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domingo, 9 de agosto de 2015

Ela caía por aquele homem.
À noite, debatia-se por não se aguentar em ansiedade.
Quem era ele? O que pretendia?
Enxergava-o como um símbolo da correção, razão contida,
metódico e sistemático, infalível.
“Ah! Pra que tentar decifrá-lo?”, pensou.
Resolveu parar com aquelas indagações inquietantes:
livrar a frivolidade da dúvida.
Orgulhosa de si, viu-se encerrada.
Ao despedir-se dele, ele sussurra:
“Tens o rosto de um passado seguro.”
Vai embora cercada de dúvidas novamente.


Elisson Silva

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

De repente, o açúcar fez-se pedra.
A água da fonte escureceu,
As flores desbotaram,
As paredes descascaram,
A estátua entristeceu
E os adornos perderam
Sentido.
De repente, a música acabou.
Os vasos esturricaram,
As escadas rangeram,
Os moribundos acordaram,
O odor tomou conta,
A mosca morta
Bateu asas.
De repente, o sorriso pifou.
Os velhos se embriagaram,
As moças se prostituiram,
O pipoqueiro adoeceu,
As pombas apareceram
E o colorido dos livros
Acinzentou.
De repente, as normas infestaram.
O menino não ligou,
Os olhos cegaram,
A boca encerrou,
Os ouvidos estouraram.
E aquela mesa,
Sucessão de tantos instantes,
Aquela bendita mesa
Nunca mais seria a mesma.
De repente,
Aquilo tudo acabou.


Élisson 16/10/2013

sábado, 12 de outubro de 2013

O menino de dentro do espelho

O menino de dentro do espelho
olhou para fora daquela janela,
mirando os olhos de seu eu
e percebendo seus limites.
Como poderia estar para sempre ali
se o seu eu estava ao lado de fora
sempre pronto a fazer as malas?

O menino do espelho
resolveu também se libertar!
Resolveu seguir o seu eu.
Fechou os olhos e virou sombra.

Seu ato lhe custara caro.
Um problema irreversível:
Não se desvencilhar mais do real,
esta maldita prisão de controvérsias.


Elisson SS

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013



Ao ler Drummond,
Não percebia que tudo a sua volta sumia.
Ao ler Quintana,
Não sentia que todos os cheiros coçavam seu nariz.
Ao ler Borges,
Não observara que o chão lhe era roubado.
Ao ler Baudelaire,
Não via que sua língua
se alongava como a de uma serpente.
Ao ler Rimbaud
Não sabia que pisava em poça de sangue.
Ao ler Göethe,
Não ouvia o diabo clamando seu nome.
Ao ler Pessoa,
Não sentia o frio na barriga.
Ao ler Proust,
Não lembrava mais de seus amores.
E ao fechar os livros
Confundia todos os seus sentidos.

Élisson Silva

domingo, 27 de janeiro de 2013



O caminho das putas
ou das puritanas?
Embora fosse um rapaz correto, adorava voltar para casa
pelo caminho das putas. Era menos entediante e sempre lhe apresentava novidades.
Certo dia, reconheceu a meretriz saindo do hotel com um rapaz desajeitado.
Era a vizinha do 33. A puritana.
No outro dia, pela manhã, pediu a ela emprestado meia dúzia de ovos.
Lambuzaram-se até o anoitecer.

Élisson Silva

sábado, 1 de dezembro de 2012


Ela caía por aquele homem.
À noite, debatia-se por não se aguentar em ansiedade.
Quem era ele? O que pretendia?
Enxergava-o como um símbolo da correção, razão contida,
metódico e sistemático, infalível.
“Ah! Pra que tentar decifrá-lo?”, pensou.
Resolveu parar com aquelas indagações inquietantes:
livrar a frivolidade da dúvida.
Orgulhosa de si, viu-se encerrada.
Ao despedir-se dele, ele sussurra:
“Tens o rosto de um passado seguro.”
Vai embora cercada de dúvidas novamente.

Elisson Silva