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segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Humilde surdina


Deixa falar, deixa falar:
basta o mistério do amor,
minha ternura tão mansa
e o teu jeito de querer.
Nós seremos como os pequenos:
sabem tanto, sem saber.
Voa o olhar no fundo olhar,
mão na mão, o amor pousou.
Tarde boa, morre calma...
Brinca o sino da igrejinha.
Alguém diz palavras velhas
como um sonho que passou.
Meu amor, a vida é grande
quando o olhar encontra o olhar:
mão na mão, o amor chegou.

- Augusto Meyer, em “Poesias (1922-1955)". Rio de Janeiro: Livraria São José, 1957.

http://www.elfikurten.com.br/2013/08/augusto-meyer-o-modernista-lirico-dos.html

sábado, 4 de janeiro de 2014

Milagre


Eternidade do minuto milagroso:
a erva cresce,
os grilos cantam sob o olhar antigo das estrelas.

Tão simples o mistério que uma criança pode soletrar...

Agora mesmo em qualquer parte há uma rosa ao sol,
boca entreaberta para a luz.

Esta noite é de outro lado claridade...
Hora dupla, simultânea, total.

Coração, girassol aberto sobre o mundo claro,
outros homens virão,
outra gente virá viver este minuto azul
na rotação da noite,
sentir que a morte é sempre a vida,
que a vida morre pelo amor da vida
e há sempre um centro inesperado
vertiginoso e irredutível!


- Augusto Meyer, em “Poesias (1922-1955)". Rio de Janeiro: Livraria São José, 1957.