Mostrando postagens com marcador renato silva. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador renato silva. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 12 de novembro de 2019

A Mona Lisa de dentro


Renato Silva      

Como se fora trégua do sol
-que morde antes de assoprar-
rubro-infernal, americano,
vesti-la semi-nua
nessa mini-mini-saia
para o Carnaval fora de época
daqueles pobres pedreiros

O que eles têm
além da marmita e a pele vermelha,
além das bicas de suor e o carteado,
além das pequenas coisinhas
e a leve embriaguez, menina,
são os imensos sonhos,
e sonhar é tudo,
sonhar é, e sempre será,
tudo.

Tivessem também
os olhos de Lince
dos poetas lunáticos
enxergariam o contraste
entre a Mona Lisa de dentro
e O Grito de fora;
antagonismo que colocará
seu dedo do meio,
morena Vanessa,
em seu devido lugar
quando chegares ao teatro
do seu banho aonde
o bandido tornar-se-á
o mais procurado
entre todos os mocinhos.

Ser comida pelos olhos
dos homens com quem
jamais dormiria : sua
posição
predileta.


quarta-feira, 30 de outubro de 2019

Tato




O muro é o aperto de mãos com o vizinho.
A fechadura é o piparote no ladrão.
Meu quarto é a mão que me faz carinho.
Aponta o caminho da rua o portão.

A sala de estar aplaude a visita.
Fuck-you para o sereno: contrato.
A janela faz figas por uma manhã bonita.
Minha casa, meus senhores, tem tato.


Cidadão das nuvens
Renato Silva

quinta-feira, 17 de outubro de 2019

( Só não há vagas para guarda chuvas )





O equilíbrio da nissei que perdeu o rebolado
na Estação Santo Amaro
na

Estação Santo Amaro
desamparo

A vida do mineiro que perdeu a pulsação
na Estação Vila Carrão
na

Estação Vila Carrão
comoção

A paciência da baiana que perdeu a paz
na Estação Brás
na

Estação Brás
Satanás!

A timidez da paraense que perdeu a solidão
na Estação Conceição
na

Estação Conceição
atração

A coragem do judeu que perdeu a paquera
na Estação Itaquera
na

Estação Itaquera
quem dera

O chão da amazonense que perdeu a alegria
na Estação Santa Cecília
na

Estação Santa Cecília
uma ilha

A higiene do gaúcho que perdeu o cumprimento
na Estação São Bento
na

Estação São Bento
constrangimento

A pureza da goiana que perdeu o juízo
na Estação Paraíso
na

Estação Paraíso
improviso

Só não há vagas para guarda-chuva, sinhô,
nos achados e perdidos do Metrô.

Cidadão das nuvens
Renato Silva


terça-feira, 8 de outubro de 2019

( Passamos por isso )




Enquanto espalhavas álcool
pela mente, Rousseau, fígado,
Azevedo, desenhos, Machado,
Platão, diário, Pessoa,
biografias de deusas do jazz,
biografias de demônios beats,
eu rezava,
por ti, rezaza,
junto de outros românticos
que jamais conhecerei.

Rezávamos, mulher-tocha,
antes mesmo de Quixote
arquitetar a vingança.

Rezávamos do bar,
do manicômio, rezávamos.
Rezávamos da biblioteca,
da montanha, rezávamos.
Rezávamos do subterrâneo,
do leito, rezávamos.
Rezávamos do palco,
da universidade, rezávamos.

Passamos por isso, garota.

O mal das pessoas
cujas carnes crescem
em progressão aritmética,
ao passo que, a alma,
em progressão geométrica
- hora mais, hora menos -,
não suportar-se-á
nos limites do barro.



Cidadão das nuvens

Renato Silva

quarta-feira, 29 de maio de 2019

( A despeito dos supermercados)





Anáspidas que foram extintas
transitam, copulam, descansam,fedem
na existência líquida que
Netuno lhes permite.

Desmancham-se em respingos
ante ao Pelicano flerte:
menos por sagacidade
que egoísmo - salvo que
ressuscitarão eternamente.

Do cubo mágico resolvido de seus destroços,
esbarram - espécie de mandinga -
na ponta mais afiada
do Tridente de Netuno.
(Minha barba por fazer e minha eterna semi nudez
me elevaram a vice-Rei do Mar).

Quando o indigesto de uma Galeaspeda
(presente do anjo de outro
peixe pré histórico)
engasgara a garganta da minha imaginação
tais alucinações, recorrentemente,
pedem-me água.

Negaria deveras não fosse
esta espinha maldita,
este onipresente sufoco,
o que, a despeito do supermercado*
aniquila minha fome diária.

* exceto o californiano aonde Ginsberg observou Walt Whitman,sem filhos,
perguntando à Mercearia quem matou as costeletas de porco.

Renato Silva      

domingo, 30 de dezembro de 2018


Lágrima chega indo embora.
Quando nos olhos não há cabimento.
Novela, gêmeos, gol, catapora,
raiva, perdão, canção,casamento,

culpa, entorce, milagre, penhora,
medalha, câncer, ladrão, invento,
cachorro, miséria, mi'a senhora,
cárie, fome, domingo sangrento.

Antes de beijar o chão, evapora;
e mais me vale chorar por dentro
- o tempo todo, a toda hora -
a beleza e a dor de cada momento.

Quero navegar aonde a lágrima mora
antes de ser acontecimento -
"Pequenos lagos?", perguntou outrora
Pablo Neruda a seu pensamento.


Cidadão das nuvens
Renato Silva


domingo, 27 de agosto de 2017

( O mesmo João )



Andar nas nuvens
perder o chão.
Trocar a vaca magra
por um pé-de-feijão.
Tem ouro dando canja,
um castelo acima.
O gigante acorda
sob o som da rima.

Sou como todos
o mesmo João,
o tópico utópico
de toda noção.

Sou como todos
o mesmo João,
hipotético e patético,
luz de imaginação.

Mal te vi lá de cima,
tudo ficou pequeno.
Ontem peguei
uma gripe, um sereno,
uma galinha gorda
de ovo amarelo.
Aí bati a asa,
aí bati o martelo.


Cidadão das nuvens
Renato Silva


Caligrama

   

Caligrama
 Forca
 Cidadão das nuvens


Renato Silva