas não terá a chance de ouvir o seu Hideo perguntar do seu filho e mandar para ele alguns dadinhos de amendoim. Não vai caminhar até a banca num domingo de sol e céu azul, dar um oi para o Mario (que nunca mais esquece seu nome) e comentar a manchete do dia e o resultado do jogo de ontem. Não poderá reclamar para dona Lola que o marido ou namorado é um insensível e por isso a relação não vai bem.



“Banca de revistas é um pouco como salão de beleza”, disse Mario. “As pessoas gostam de desabafar.”



“Eu ouço as histórias e procuro ajudar, falando um pouco da minha experiência”, disse dona Lola, três filhos e viúva de um casamento de quatro décadas. Corações partidos parecem ser a especialidade dela. Clientes choram paixões, casamentos desfeitos e relações que não dão certo.



“A senhora ainda tem Cole­guinhas?”, perguntou o senhor grisalho de terno, criando mais um intervalo na entrevista.



“Tenho e é o último!”, disse dona Lola, que adora exclamações. Virando para o repórter: “Esse jornal vende muito bem!”



É um classificado erótico. A garota na capa está de costas e vestida da cintura para cima. O homem paga o jornal e vai embora.



Os números variam de acordo com o ponto, mas Mario calcula que as publicações respondem por 20% dos lucros de uma banca – 10% para jornais e o mesmo percentual para revistas. O produto mais rentável é o cigarro, que representa 35% dos rendimentos líquidos. Em segundo lugar, com 30%, estão os doces. Os 15% restantes são de recargas de telefone.



Durante uma das longas entrevistas, Mario atendeu 13 clientes, chamando sete deles pelo nome. Três compraram jornais – dois levaram Gazeta do Povo –, três torraram dinheiro com figurinhas da Copa, dois pediram doces e cinco compraram cigarros, soltos e em maço (alguns pediram também Clorets verde para rebater o mau hálito).



Casado e com um filho, Mario é talvez o mais jovem jornaleiro da cidade, com 36 anos de idade e 16 meses no ramo. Comprou a banca do genro do seu Hideo e ficou feliz quando soube que ele estava disposto a continuar trabalhando. Os dois se revezam no atendimento de 12 horas diárias, das 8h às 20h.



O interesse de Mario no negócio é fascinante. Foi um investimento de risco calculado, feito depois de ter saído de um emprego que não tinha futuro.



Mario soube que a banca estava à venda nos classificados do jornal.


Irinêo Baptista Netto .Gazeta do Povo. Caderno G.Publicado em 30/05/2010